domingo, 11 de março de 2012

CHUVA FINA, FRIO, SEXO!

A Praça Carlos Gomes, próximo do nosso novo endereço: Rua Vicente Machado, 166, que Martha conseguiu localizar com seu faro de jornalista. Conversou com o dono e depois levou a mamãe para ver. Gostou. O Sr. Brasílio nos alugou a grande casa. Ele passou a morar no porão com a dona Maria e sua filha.

Eu, às vésperas de fazer 19 anos, já estava mais à vontade, apesar da chuva fria, sexo e agasalhos de lã.

Meu próximo encontro com um homossexual foi naquele zonzem da Carlos Gomes, onde havia um ponto de encontro gay. Um senhor, tão logo me viu, saiu de onde estava e sentou-se ao meu lado.  Travou breve diálogo e indagou se gostaria de dar um passeio no Parque da Cidade. Com os neurônios fervendo, entendi ligeiro que era um convite para fazermos sexo.  Ora, aceitei na hora!

Ficamos atrás de um alto capinzal. Ele desceu a calça e deixou-me à vontade para entrar naquele vaivém delicioso. Era passivo! Antes, porém, praticou felação com meu pênis. Só depois praticamos o ato sexual. Revelou-me que prefere ser passivo, porque sente grande prazer.

Saímos de lá totalmente realizados. Este passou a ser meu par habitual em todas as semanas em que comparecia ao ponto de encontro.

Caísse a mais fria chuva invernal, fizesse frio descomunal e lá estava eu! Tinha bons agasalhos.

Lá era um grande parque com gaiolas: macacos, onças, pássaros e a ‘bicharada” – que éramos nós! Era "habitué” do afamado ou difamado lugar! Andava de um lado para outro como quem não quer nada e, repentinamente, surgia o que tanto almejava! Sempre tinha alguém que gostaria de fazer uma ‘brincadeirinha’ comigo! Meu cu até ardia de tão fogoso!

Alguns se limitavam aos abraços e beijos, mas a grande maioria desejava mesmo fazer amor. Havia uma gama enorme de homossexuais passivos, se bem que outros eram ativos.

Gorcel era um homem negro, alto, um vozeirão, vindo do Norte, que tinha um pênis fenomenal. Muito grande! Era ativo e alguns amigos fugiam dele, porque era uma relação dolorida. Saí com ele umas três vezes, depois desisti. Saía até sangue e ele urrava como um leão na hora do gozo. Tínhamos que ficar em lugares bem desertos. Outra coisa que fazia questão era de que enfiássemos uma vela grossa nele, antes de começar a ‘brincadeira’. Ria muito com isso. Certa vez até gozou! Mas era apenas o começo, porque uma relação com ele demorava mais de duas horas. Ele costumava dar uma descansada. Beijava muito, abraçava, e na hora da penetração o fazia devagar. Queria sentir cada milímetro! Nunca esqueci Gocel, que era mecânico de uma oficina na Carlos de Carvalho. Deu-me até uma blusa de lã muito bonita!

Encontrei uma mulher bem vulgar de cabelos cor de fogo, chamada Raina.  Era bem jovem, talvez tivesse 17 anos. Cheirava a flor de laranjeira, era muito limpa. Deitamos no gramado. Era noite muito escura.  Quebrei a regra, consegui penetrar ela como um homem. Demos muitas risadas! Tornou-se minha amiga e vez por outra me trazia um sanduiche feito por ela. Não repeti a dose. O último encontro que marcou comigo não fui.  Na verdade, gostava de ser homossexual, ativo e passivo.

Fui passivo poucas vezes.  Gorcel me deixou dolorido por muito tempo, porque não era normal o tamanho de seu pênis.

Numa dessas noites encontrei um estudante de Administração, gaúcho, que me convidou para visitar seu apartamento. Ficava pertinho.  Era um ambiente bem decorado, móveis de primeira linha, e o rapaz era educado. Tratou-me muito bem, ofereceu-me até uma taça de vinho chileno. Na intimidade de sua cama de casal, em total liberdade, ele pediu-me que queria ser ativo. Deixei. Na segunda, fui eu! Rimos! Ficamos nesse troca-troca até quase três da manhã!  Saí correndo, porque a mamãe iria achar ruim a minha demora. Realmente, me esperava na entrada da nossa casa e reclamou da minha demora. Inventei ter ido a um aniversário.

- Não demore tanto da próxima vez! – alertou-me.

Com Jair, nome do gaucho de Porto Alegre, fui visitar outros apartamentos de homossexuais. Muitos eram escandalosos e sujos. Conheci Bartira, nome de fé, que era extremamente afeminada.

Continuava a ir à Presbiteriana, cantar, ler a bíblia, ouvir sermões e orações dos frequentadores assíduos. Tornou-se tão natural para mim, que nem me importava com os versículos que me davam para ler em voz alta.

Uni sexo, igreja, família, amigos, tudo!

Fui ao norte do Paraná, onde morava minha irmã e meu cunhado. Ele saiu candidato a prefeito. Era médico e bem conceituado entre os moradores da pequena cidade.  Junto a vários rapazes e homens da comitiva da UDN, ao passar por Cambará, fui levado a um local desconhecido. Era um bordel! Fiquei enojado, porque não era o ambiente que desejava para mim. Eles fizeram amor com prostitutas dali.

Uma mulata de cabelo sarará aproximou-se de mim, abraçou-me, puxou-me para seu quarto. Quase morri! Tirou suas roupas e deitou-se sobre mim. Percebi que tinha a carne da barriga queimada, porque era repuxada. Nada lhe falei, mas pedi para sair de lá. Ela me perguntou: - Você é bichinha?  Respondi: - Sou!

Tinha plena consciência do que era e daquilo que queria.

