Sozinho, pinto um quadro. Gosto do silêncio profundo da mata. Só o cantar da seriema me alegra. Alguns a chamam de sariema, é o falar de pessoas incultas. Seu tamanho é tamanho é médio e gosta mais de correr rapidamente a voar. Noto que se alimenta de pequenos insetos, lagartos e cobras menores. Viu um pé de caju e correu para perto dele, alimentando-se de seus frutos. Como é desconfiada! Parece Martha, minha irmã que é muito desconfiada a tudo e todos. Comentam que o canto da seriema avisa que a chuva vai parar! Que bom! Quero continuar a pintar e não quero que chova!
Dei um pão que trouxe na matula e a seriema começou a bicar. Gostou! Uma vive está junto de outra. Vi uma moça persegui-la e ela voou. Tia Rosita, paraguaia, me ensinou o nome da seriema em tupi, nhandu!
Começa a cair o sereno da noite e elas abrigam-se no alto das árvores, onde também constroem seus ninhos. Pintava exatamente algumas emas a correr sobre os pedregulhos. Trouxe uma rede para armar entre duas árvores e dormir!
Impresiona-me a beleza de um riacho de águas cristalinas onde posso ver as pedrinhas brancas no fundo das águas. Belo campo cheiro de lixeiras, tortas e belas! Há muitas casas de cupins enfileiradas ao lado dos caminhos que percorro.
Garças brancas cruzam o céu que começa a escurecer. É a noite que chega!
Lembro-me de algo. Foi um vexame que sofri, quando o fotógrafo Chau administrava as Águas Quentes. Deu-me um quarto a ser compartilhado com uma velhinha de baixa estatura, magra, cabelos branquinhos, que calculei ter oitenta anos e pouco. Apresentaram-me a algumas moças bem mais velhas que eu. Corria o ano de 1949. Tinha 14 anos!
Rosa, Rita e Nina estavam com medo de dormir sozinhas no quarto e conviaram-me para dormir com elas. Não havia nada de mal,uma vez que sou homossexual. Aceitei!
No dia seguinte, a velhinha talvez enciumada por saber que deixei de domir em seu quarto para dormir no quarto das jovens, veio contra mim. Fez um escarcel! Contou a todos os hóspedes e acabei sendo expulso de lá! Imagine só, eu, com 14 anos e gay, ter dormido com as três moças de mais de vinte anos!
A velha gritava de raiva! Em altos brados me chamou de bandido, aproveitador de mocinhas e outros nomes piores.
Diante dos hóspedes do hotel fiquei rubro de vergonha. Chorei, solucei! Abatido e traumatizado com a situação vexatória, peguei minha malinha e sumi pelos meandros do mato.
Foi nesse dia que fui para a Guia e convivi com as seriemas. Um senhor me deu carona de caminhão.
Filho de pais separados, a família da linha paterna era bem situada, rica mesmo! Meu tio era político afamado e bem colocado na vida. Vovô deixou a Usina com um de seu filhos. Quando visitava vovó, que morava em bela casa, era bem recebido e ao alomoçar com ela, não sei a razão, mas era comum derrubar um copo, um prato e até uma bela compoteira. Acho que ficava nervoso! Papai, quando estava presente, dava um show de repreensão. Eita papai! Vovô, calado e bom, nunca reclamou e pedia calma a seu filho. Quando tinha festa, aí me esbaldava. Enchia os bolsos de docinhos para levar à mamãe! Não era só eu que fazia isso, mas todos meus irmãos que pensavam na querida mamãe!
A educação dada pela mamãe era muito rígida, presa aos preceitos da igreja Presbiteriana. Não deixava ninguém tomar banho com o outro, nem irmão com irmão e muito menos irmão com irmã. Na cabeça dela, por ter sido mulher de um doente sexual, via sexo em tudo.
Um dia Martha disse ‘merda’ e mamãe pegou uma brasa e trouxe na colher, ameaçando-a de queimar a sua língua. Ela ficou desesperada, mas mamãe apenas ameaçava.
Mamãe recebeu uma carta de sua amiga – Erna Reiners Vilá – que era casada com seu João e tinha uma filha de nome Leopoldina. Convifou-lhe para ir conhecer Curitiba e ajudar a fazer os docinhos na festa de aniversário de sua filha. Ela gostou do convite e aceitou.
