Eu, às vésperas de fazer 19
anos, já estava mais à vontade, apesar da chuva fria, sexo e agasalhos de lã.
Meu próximo encontro com um
homossexual foi naquele zonzem da Carlos Gomes, onde havia um ponto de encontro
gay. Um senhor, tão logo me viu, saiu de onde estava e sentou-se ao meu
lado. Travou breve diálogo e indagou se
gostaria de dar um passeio no Parque da Cidade. Com os neurônios fervendo,
entendi ligeiro que era um convite para fazermos sexo. Ora, aceitei na hora!
Ficamos atrás de um alto
capinzal. Ele desceu a calça e deixou-me à vontade para entrar naquele vaivém
delicioso. Era passivo! Antes, porém, praticou felação com meu pênis. Só depois
praticamos o ato sexual. Revelou-me que prefere ser passivo, porque sente
grande prazer.
Saímos de lá totalmente
realizados. Este passou a ser meu par habitual em todas as semanas em que
comparecia ao ponto de encontro.
Caísse a mais fria chuva
invernal, fizesse frio descomunal e lá estava eu! Tinha bons agasalhos.
Lá era um grande parque com
gaiolas: macacos, onças, pássaros e a ‘bicharada” – que éramos nós! Era
"habitué” do afamado ou difamado lugar! Andava de um lado para outro como quem
não quer nada e, repentinamente, surgia o que tanto almejava! Sempre tinha
alguém que gostaria de fazer uma ‘brincadeirinha’ comigo! Meu cu até ardia de
tão fogoso!
Alguns se limitavam aos
abraços e beijos, mas a grande maioria desejava mesmo fazer amor. Havia uma
gama enorme de homossexuais passivos, se bem que outros eram ativos.
Gorcel era um homem negro,
alto, um vozeirão, vindo do Norte, que tinha um pênis fenomenal. Muito grande!
Era ativo e alguns amigos fugiam dele, porque era uma relação dolorida. Saí com
ele umas três vezes, depois desisti. Saía até sangue e ele urrava como um leão
na hora do gozo. Tínhamos que ficar em lugares bem desertos. Outra coisa que
fazia questão era de que enfiássemos uma vela grossa nele, antes de começar a
‘brincadeira’. Ria muito com isso. Certa vez até gozou! Mas era apenas o
começo, porque uma relação com ele demorava mais de duas horas. Ele costumava
dar uma descansada. Beijava muito, abraçava, e na hora da penetração o fazia
devagar. Queria sentir cada milímetro! Nunca esqueci Gocel, que era mecânico de
uma oficina na Carlos de Carvalho. Deu-me até uma blusa de lã muito bonita!
Encontrei uma mulher bem
vulgar de cabelos cor de fogo, chamada Raina.
Era bem jovem, talvez tivesse 17 anos. Cheirava a flor de laranjeira,
era muito limpa. Deitamos no gramado. Era noite muito escura. Quebrei a regra, consegui penetrar ela como
um homem. Demos muitas risadas! Tornou-se minha amiga e vez por outra me trazia
um sanduiche feito por ela. Não repeti a dose. O último encontro que marcou
comigo não fui. Na verdade, gostava de
ser homossexual, ativo e passivo.
Fui passivo poucas
vezes. Gorcel me deixou dolorido por
muito tempo, porque não era normal o tamanho de seu pênis.
Numa dessas noites encontrei
um estudante de Administração, gaúcho, que me convidou para visitar seu
apartamento. Ficava pertinho. Era um
ambiente bem decorado, móveis de primeira linha, e o rapaz era educado.
Tratou-me muito bem, ofereceu-me até uma taça de vinho chileno. Na intimidade
de sua cama de casal, em total liberdade, ele pediu-me que queria ser ativo.
Deixei. Na segunda, fui eu! Rimos! Ficamos nesse troca-troca até quase três da
manhã! Saí correndo, porque a mamãe iria
achar ruim a minha demora. Realmente, me esperava na entrada da nossa casa e
reclamou da minha demora. Inventei ter ido a um aniversário.
- Não demore tanto da próxima
vez! – alertou-me.
Com Jair, nome do gaucho de
Porto Alegre, fui visitar outros apartamentos de homossexuais. Muitos eram
escandalosos e sujos. Conheci Bartira, nome de fé, que era extremamente
afeminada.
Continuava a ir à
Presbiteriana, cantar, ler a bíblia, ouvir sermões e orações dos frequentadores
assíduos. Tornou-se tão natural para mim, que nem me importava com os
versículos que me davam para ler em voz alta.
Uni sexo, igreja, família,
amigos, tudo!
Fui ao norte do Paraná, onde
morava minha irmã e meu cunhado. Ele saiu candidato a prefeito. Era médico e
bem conceituado entre os moradores da pequena cidade. Junto a vários rapazes e homens da comitiva
da UDN, ao passar por Cambará, fui levado a um local desconhecido. Era um
bordel! Fiquei enojado, porque não era o ambiente que desejava para mim. Eles
fizeram amor com prostitutas dali.
Uma mulata de cabelo sarará
aproximou-se de mim, abraçou-me, puxou-me para seu quarto. Quase morri! Tirou
suas roupas e deitou-se sobre mim. Percebi que tinha a carne da barriga
queimada, porque era repuxada. Nada lhe falei, mas pedi para sair de lá. Ela me
perguntou: - Você é bichinha? Respondi:
- Sou!
Tinha plena consciência do
que era e daquilo que queria.
Voltei a pintar muito. Entrei
para a Escola de Belas Artes do Paraná. Fui aluno do artista renomado Guido
Viaro. Isto constituiu para mim um grande passo, porque deixei de pensar tanto
em sexo.
Em bela manhã de sol, rara em
Curitiba, no “Dia das Mães” eu e minha irmã mais velha fomos à Igreja
Presbiteriana. Levávamos uma rosa, cada um, para fazer a entrega à nossa mãe,
na igreja. Ao passar por um grupo de rapazes, estes acharam muito afeminado meu
jeito de segurar a rosa e lançaram gracejos. “Olha só, ELA vai linda com a rosa
na mão!” Ou: “Que veadinho mais gracioso!” Levei um susto tremendo, por estar
junto da minha irmã. Senti enorme vergonha, nem conseguia andar direito, tive
vontade de jogar longe aquela maldita rosa!
Nunca esquecerei esse vexame!
Era 1952 e estava com 17
anos! A mana tinha 21 anos!
No Colégio Estadual do Paraná
contava alguma coisa a meus colegas, quando um deles me disse em voz alta: “Ei,
rapaz, fala como um homem! Do jeito que fala parece uma bicha!”. Calei-me.
Discretamente saí do meio deles. Procurei um lugar escondido onde chorei
amargamente.
Solitário, era comum fugir
dos colegas e nunca andava em turma. Buscava locais tranquilos e andava no
arredor da cidade, a contemplar a bela natureza das araucárias!
A voz do silêncio parecia me
cochichar coisas boas no ouvido. No convívio da sociedade sempre encontrei um
espírito de porco para me humilhar! Súbito alguém me jogaria por terra! Lembrei-me do livro que li
aos 12 anos, “O Pequeno Príncipe”, “o
que se vê com o coração amargurado é invisível aos olhos alheios.”
Em minha casa meus irmãos
sempre me respeitaram. Minha mãe também!
Começo a pensar em deixar o
Brasil, estudar Artes Plásticas na França!
Nenhum comentário:
Postar um comentário