Voltei a pintar muito. Entrei para a Escola de Belas Artes do Paraná. Fui aluno do artista renomado Guido Viaro. Isto constituiu para mim um grande passo, porque deixei de pensar tanto em sexo.

Em bela manhã de sol, rara em Curitiba, no “Dia das Mães” eu e minha irmã mais velha fomos à Igreja Presbiteriana. Levávamos uma rosa, cada um, para fazer a entrega à nossa mãe, na igreja. Ao passar por um grupo de rapazes, estes acharam muito afeminado meu jeito de segurar a rosa e lançaram gracejos. “Olha só, ELA vai linda com a rosa na mão!” Ou: “Que veadinho mais gracioso!” Levei um susto tremendo, por estar junto da minha irmã. Senti enorme vergonha, nem conseguia andar direito, tive vontade de jogar longe aquela maldita rosa!  Nunca esquecerei esse vexame!

Era 1952 e estava com 17 anos! A mana tinha 21 anos!

No Colégio Estadual do Paraná contava alguma coisa a meus colegas, quando um deles me disse em voz alta: “Ei, rapaz, fala como um homem! Do jeito que fala parece uma bicha!”. Calei-me. Discretamente saí do meio deles. Procurei um lugar escondido onde chorei amargamente.

Solitário, era comum fugir dos colegas e nunca andava em turma. Buscava locais tranquilos e andava no arredor da cidade, a contemplar a bela natureza das araucárias!

A voz do silêncio parecia me cochichar coisas boas no ouvido. No convívio da sociedade sempre encontrei um espírito de porco para me humilhar! Súbito alguém me  jogaria por terra! Lembrei-me do livro que li aos 12 anos, “O Pequeno Príncipe”,  “o que se vê com o coração amargurado é invisível aos olhos alheios.”

Em minha casa meus irmãos sempre me respeitaram. Minha mãe também!

Começo a pensar em deixar o Brasil, estudar Artes Plásticas na França!

SOZINHO


Sozinho, pinto um quadro. Gosto do silêncio profundo da mata. Só o cantar da seriema me alegra. Alguns a chamam de sariema, é o falar de pessoas incultas. Seu tamanho é tamanho é médio e gosta mais de correr rapidamente a voar. Noto que se alimenta de pequenos insetos, lagartos e cobras menores. Viu um pé de caju e correu para perto dele, alimentando-se de seus frutos. Como é desconfiada! Parece Martha, minha irmã que é muito desconfiada a tudo e todos. Comentam que o canto da seriema avisa que a chuva vai parar! Que bom! Quero continuar a pintar e não quero que chova!

Dei um pão que trouxe na matula e a seriema começou a bicar. Gostou! Uma vive está junto de outra. Vi uma moça persegui-la e ela voou. Tia Rosita, paraguaia, me ensinou o nome da seriema em tupi, nhandu!

Começa a cair o sereno da noite e elas abrigam-se no alto das árvores, onde também constroem seus ninhos.  Pintava exatamente algumas emas a correr sobre os pedregulhos. Trouxe uma rede para armar entre duas árvores e dormir!

Impresiona-me a beleza de um riacho de águas cristalinas onde posso ver as pedrinhas brancas no fundo das águas. Belo campo cheiro de lixeiras, tortas e belas! Há muitas casas de cupins enfileiradas ao lado dos caminhos que percorro.

Garças brancas cruzam o céu que começa a escurecer. É a noite que chega!

Lembro-me de algo. Foi um vexame que sofri, quando o fotógrafo Chau administrava as Águas Quentes. Deu-me um quarto a ser compartilhado com uma velhinha de baixa estatura, magra, cabelos branquinhos, que calculei ter oitenta anos e pouco. Apresentaram-me a algumas moças bem mais velhas que eu. Corria o ano de 1949. Tinha 14 anos!

Rosa, Rita e Nina estavam com medo de dormir sozinhas no quarto e conviaram-me para dormir com elas. Não havia nada de mal,uma vez que sou homossexual. Aceitei!

No dia seguinte, a velhinha talvez enciumada por saber que deixei de domir em seu quarto para dormir no quarto das jovens, veio contra mim. Fez um escarcel! Contou a todos os hóspedes e acabei sendo expulso de lá! Imagine só, eu, com 14 anos e gay, ter dormido com as três moças de mais de vinte anos!

A velha gritava de raiva! Em altos brados me chamou de bandido, aproveitador de mocinhas e outros nomes piores.

Diante dos hóspedes do hotel fiquei rubro de vergonha. Chorei, solucei! Abatido e traumatizado com a situação vexatória, peguei minha malinha e sumi pelos meandros do mato.

Foi nesse dia que fui para a Guia e convivi com as seriemas. Um senhor me deu carona de caminhão.

Filho de pais separados, a família da linha paterna era bem situada, rica mesmo! Meu tio era político afamado e bem colocado na vida. Vovô deixou a Usina com um de seu filhos. Quando visitava vovó, que morava em bela casa, era bem recebido e ao alomoçar com ela, não sei a razão, mas era comum derrubar um copo, um prato e até uma bela compoteira. Acho que ficava nervoso!  Papai, quando estava presente, dava um show de repreensão. Eita papai! Vovô, calado e bom, nunca reclamou e pedia calma a seu filho. Quando tinha festa, aí me esbaldava. Enchia os bolsos de docinhos para levar à mamãe! Não era só eu que fazia isso, mas todos meus irmãos que pensavam na querida mamãe!

A educação dada pela mamãe era muito rígida, presa aos preceitos da igreja Presbiteriana. Não deixava ninguém tomar banho com o outro, nem irmão com irmão e muito menos irmão com irmã. Na cabeça dela, por ter sido mulher de um doente sexual, via sexo em tudo.

Um dia Martha disse ‘merda’ e mamãe pegou uma brasa e trouxe na colher, ameaçando-a de queimar a sua língua. Ela ficou desesperada, mas mamãe apenas ameaçava.