Foi. Nós - Hélio Mário, Martha, eu e Nilinho – ficamos sob a proteção de nossa irmã Dely, que tinha apenas dezoito anos. Dely era parecida com mamãe e nos proibia de tudo. Martha chocava-se muito com ela. Certa vez, pegou algumas moedas da Livraria, chamou a Lúcia e pediu para comprar uns carmelhos no Chico Jorge. Ao voltar com o pacote, Dely quis saber quem havia dado dinheiro para comprar as balas, Soube que foi a nossa Pretinha. Então distribuiu carmamelos Tofee a todas as crianças, menos a ela, que ficou chorando e xingando a irmã. Repetia: “Você não é minha mãe!”
Ao chegar o Carnaval, os mais velhos foram ao retiro no Colégio de Buriti, perto da Chapada. Fiquei com a vovó. Livre, feliz da vida, fui com meus primos no Feminino, na época era o melhor clube de Cuiabá. Também pulei, dancei, tomei até um copo de cerveja que Edu me deu! Era o mais endiabrado da turma! Dancei nos quatro dias de Carnaval! Dancei, cantei e tomei apenas um copo de cerveja! Gostava de dançar o frevo do Nordeste e o samba carioca!
Assim me despedia de Cuiabá, porque em 1950, chegou a carta de mamãe mandando vender a Livraria e ordenando que fôssemos para a fria Curitiba, onde já alugara uma casa, à rua Visconde de Nacar.
Não muito alegre, tive que ir. Fui pelo CAN – Correio Aéreo Nacional – até São Paulo. Ali fiquei alguns com os tios Arnaldo e Rosita, e as primas Zóia e Loire,
Carreguei comigo toda minha alegria de viver! Pensei em conhecer novos horizontes, nova gente descendente de estrangeiros, pinheirais, caquizeiros...
Que cidade fria! Não só a cidade mas também as pessoas! Os vizinhos tampouco nos davam Bom-dia! Que gente mais esquisita! Como antes, nossa vida era na Presbiteriana! Ainda bem que o pastor Emrich fazia belos sermãos. Menos mal! Os fiéis era fanáticos por ele!
Fiz 15 anos! Mamãe fez o bolo confeitado, com as velinhas. Recebemos visita do pastor e de alguns crentes. Não havia aquela festa animada dos velhos aniversários de Cuiabá! A saudade foi me deixando triste! Mamãe tonou-se a melhor Confeiteira de Curitiba. Fez bolos de noiva para três filhas de governadores: Moisés Lupion, Bento Munhoz da Rocha e Ney Braga. Expunha seus bolos em armação de papelão na Joclena, loja da rua XV de novembro. Dava aulas de Alta Confeitarias às socialites curitibanas. Fez muitas amizades!
Explodia em mim vontade de fazer sexo!
Surgiu um passeio a Campinas, SP. Mamãe me mandou e fiquei hospedado em um Seminário Presbiteriano. Conheci um rapaz da minha idade e tivemos forte atração. Passeávamos juntos, fotografávamos e ríamos muito. Sentia-se confuso... Ele me abraçou,beijou e dormimos juntos. Não chegamos aos finais!... Que pena!
Estudava no Colégio Estadual do Paraná, onde fiz muitas amizades com moças e rapazes.
De 1950 a 1953, ou seja, entre 15 e 18 anos, tornei-me exatamente como mamãe queria: crente!
No verão de 1953, saí do colégio e fui caminhando pelo Passeio Público, um local onde havia lagos, barcos e outros brinquedos infantis. Um senhor aproximou-se e perguntou-me as horas. Respondi e segui em frente. O senhor veio ao meu encalço e perguntou-me se tinha namorada. Estranhei a pergunta e notei haver algo de errado. Seguiu comigo a conversar. De repente o assunto passou a sexo.
– Seu pênis é grande? Fiquei extremamente nervoso. Não respondi. Ele era tinhoso e não desistia. Entramos no cemitério e fomos olhando os mausoléus e túmulos. Viu um lugar escondido e puxou-me para lá. Abriu minha braguilha, retirou o pênis e começou a masturbar-me, nervosamente. A fogueira se acendeu! Tivemos um ato sexual em pleno cemitério, no chão. Eu era ativo e passivo. Exerci ambos. O homem vibrava e quase gritava de emoção. Eu também! O homem era gostoso!
Parabéns Martha !
ResponderExcluir