Verão de 1945. Moramos em nova casa, que ficava atrás da Livraria e
Papelaria Americana, que mamãe comprou de dona Pomba – Eulina Gomes de Barros
-, casada com o senhor Américo Gomes de Barros, telegrafista dos Correios, pais
de grande família.
Do outro lado da rua fica a Igreja Presbiteriana de Cuiabá, cujo
pastor chama-se Augusto de Araújo. Mamãe ficou eufórica, porque era só
atravessar e já estávamos dentro da igreja. Era sua paixão!
Na frente ficava a sala da Livraria. Logo atrás tinha um quarto grande
onde dormiam mamãe, Hélio Mário e Dely. Martha gostava de dormir na rede, no
corredor, ao lado da livraria onde vendíamos livros, papéis, canetas, lápis,
pastas, livros escolares e outros. Na sala de jantar, onde temos uma belo móvel
antigo (cristaleira), mamãe pôs um biombo, e atrás dormiam os homens: Nilo, Íbsen
e eu. Dormíamos em redes. Edmundo foi estudar no Rio de Janeiro.
Aos dez anos, por determinação da mamãe cabia-me comprar carne no
açougue, cedinho. Neste período era
costume dos cuiabanos acordar cedo e ir ao açougue. Quem chegasse antes
escolhia o melhor pedaço de carne. Acordava entre quatro e cinco horas da
madrugada. Como fazia muito calor e não tínhamos sequer um ventilador, era com
muita alegria que a gente pulava da rede e saía a caminhar pelas ruas do
centro. Ia à Praça da República e sentava-me junto à Cabeça de Boi, localizada
no meio da praça. Tinha duas escadas laterais e em cima localizavam-se os
postes de iluminação.
Sempre tive acentuado amor pela natureza e olhava para o Morro Avelino.
Via a grande bola avermelhada do sol raiar e tomar conta da cidade. Seus raios
dourados e vermelhos eram vistos por todos. Eu, aos dez anos, deitava-me na
grama verde e sonhava com uma vida melhor no futuro. Eram belas as palmeiras
imperiais! Garotos passavam com cestos de palha cheios de bolos de arroz e de
queijo para vender.
Eu, magrinho, desajeitado, dono de um grande nariz (parecido com o do
meu pai), sentia-me leve tal um bailarino a correr como uma pluma que valsa no
ar! O meu jeitinho denunciava a malícia de muita gente que comumente me chamava
de ‘mariquinha’. Doía! Mas o que fazer se nasci assim?
Felizmente, nossa situação financeira era melhor. Mamãe comprou roupas
novas e sapatos para todos os filhos.
Ao lado de nossa casa morava uma família: casal e dois filhos lindos.
O marido tinha uma cara muito séria e nem olhava para os pequenos como eu. A
mulher era morena, bonita e às vezes passava a mão sobre a minha cabeça. Porém
uma desgraça aconteceu. Ele dirigia seu carro em Várzea Grande, junto com o
filho. Repentinamente se deu o acidente, que o matou na hora. O jovem filho foi
salvo.
Nossa casa era parede e meia com a deles. De madrugada, ouvia o
soluçar da viúva que não aceitava a realidade. Sua alma estava ferida! Após o
enterro, jogou no esgoto próximo todas as mudas de orquídeas, porque alguém lhe
contou que ter aquelas plantas atraía o mal.
Dava azar! Não queria mais nenhuma dentro de sua casa!
Fui pegá-las uma a uma e levei para o nosso quintal. Molhava
carinhosamente e de repente começaram as nascer as mais belas orquídeas! Cada
uma que se abria me oferecia alegria ímpar! Eram de variadas cores: lilás,
amarela, rosada e outras cores.
Na Escola Modelo “Barão de Melgaço” onde estudava meus colegas mais
abusados me xingavam de ‘mariquinha’. Como era dolorido! Sentia-me afrontado e
ia chorar no banheiro da escola. Lágrimas grossas! De noite, sozinho na rede,
relembrava tudo e novamente chorava.