Mamãe recebeu uma carta de sua amiga – Erna Reiners Vilá – que era casada com seu João e tinha uma filha de nome Leopoldina. Convifou-lhe para ir conhecer Curitiba e ajudar a fazer os docinhos na festa de aniversário de sua filha. Ela gostou do convite e aceitou.
Foi. Nós  - Hélio Mário, Martha, eu e Nilinho – ficamos sob a proteção de nossa irmã Dely, que tinha apenas dezoito anos. Dely era parecida com mamãe e nos proibia de tudo. Martha chocava-se muito com ela. Certa vez, pegou algumas moedas da Livraria, chamou a Lúcia e pediu para comprar uns carmelhos no Chico Jorge. Ao voltar com o pacote, Dely quis saber quem havia dado dinheiro para comprar as balas, Soube que foi a nossa Pretinha. Então distribuiu carmamelos Tofee a todas as crianças, menos a ela, que ficou chorando e xingando a irmã. Repetia: “Você não é minha mãe!”
Ao chegar o Carnaval, os mais velhos foram ao retiro no Colégio de Buriti, perto da Chapada. Fiquei com a vovó. Livre, feliz da vida, fui com meus primos no Feminino, na época era o melhor clube de Cuiabá. Também pulei, dancei, tomei até um copo de cerveja que Edu me deu! Era o mais endiabrado da turma! Dancei nos quatro dias de Carnaval! Dancei, cantei e tomei apenas um copo de cerveja! Gostava de dançar o frevo do Nordeste e o samba carioca!
Assim me despedia de Cuiabá, porque em 1950, chegou a carta de mamãe mandando vender a Livraria e ordenando que fôssemos para a fria Curitiba, onde já alugara uma casa, à rua Visconde de Nacar.
Não muito alegre, tive que ir. Fui pelo CAN – Correio Aéreo Nacional – até São Paulo. Ali fiquei alguns com os tios Arnaldo e Rosita, e as primas Zóia e Loire,
Carreguei comigo toda minha alegria de viver! Pensei em conhecer novos horizontes, nova gente descendente de estrangeiros, pinheirais, caquizeiros...
Que cidade fria! Não só a cidade mas também as pessoas! Os vizinhos tampouco nos davam Bom-dia! Que gente mais esquisita! Como antes, nossa vida era na Presbiteriana! Ainda bem que o pastor Emrich fazia belos sermãos. Menos mal! Os fiéis era fanáticos por ele!
Fiz 15 anos! Mamãe fez o bolo confeitado, com as velinhas. Recebemos visita do pastor e de alguns crentes. Não havia aquela festa animada dos velhos aniversários de Cuiabá! A saudade foi me deixando triste! Mamãe tonou-se a melhor Confeiteira de Curitiba. Fez bolos de noiva para três filhas de governadores: Moisés Lupion, Bento Munhoz da Rocha e Ney Braga. Expunha seus bolos em armação de papelão na Joclena, loja da rua XV de novembro. Dava aulas de Alta Confeitarias às socialites curitibanas. Fez muitas amizades!
Explodia em mim  vontade de fazer sexo!
Surgiu um passeio a Campinas, SP. Mamãe me mandou e fiquei hospedado em um Seminário Presbiteriano. Conheci um rapaz da minha idade e tivemos forte atração. Passeávamos juntos, fotografávamos e ríamos muito. Sentia-se confuso... Ele me abraçou,beijou e dormimos juntos. Não chegamos aos finais!... Que pena!
Estudava no Colégio Estadual do Paraná, onde fiz muitas amizades com moças e rapazes.
De 1950 a 1953, ou seja, entre 15 e 18 anos, tornei-me exatamente como mamãe queria: crente!
No verão de 1953, saí do colégio e fui caminhando pelo Passeio Público, um local onde havia  lagos, barcos e outros brinquedos infantis.  Um senhor aproximou-se e perguntou-me as horas. Respondi e segui em frente. O senhor veio ao meu encalço e perguntou-me se tinha namorada. Estranhei a pergunta e notei haver algo de errado. Seguiu comigo a conversar. De repente o assunto passou a sexo.
– Seu pênis é grande?  Fiquei extremamente nervoso.  Não respondi. Ele era tinhoso e não desistia. Entramos no cemitério e fomos olhando os mausoléus e túmulos. Viu um lugar escondido e puxou-me para lá. Abriu  minha braguilha, retirou o pênis e começou a masturbar-me, nervosamente. A fogueira se acendeu! Tivemos um ato sexual em pleno cemitério, no chão. Eu era ativo e passivo. Exerci ambos. O homem vibrava e quase gritava de emoção. Eu também! O homem era gostoso!

sábado, 10 de março de 2012


Melhor deixar pensar que eu era idiota!



Em 1948, aos treze anos, realizou-se em Cuiabá uma grande exposição agropecuária, em que mamãe expôs seus belos bolos confeitados, juntamento com dona Francisca Capriata Lotufo, conhecida como dona Chiquinha. Elas competiam quanto a maior beleza dos bolos.

Tratava-se de exposição de produtos agrícolas, animais, variados estandes com exposições de roupas, artesanato, sapatos etc. Acontecia anualmente. Hoje ficaram mais famosas pelos rodeios e no final eram eleitas as Rainha e Princesas do evento.

O povo inteiro da cidade se enfeitava, perfumava-se e usava chapéus para comparecer à FEIRA Agropecuária. Era chique!

Em uma delas, fui com alguns amigos e fiquei observando tudo, ocasião em que um senhor de aproximadamente quarenta anos olhava atenta e insistentemente para mim. Era um homem bem vestido, de olhar expressivo e pode-se afirmar que era bonito. O mais importante era que usava farda de militar de alta patente. Aproximou-se e passamos a conversar. Depois de alguns minutos sumiu.

