domingo, 11 de março de 2012

CHUVA FINA, FRIO, SEXO!

A Praça Carlos Gomes, próximo do nosso novo endereço: Rua Vicente Machado, 166, que Martha conseguiu localizar com seu faro de jornalista. Conversou com o dono e depois levou a mamãe para ver. Gostou. O Sr. Brasílio nos alugou a grande casa. Ele passou a morar no porão com a dona Maria e sua filha.

Eu, às vésperas de fazer 19 anos, já estava mais à vontade, apesar da chuva fria, sexo e agasalhos de lã.

Meu próximo encontro com um homossexual foi naquele zonzem da Carlos Gomes, onde havia um ponto de encontro gay. Um senhor, tão logo me viu, saiu de onde estava e sentou-se ao meu lado.  Travou breve diálogo e indagou se gostaria de dar um passeio no Parque da Cidade. Com os neurônios fervendo, entendi ligeiro que era um convite para fazermos sexo.  Ora, aceitei na hora!

Ficamos atrás de um alto capinzal. Ele desceu a calça e deixou-me à vontade para entrar naquele vaivém delicioso. Era passivo! Antes, porém, praticou felação com meu pênis. Só depois praticamos o ato sexual. Revelou-me que prefere ser passivo, porque sente grande prazer.

Saímos de lá totalmente realizados. Este passou a ser meu par habitual em todas as semanas em que comparecia ao ponto de encontro.

Caísse a mais fria chuva invernal, fizesse frio descomunal e lá estava eu! Tinha bons agasalhos.

Lá era um grande parque com gaiolas: macacos, onças, pássaros e a ‘bicharada” – que éramos nós! Era "habitué” do afamado ou difamado lugar! Andava de um lado para outro como quem não quer nada e, repentinamente, surgia o que tanto almejava! Sempre tinha alguém que gostaria de fazer uma ‘brincadeirinha’ comigo! Meu cu até ardia de tão fogoso!

Alguns se limitavam aos abraços e beijos, mas a grande maioria desejava mesmo fazer amor. Havia uma gama enorme de homossexuais passivos, se bem que outros eram ativos.

Gorcel era um homem negro, alto, um vozeirão, vindo do Norte, que tinha um pênis fenomenal. Muito grande! Era ativo e alguns amigos fugiam dele, porque era uma relação dolorida. Saí com ele umas três vezes, depois desisti. Saía até sangue e ele urrava como um leão na hora do gozo. Tínhamos que ficar em lugares bem desertos. Outra coisa que fazia questão era de que enfiássemos uma vela grossa nele, antes de começar a ‘brincadeira’. Ria muito com isso. Certa vez até gozou! Mas era apenas o começo, porque uma relação com ele demorava mais de duas horas. Ele costumava dar uma descansada. Beijava muito, abraçava, e na hora da penetração o fazia devagar. Queria sentir cada milímetro! Nunca esqueci Gocel, que era mecânico de uma oficina na Carlos de Carvalho. Deu-me até uma blusa de lã muito bonita!

Encontrei uma mulher bem vulgar de cabelos cor de fogo, chamada Raina.  Era bem jovem, talvez tivesse 17 anos. Cheirava a flor de laranjeira, era muito limpa. Deitamos no gramado. Era noite muito escura.  Quebrei a regra, consegui penetrar ela como um homem. Demos muitas risadas! Tornou-se minha amiga e vez por outra me trazia um sanduiche feito por ela. Não repeti a dose. O último encontro que marcou comigo não fui.  Na verdade, gostava de ser homossexual, ativo e passivo.

Fui passivo poucas vezes.  Gorcel me deixou dolorido por muito tempo, porque não era normal o tamanho de seu pênis.

Numa dessas noites encontrei um estudante de Administração, gaúcho, que me convidou para visitar seu apartamento. Ficava pertinho.  Era um ambiente bem decorado, móveis de primeira linha, e o rapaz era educado. Tratou-me muito bem, ofereceu-me até uma taça de vinho chileno. Na intimidade de sua cama de casal, em total liberdade, ele pediu-me que queria ser ativo. Deixei. Na segunda, fui eu! Rimos! Ficamos nesse troca-troca até quase três da manhã!  Saí correndo, porque a mamãe iria achar ruim a minha demora. Realmente, me esperava na entrada da nossa casa e reclamou da minha demora. Inventei ter ido a um aniversário.

- Não demore tanto da próxima vez! – alertou-me.

Com Jair, nome do gaucho de Porto Alegre, fui visitar outros apartamentos de homossexuais. Muitos eram escandalosos e sujos. Conheci Bartira, nome de fé, que era extremamente afeminada.

Continuava a ir à Presbiteriana, cantar, ler a bíblia, ouvir sermões e orações dos frequentadores assíduos. Tornou-se tão natural para mim, que nem me importava com os versículos que me davam para ler em voz alta.

Uni sexo, igreja, família, amigos, tudo!

Fui ao norte do Paraná, onde morava minha irmã e meu cunhado. Ele saiu candidato a prefeito. Era médico e bem conceituado entre os moradores da pequena cidade.  Junto a vários rapazes e homens da comitiva da UDN, ao passar por Cambará, fui levado a um local desconhecido. Era um bordel! Fiquei enojado, porque não era o ambiente que desejava para mim. Eles fizeram amor com prostitutas dali.

Uma mulata de cabelo sarará aproximou-se de mim, abraçou-me, puxou-me para seu quarto. Quase morri! Tirou suas roupas e deitou-se sobre mim. Percebi que tinha a carne da barriga queimada, porque era repuxada. Nada lhe falei, mas pedi para sair de lá. Ela me perguntou: - Você é bichinha?  Respondi: - Sou!

Tinha plena consciência do que era e daquilo que queria.

Voltei a pintar muito. Entrei para a Escola de Belas Artes do Paraná. Fui aluno do artista renomado Guido Viaro. Isto constituiu para mim um grande passo, porque deixei de pensar tanto em sexo.

Em bela manhã de sol, rara em Curitiba, no “Dia das Mães” eu e minha irmã mais velha fomos à Igreja Presbiteriana. Levávamos uma rosa, cada um, para fazer a entrega à nossa mãe, na igreja. Ao passar por um grupo de rapazes, estes acharam muito afeminado meu jeito de segurar a rosa e lançaram gracejos. “Olha só, ELA vai linda com a rosa na mão!” Ou: “Que veadinho mais gracioso!” Levei um susto tremendo, por estar junto da minha irmã. Senti enorme vergonha, nem conseguia andar direito, tive vontade de jogar longe aquela maldita rosa!  Nunca esquecerei esse vexame!

Era 1952 e estava com 17 anos! A mana tinha 21 anos!

No Colégio Estadual do Paraná contava alguma coisa a meus colegas, quando um deles me disse em voz alta: “Ei, rapaz, fala como um homem! Do jeito que fala parece uma bicha!”. Calei-me. Discretamente saí do meio deles. Procurei um lugar escondido onde chorei amargamente.

Solitário, era comum fugir dos colegas e nunca andava em turma. Buscava locais tranquilos e andava no arredor da cidade, a contemplar a bela natureza das araucárias!

A voz do silêncio parecia me cochichar coisas boas no ouvido. No convívio da sociedade sempre encontrei um espírito de porco para me humilhar! Súbito alguém me  jogaria por terra! Lembrei-me do livro que li aos 12 anos, “O Pequeno Príncipe”,  “o que se vê com o coração amargurado é invisível aos olhos alheios.”

Em minha casa meus irmãos sempre me respeitaram. Minha mãe também!

Começo a pensar em deixar o Brasil, estudar Artes Plásticas na França!

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