Um guri que se sentava do meu lado dava-me uma moeda para passar as
mãos em suas pernas.
Em uma das manhãs, voltei do açougue, e meu irmão mais novo de apenas
dois anos inocentemente sentou-se no meu colo. Sem malícia nenhuma ficamos a
ver passar os verdureiros que gritavam tudo que tinham para vender. Mamãe viu e me deu uma “olhadura”, severa mesmo,
que até hoje dói em meu peito! Arrancou-o do meu colo e deu-me um beliscão.
Compreendi o que pensou! Mas estava inocente. Não tinha maldade nenhuma! Era
meu irmão!
Mamãe era maliciosa! Para mim a dor moral foi enorme! Fiquei ferido
por anos e anos!
Nesse período tínhamos uma empregada de nome Eugênia, nascida no
Sucuri. Como mamãe era amiga da esposa do Dr. Vargas, diretor do manicômio,
aquelas que não estavam tão ruins da cabeça ela dava às amigas. Eugênia
esfregava um taxo com areia e sabão que depois brilhava como espelho. Lavava e
passava roupa muito bem! Era negra forte, alta e tinha poucos dentes na boca. Gostava
de cantar músicas de cururu e siriri. Rebolava muito ao andar.
Eugenia apaixonou-se pelo Íbsen. Cozinhar ela não sabia, mas ia buscar
a marmita na casa do tio Olavo. Comida gostosa de tia Aída! Não gostava de
calçar sapato e nem sandália. Andava descalça. Certa vez, ao trazer a marmita,
viu o mano e sua namoradinha no banco da praça. Pôs a marmita no chão e
encontrou um balde esquecido pelo jardineiro, com o qual deu um banho no casal,
além de fazer a maior descompostura em alta voz.
O mano Nilo nunca gostou de ir à igreja e não ia mesmo! Mamãe deu-lhe
tremendas surras, mas ele jamais cedeu ao gosto dela. Era rebelde! Ia ao
cinema, jogava futebol com seus amigos, namorava e chegou a subir no telhado e
disse uma porção de verdade à mamãe.
Dely era a filha mais meiga e amiga da nossa mãe. As duas se
compreendiam! Era a filha ideal! Mamãe
só não aprovou seu namoro com Vicente. Mas foi coisa rápida! Acabou depressa!
Cuiabá festejava a volta dos pracinhas da 2ª Guerra Mundial, entre os
quais se achava nosso tio Arnaldo. Aos dez anos, também quis apreciar a festa!
Cuiabá se enfeitou por inteiro! Grande número se aglomerou na Praça da
República e no Jardim Alencastro.
Encontrei-me com dois colegas de escola – Fauze e Jupeir – de famílias
árabes. Alguém me contou que Jupeir era filha da famosa prostituta Maria
Umbelina. Nós três andamos pela cidade e até tomamos sorvete no bar do Chico
Jorge, que Fauze pagou. Um deles me
convidou para ir lá atrás da Escola Barão de Melgaço. Achei estranho, mas me
afirmaram ter algo para me mostrar. Era noite escura, talvez fosse lua
minguante. Lá, um deles me agarrou. Era frágil! Quiseram tirar minha calça.
Esperneei fortemente. Gritei com todas as forças. Perceberam que não seria tão
fácil abusar de um menino fraco de apenas dez anos! Saí correndo e gritando ao
mesmo tempo! Largaram-me!
Os soldados da FEB chegaram mais ou menos à meia noite! Foram
recebidos com gritos, palmas, flores, abraços e beijos dos seus familiares.
Mas, eu estava cansado, havia lutado como um leão contra aqueles dois!
Não pude demonstrar alegria alguma! Era tão comum me chamarem de ‘mariquinha’.
Aquilo era como se enfiassem uma lança afiada no meu coração! Mas, meus gestos,
meu jeito de andar, minhas atitudes sensíveis diante da beleza condenavam-me.
Era como uma menina! Quem foi que pediu para eu nascer assim?!...
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