Dias depois, encontrei o coronel na rua. Cumprimentou-me alegremente e convidou-me para tomar um sorvete no Bar do Bugre. Aceitei.  Havia algo de estranho na expressão do seu olhar. Fiquei de ‘botuca’. Tomamos taças de sorvete e bebemos guaraná Zenith geladinho. Por ser um menino pobre, jamais teria dinheiro para gastar com sorvetes e refrigerantes. O senhor era educadíssimo. De repente, curvou sua cabeça junto ao meu ouvido e perguntou: - Quer fazer amor comigo?  Levei susto, mas realmente já esperava por isso. Arredio, olhei bem nos seus olhos e não consegui dizer nada. Novamente repetiu o convite e acrescentou que me daria noventa contos.  Em silêncio, pensei na sua oferta, cujo valor daria para eu comprar um sapato novo, pois o meu estava furado. Mesmo assim fiquei com medo. Disse-lhe: - Não, muito obrigado! Insistiu de novo e aumentou o valor para cem contos. Repeti que “não”. Finalmente desistiu. Deixou-me ir embora.

Nessa época além de despertar-me para o sexo, era importante para mim a vida em contato com a natureza. Prendia-me à beleza das árvores, aos trinados dos pássaros, à beleza do nascer e por do sol, ao encanto das belas flores, às noite enluaradas. Cuiabá era de rara beleza! A beleza da vida era-me importante!

Comecei a desenhar e pintar! Tive ímpeto de transpor para as telas toda aquela beleza que me emocionava. Via beleza em todo lugar! Em início pintava sobre madeira. Fui à Várzea Grande e pintei uma bela estrada e uma casinha solitária, ao lado de belos flamboyants. Demorei horas e horas a pintar e a acertar aqui e ali. Também gostava de desenhar rostos de pessoas que me chamavam atenção. Meu amor às Artes Plásticas começou a se desenvolver com mais força! Passava horas e horas a olhar a diversidade de verdes, a luz do luar, as folhas queimadas no verão e as folhas que se desprendiam das árvores no outono. As mangueiras, as mangas, os cajás amarelos... Pitombas... Tudo!

Disse à mamãe que meu prazer era olhar a beleza da natureza! Também contei aos meus irmãos que gostaria de ser pintor! Se para algumas crianças agradavam as peladas de futebol, a mim agradava ver e pintar o BELO!

Meu gosto pendia para as músicas clássicas: Beethoven, Chopin, Bach, Handel e outros. Meus irmãos, no entanto, ligavam o rádio para ouvir músicas populares. Era uma briga tremenda, porque não desistia de ouvir minhas belas músicas e eles também optavam por Ângela Maria, Carlos Galhardo e outros canores da MPB.

Papai trabalhava em São Vicente, na Escola Agrícola, e me convidou para passar alguns dias com ele, onde tinha casa e certo conforto. Fui para lá. Conheci muitos alunos da escola e fiz amizade com eles. Que guris bonitos! Senti atração por vários deles, mas nunca tive coragem de me aproximar de nenhum! Passava pela minha cabeça fazer amor com um deles, mas fiquei na minha!

Um de meus irmãos, um pouco mais velho que eu, também passeava ali. No curral, dei de cara com ele mantendo relação com uma vaca. Era 1948 e tinha 13 anos! Acho que ele estava com 16 anos! Nem ligou para  a minha presença e continuou em seu “affaire”...

Ouvi neste lugar várias pessoas contarem sobre a má conduta de papai. Perseguia meninas, inclusive apalpando-as e se elas consentissem carregava-as para a cama. Papai trazia esse problemas com ele, mamãe sempre dizia que ele nunca perdoou sequer uma de nossas empregadas domésticas. Todas saíam da nossa casa de ‘barriga’.

Quanto a mim, era ridicularizado e constantemente chamado de ‘bichinha e marica”. Doía, mas fui-me acostumando com aquelas afrontas. Cada olhar, cada risinho, cada piada me deixava cheio de vergonha! Uma lança afiada era enfiada em minha alma! A ferida foi aumentando e criou dentro de mim uma grande confusão! Deixar me atrair pelos garotos mesmo? Ou tentar namorar uma menina?

Amei aquela menina linda de origem sírio-libaneza – Elione – que até me deixou insone. Tive por ela um grande amor, mas à distância. Ela era minha amiga! Nunca me olhou como um possível namorado.

Unido com minha irmã Martha, aproveitava para ficar ao lado dela. Brinquei até de roda, esconde-esconde, ‘passa meu bom barqueiro...’. Mas Elione me repudiou!

O nome ‘marica’ era comum ouvir. Deixava as lágrimas cairem debaixo do chuveiro.

A vida corria! Certo dia uma vizinha de mamãe, fofoqueira e má, perguntou se um dia João Pedro iria se casar, e nem permiti que minha mãe respondesse. Gritei do quarto,onde estava: - Não, minha senhora, sou homossexual!

Mamãe não gostou e discutiu comigo que não deveria ter dito aquilo, mas era a mais pura verdade.

Para fugir da ‘pequenêz’ das pessoas, saía a caminhar pelas estradas e olhava a beleza da natureza, o cantar dos pássaros, o cantar dos galos... Enfim, o ser humano me causava nojo! Lembrei de uma frase que me disse dona Alina Tocantins, minha grande amiga: “É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do quer falar e acabar com a dúvida”. Não sei se era pensamento dela mesma.

sexta-feira, 9 de março de 2012


Padre Joãozinho e os jovens



Fui à Igreja Católica e fiquei a observar as ações de padre Joãozinho. Dava aula de religião a um grande número de adolescentes e crianças.  Em certo momento, o padre foi com um menino ao banheiro. De longe fiquei na espia. Coloquei meus olhos no buraco da fechadura. De pênis duro pincelava a coxa do guri de seus treze anos. Era o mais belo entre todos: moreno, olhos grandes, sobrancelhas perfeitas, corpo esguio, nariz grego, boca carnuda. Particularmente, nutria forte atração por aquele lindo garoto, mas quem estava junto a ele era o padre Joãozinho. Nunca tive coragem de me atirar sobre os guris que me atraíam.

Padre Joãozinho era homossexual como eu. Mas um dia me chamou numa das salas da igreja, tapou todos os Santos com um lençol e fez-me deitar em um catre. O céu estava escuro e ia cair uma tempestade na cidade. Nem começou e apareceu minha irmã Martha. “Vim buscá-lo, porque mamãe me mandou! Vai cair um temporal e está preocupada com seu sumiço! Vamos!” Pegou na minha mão e fomos indo. Minha irmã era muito unida comigo!  Logo caiu uma forte chuva que alagou a região ribeirinha até parte do Porto.

Noutro dia, na hora do recreio, saímos da sala de aula pulando, brincando e mexendo uns com os outros.

Caio era muito belo. Talvez tivesse a mesma idade que eu: onze anos. Fomos ao banheiro. Ele tirou o ‘priquito’ para fora e quase desmaiei. Era enorme, bem feito e estava duro como um ferro. Virou-se para mim e perguntou se toparia uma brincadeira. Ora!  Trancamos a porta: beijamos na boca, abraçamos e conseguiu pincelar sobre minha coxa. Gozou. Limpei rapidamente com papel higiênico, pois soou o sinal do fim do recreio. Realizou-se naquele dia meu primeiro pré-ato de homossexualismo infantil.  Senti uma felicidade infinda! Que alívio! Era gay no sentido exato da palavra. 

A partir dos nove anos, apesar do ambiente religioso de nossa casa ser extremamente pesado, pois era igreja diariamente e à noite, após o jantar, o culto doméstico, enquanto mamãe discorria sobre a Bíblia, cantava hinos e orava, meu pensamento perdia-se nos belos meninos que conhecia.

Em nossa rua tínhamos amigas e amigos. Uma família árabe, amicíssima de mamãe, tinha cinco filhos: três belas adolescentes e dois jovens. Éramos muito unidos e costumávamos brincar de esconde-esconde, passa meu bom  barqueiro e até de roda, nos quais tomava parte.

Uma jovem bonita e sexy, nossa vizinha, tinha o costume de sair do banheiro enrolada em uma toalha, abria e mostrava seu belo corpo a todos.  Esta menina era uma espécie de Messalina infantil. Dava gostosas risadas, depois de exibir-se perante seus colegas.  Era totalmente livre de preconceito e nem sei por que insistia em me levar para sua cama.  Encostou-me contra a parede e disse: “Tira o pinto para fora!” Obedeci, mas não tive coragem de ter uma relação sexual com ela. Como fazer? Não era meu prato!

Já o meu amigo sírio, de seus 13 anos, lindo como um deus, costumava ir a nossa casa e descíamos para o porão. Lá nós masturbávamos um ao outro. Nunca fizemos sexo. Pegamos uma galinha no quintal e fizemos sexo com ela. Pobrezinha, morreu! O pênis dele era muito grande.  Não sabia o que fazer, mas a nossa empregada foi genial. Lavou-a bem, jogou água fervente, depenou e depois temperou. No almoço comemos uma deliciosa galinha assada! Santa Edwiges!

O sexo explodia nos jovens de nossa rua, talvez motivado pelo excessivo calor de Cuiabá. Nossos hormônios ficavam à flor da pele.  Que loucura!

Fiz amizade com um guri que também frequentava a Igreja Presbiteriana. Dou-lhe um nome fictício: Leonardo. Filho de garimpeiro, seu pai o mandou para Cuiabá para estudar. Morava em uma pensão muito boa e limpa. Era frágil como eu! Magrinho, claro e belo!  Na sua cama nos abraçamos, nos beijamos,  e não conseguimos fazer mais nada que isso. Talvez a religiosidade no freava na hora exata de manter uma relação sexual. Terminávamos nos masturbando. Às tardes, nós ficávamos naquela agonia sem fim!

Íamos passear e tirávamos fotos um do outro e de algumas paisagens bonitas. Divertíamos muito! Tanto éramos colegas de escola como de igreja.

Nas férias, Leonardo voltou para sua cidade. Sozinho, como sofri! Ia passear no Morro do André Avelino e via as cabras a pastar. Muitas vezes vi e gostei de olhar rapazotes a manter relações com elas (cabras). Alguns berravam na hora do gozo! Isso me excitava muito!

Leonardo voltou e o convidei para passear no Morro. Fomos. Rimos bastante dos rapazes que usavam as cabras. De repente ele me puxou mais para perto dele, deitamos na relva, e fizemos amor! Foi meu primeiro amor! Beijei seu rosto, abracei seu corpo quente, quase fervendo. Foram mais de duas ou três... Voltei dali com a alma lavada de satisfação!

Foi meu primeiro passo no caminho do homossexualismo, real e vivo, que vicejava dentro de mim!





Peteté

 Corria célere o ano de 1946: completei 11 anos no dia 5 de maio. Mamãe fez um Culto Doméstico, orou, leu a Bíblia, cantou hinos de louvor a Deus e, ao terminar, acendeu as doze velas do bolo que fez para me homenagear. Cada irmão deu-me um presente: par de meias, cueca, camisa, calça comprida e um estojo de tintas coloridas, óleo, para eu pintar. Também ganhei três telas. Todos cantavam animados “Parabéns a Você”! Mostrei alegria, mas era mentira! Sufocava-me uma tremenda dor no peito. Eu sou homossexual! Assumido! Conheço alguns que o são, mas fingem que são homens... Não é para mim!

Minha cabeça só pensava em sexo, no erótico e sexual. Que tremenda confusão na minha cabeça!

Veloz passaram os dias e chegou outubro. Dely fez 15 anos! Mamãe economizou tostão por tostão e preparou uma festa para ela. Fui comprar gelo e refrigerantes na Casa de Gelos Tenuta. Não bebíamos nada com álcool! Levei um saco de estopa para trazer tudo.

Na Praça Ipiranga, que mamãe contou ter sido antes no Largo da Cruz das Almas, encontrei Peteté: baixinho, igrejeiro, que falava engraçado e todos riam. Era quarta-feira! Ou seja, é sinônimo de maluco! Sempre sozinho investia contra jovens adolescentes. Falava sozinho e mantinha relações sexuais com meninos desavisados. A praça estava escura. Faltava luz, vez por outra em Cuiabá! Chamou-me e fui! Puxou-me com suas mãos grossas para um lugar onde não havia sequer uma sombra, ninguém, para “brincar”, segundo disse. Segui Peteté, muito nervoso e com medo. Fiquei excitado. Lembro-me que me carregou para um local onde havia pequenos arbustos. Ele mancava... Abriu minha braguilha, pegou meu pênis e começou a beijá-lo com sofreguidão. “Enfia aqui! Enfia!” De quatro como os animais, pedia-me para enfiar nele. Apesar de nervoso, gostei daquilo, e empurrei tudo para dentro dele. Gemeu! Grunhiu como um porquinho! Emocionei-me!

De verdade, foi minha primeira relação sexual. Demoramos uns vinte minutos ali e ele dizia coisas que não entendia porque seu falar era confuso. Peteté devia estar com mais de trinta anos! Bem mais velho que eu! Finalmente concluí o que ele tanto desejava. Sorriu, abraçou-me e me ajudou a buscar o gelo e os refrigerantes.

Senti que era um homossexual confesso! Pronto! Tudo que se passara antes foram brincadeiras pueris com meninos da mesma idade que a minha. Agora não, havia realizado o ato sexual completo. Tornei feliz àquele homem imbecil!

Ajudou-me a carregar o gelo e os refrigerantes até a minha casa,  depois sumiu!

Dias depois, parece que as coisas se cadenciam, uma mulher me chamou. Estava na Praça da República. Pediu-me que fosse comprar um sorvete, pois estava morta de calor. Entregou-me uma nota. Fui correndo até o bar do Chico Jorge. Dei a nota e peguei o troco. Rápido levei o sorvete que me pediu e entreguei-lhe o troco. Deu-me o dinheiro. “Toma, é seu!” Era uma mulher morena, pintada exageradamente, vestida de cetim vermelho brilhante. “Quer me f.....? Venha! Pode ir comigo lá na zona!” Senti vergonha e saí às pressas dali. Era uma prostituta! Seu convite em nada me afetou. Eu? Ter relação com uma mulher? Não, nenhuma vontade deu-me de deitar com aquela mulher escandalosa! Esqueci-me dela, porque não faz parte do meu mundo.

Era Carnaval! O pessoal da Presbiteriana costuma fazer retiros durante esse período. Viajamos para a Chapada e ficamos hospedados no Colégio do Buriti, dos crentes norte-americanos. Rapazes ficavam de um lado e as moças do outro.

Que natureza belíssima! Buritis! Mangueiras! Laranjais! Um pequeno rio de águas cristalinas cercava-se de grandes árvores. Local de rara beleza! Garças brancas revoavam o céu! Vi uma plantação de ananás, melancias e abóboras.

O pastor marcou o culto para às 8 da noite. Falou sobre o Sermão da Montanha. Oravam e cantavam diversos hinos. Que enjoativo! – pensei.

Terminou o culto. A turma passou a conversar entre si. Encontrei um jovem como eu que se chamava Telmo. Rosto rosado, cabelos anelados e finos, olhos grandes, lábios finos. Era um jovem belo! Deixou-me excitado. Depois ao conversar com outros garotos da minha idade, percebi que todos estavam de olho nele.

Tornamo-nos amigos. Simples amigos! Fez-me algumas revelações, inclusive de que já tivera relações sexuais com Leonardo, meu grande amigo, pelo qual fui apaixonado.

À noite, sozinho em minha cama, não conseguia dormir! A razão era Telmo! Dormi e sonhei que fazíamos amor junto ao rio. Acordei decepcionado, porque estava sozinho.

Ele fez amizade comigo, mas nunca tocou em assunto de sexo. Não era audacioso para atacá-lo. Um dia tomava banho, pelado, e tive desejo de abraçá-lo, mas me contive. Tempos depois partiu para o Rio de Janeiro, onde morava sua família.

Para ter algum dinheiro costumava colher limões na chácara de tio Oder, que vendia em diversas casas do centro da cidade. Era o dinheiro com que contava para ir ao cinema, comprar picolés e sorvetes. Mamãe não dava mesada a nenhum filho. O dinheiro que tinha era para manter a nossa casa. Comida nunca nos faltou! Nem roupas e sapatos!

Em uma das minhas idas para colher limões, passei pela casa da minha tia, cujo filho único era lindo.  Deitado na grama, só de cueca e peito nu. Percebi ficar nervoso com a minha presença.  Quis alguma coisa comigo, porém teve medo. Afinal, éramos primos! Ele era mais velho que eu talvez uns oito anos.  Eu, aos onze, e ele, com dezenove! Insistiu para que me aproximasse mais perto dele. Cheguei pertinho e fiquei nervoso. Tirou para fora seu pênis. Que belo! Era bem feito e grande! Excitei-me demais! Riu, guardou tudo e ficou de costas. Foi uma cena inesquecível para mim!





Adoro comer mandioca!



Costumo ler as crônicas publicadas nos jornais e gosto muito do que escreve o jornalista Ivan Lessa, da BBC Brasil. Desta feita li sobre a cerveja de mandioca, fabricada em Moçambique.

Nem sei se Ivan chegará a ler minha crônica, mas sou louca por mandioca. De preferência, a frita, bem sequinha. No Rio, comprava na feira da Praça Serzedello Correa, cozinhava e quando era boa, comia com manteiga (não margarina) e açúcar. Que sabor!

Imagino que deve ser uma gostosura a cerveja de mandioca, que Ivan diz não ser novidade, pois há gerações onde era fermentada, em especial entre portugueses, e tomada com gosto!

A nova birita, segundo Lessa, fabricada com 70% de mandioca ou aipim + 30% de cevada, está sendo bem aceita, principalmente pelos moçambicanos, os quais tomam e depois ficam a sorrir. A vida é boa!

Ivan destaca “dinheiro não compra a felicidade”, contudo enquanto sobrar nos bolsos alguns cobres ou pilas a mais, bebe-se cerveja de mandioca. Indica que cientistas, sociólogos e acadêmicos pesquisem o sabor da nova bebida. Metem o bedelho em nossas idiossincrasias, gostos e desgostos. A felicidade deve ser estudada, ressalta.

Vou contar algo particular que aprendi a saborear na “Ilha da Fantasia”, como é chamada Florianópolis. Para ir do Jurerê ao centro tenho que pegar dois ônibus. O primeiro vai daqui a Santo Antônio. Às vezes demora o segundo que me leva até ao terminal, então sou cliente assídua de um dos quiosques de um senhor simpático e sorridente. Por favor, bolo de mandioca recheado com frango! – peço. Que delícia! Fiquei freguesa e nem preciso pedir, é só encostar-me no balcão, que já me serve.

É uma felicidade da qual não abro mão!

Lessa comenta a lista dos 187 países mais “felizes”, e leva em conta a qualidade de vida, o desenvolvimento e o índice econômico. O Brasil, como é natural, não ganha medalha de ouro, prata ou bronze. (...) Não pegou nem mesmo chapinha de cerveja de mandioca. Chegou em 84º lugar!

Foi o 20º colocado entre os países latino-americanos, só perdendo para Argentina e Chile. Gosto do termo utilizado por Ivan – “índice de pobreza multidimensional” Pergunta-se: “Que bicho é esse?” Não acredita se tratar de desestimular os destituídos ou pobres.

Noruega, Austrália, Holanda, EEUU e Nova Zelândia foram os cinco primeiros colocados.

Em Oslo, Noruega, minha amiga e quase filha Paula Virginia mora hoje, casada com Roar, mas me escreve e reclama ser difícil achar emprego por não falar bem a língua norueguesa. Às vezes trabalha embrulhando produtos comestíveis, principalmente para a Páscoa e Natal. Estuda mais e quer futuramente um trabalho compatível com seu nível de inteligência. Conta-me que as comidas da Noruega são gostosas, mas não mais que as do Brasil.

Carla Janaína, amiga da neta Marciola, mora em Amsterdã, Holanda. Andei olhando umas fotos do seu casamento com um jovem nativo e admirei sua pele rosada e o jeito saudável de ser. Deve alimentar-se bem!

No Brasil, penso, come-se bem! Ora, ao invés de comer batatas, que é comida de alemão, saboreia-se mandioca seca. Minha mana, casada com um filho de alemão, não engole batata, nem à força. Detesta e acha muito sem graça. Também não sou lá de viver comendo batatas. Há até um jargão popular: “Alemão batata, come queijo com barata!” Nem sei de onde veio isso!

Consulto o Google e fico ciente de que o versinho surgiu na década de 1940, quando os germânicos (bem como os italianos) sofreram dura perseguição em razão da II Guerra Mundial. O meu ex-marido tinha o sobrenome Grecca, da linha materna, mas a mãe, medrosa de o filho único ser prejudicado, foi ao cartório e consertou o sobrenome apenas como Dias de Paiva, português, do pai.

Não devo desviar da mandioca, que adoro de montão. E se alguém de Moçambique quiser me mandar uma garrafa desta birita feita de mandioca, por gentileza, meu telefone é 48 96643087, da TIM.

Desejo ser feliz com a nossa mandioca! Aipim ou macaxeira, do Nordeste. Como nordestino come macaxeira! Eu também!





Neruda and Lorca: A Meeting of Poetic Minds
Today one cannot judge precisely Neruda's impact on Lorca as a person or as a poet,

Não se pode julgar com precisão a vida de Gabriel Novis Neves, filho do famoso Bugre, dono de famoso bar localizado no Jardim Alencastro, e dona Irene, cercado de irmãos e uma centena de parentes.
Jovem, além de ajudar seus pais, seu grande sonho era tornar-se médico. No Rio de Janeiro sentiu o primeiro sabor de vitória ao se tornar Dr. Gabriel Novis Neves, especializado em ginecologia e obstetrícia. Viu nascer mais de mil crianças, que de cara se davam com o mais belo sorriso de um médico competente, bonito e carismático.
Ao lado de B. Pedro Dorilêo, Atílio Ourives e outros cuiabanos tomou parte de várias passeatas em Cuiabá exigindo dos governantes a criação da UNISELVA – Universidade da Selva, para que nenhum cuiabano deixasse de fazer cursos superiores dentro da própria terra natal. Quantos não foram estudar em outros Estados por questões econômicas? Também há um lado emotivo que prende o jovem à família e a terra onde nasceu...
Inconfundível a luta travada por Dr. Gabriel desde que ocupou a Secretaria de Educação de Mato Grosso, no Governo Pedro Pedrossian. Umbilicalmente ligado à terra natal, uniu-se a outros colegas idealistas, e não tinha outra meta mais importante que não fosse criar a Universidade Federal de Mato Grosso, a famosa Universidade da Selva.
Em Brasília, Gabriel gozava de simpatia do Ministro da Educação - Jarbas Passarinho – que teve certa influência junto ao Presidente Médici, cujo sonho era a construção da rodovia Transamazônica, cantada em verso e prosa como a redenção da Amazônia.  Porque não erguer também em Mato Grosso (Centro-Oeste) a UNISELVA – Universidade da Selva, próxima do Pantanal? Pode-se dizer que o médico Gabriel era o “mensageiro” do governador Pedro Pedrossian para a criação de mais uma universidade – instituição de produção e transmissão de conhecimentos em Cuiabá, MT. Valeu seu trabalho, pois em 1969 era oficialmente criada a Fundação Universidade Federal de Mato Grosso.
Emílio Garrastazu Médici (Presidente da República) assinou em 12 de dezembro de 1969 a criação da Universidade Federal de Mato Grosso. A seguir o governador Pedro Pedrossian e o dinâmico Secretário e Educação e Cultura – Dr. Gabriel Novis Neves – deram começo à construção da Cidade Universitária de Cuiabá, à margem da estrada asfaltada que une Cuiabá a Coxipó da Ponte. Aceleradamente, os operários trabalhavam dia e noite,
O primeiro reitor não poderia ser outro a não ser o filho do Bugre e dona Irene – Dr. Gabriel Novis Neves – que pouco a pouco foi modificando a filosofia de vida das famílias radicadas em Cuiabá. Foi um obstinado, teimoso, realizador! Muita gente que nem pensava fazer um curso superior, de repente se preparava para ser universitário.
Dr. Gabriel Novis Neves é transparente como uma criança, dotado de magnetismo alegre que o tornou um entusiasta pela EDUCAÇÃO e irradiava-la como o próprio SOL que brilha 365 dias no céu de Cuiabá. Identifica-se com as pessoas simples e comuns da sua terra natal. Pode-se afirmar que Gabriel é um signo de Mato Grosso, sem fazer referência ao seu talento de jornalista, cronista e contista.
Gabriel Novis Neves deixou em Mato Grosso a marca clara e concisa de seus sonhos que se tornaram realidade. Ele nunca abandonou Cuiabá, embora conheça outros Estados e muitos Países. Sim, pode-se afirmar que, próximo do Pantanal, existe um homem que nunca tirou seus olhos da longa extensão de terra onde nasceu. É jornalista, cronista, contista e já declarou em uma de suas crônicas “que seria impossível viver fora da sua Cuiabá”. 

Neruda and Lorca: A Meeting of Poetic Minds

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1944. Tinha 9 anos!



1944. Nossos pais estão separados. Vamos mudar do casarão da rua Barão de Melgaço para pequena casa na mesma rua.  Os quartos são grandes, o banheiro é melhor, mas onde estão nossas árvores, nosso jardim, nossas hortas, nossos passarinhos? Aqui – vejo um pé de romã, uma goiabeira e algumas roseiras tristes! Nada mais!

Viemos morar em frente à residência dos governadores. Não poderia ser pior! Uma amiga da Dely contou-lhe que uma de nossas primas declarou não ser parente dela. A mana deu de ombros e respondeu que não gostava de intrigas. Por favor!

Gabriel César Neves, nosso vizinho, era um belo garoto de olhos grandes e gostava de cantar. Como cantava! Ficava a escutar suas lindas canções! Era filho da saudosa dona Celcita e seu Tinô. Este era irmão do Bugre, dono do bar do Jardim Alencastro.  Martha subia na goiabeira para olhar o guri. Que belo! – dizia!

Essa história de ser crente acabou para mim quando vi uma senhora que nunca saía da igreja, crente até a alma... A história começou com um convite que ela fez à mamãe para eu ir passar alguns dias em seu sítio da Bandeira.

Fui a cavalo! Viajei na garupa do seu Chico, pai dela. Era preto o cavalinho! Ele gritava: - Upa, upa, upa Breque! (era o nome do cavalo). E o cavalo corria!

Perdia-a olhar a miríade de verdes: alface, garrafa, bandeira do Brasil, verde... verde... verde...  As árvores baixas e tortas do cerrado. Quanta beleza. Que céu mais belo!

Paramos na casa de uma comadre dela, que era pobrezinha, mas nos ofereceu uma carne com arroz muito gostosa. Comi e me lambi! O casal era bonito e tinha cerca de oito filhos, três moças e cinco guris. Que lindos!

Agradecemos e seguimos adiante. Poc...poc...poc... Eita cavalinho bom!

Chegamos ao sítio do Bandeira. Tudo era muito bonito. A casa ficava à beira de um riacho cujas águas corriam quietinhas, brancas e repletas de lambaris. Pus meus pés na água e os lambaris me mordiscaram. Achei graça! Não doeu, só fazia cócegas.

Do que mais gostei foi do voo das jurutis. Seu Chico devia ter seus sessenta anos e era muito paciente. Fez um cigarro de palha e começou a pitar. Observou que estava enamorado das aves e começou a me explicar: Essa é a juruti-pupu! Vulgarmente chamada de pu-pu! São pássaros esbeltos, delgados, finos, magros e cobertos de plumagem. Gosto muito deles! Jogou a fumaça de seu cigarrinho para longe!... Pareceu-me lembrar de alguma coisa, mas nada me disse. Continuou: deve  medir aproximadamente trinta centímetros e pesa muito pouco! A plumagem é marrom, com peito claro, cabeça cinzenta com alguns reflexos metálicos na nuca e alto dorso. Possui ainda, uma coloração azulada ao redor dos olhos. É linda! Mas é arisca como era Julita, bela morena que conheci nesta bandas! Saudades dela! A juriti é tão arisca! Voa! Esconde-se! Só percebemos sua presença pelo seu gorjeio melancólico e repetitivo: “pu...puuuuu”. Tão gostoso de ouvir! Tão arisca como foi a minha morena Julita!
Come grãos e vegetais! É rápida e em um movimento único vira as folhas mortas para descobrir sementes e frutos caídos das árvores!  Vou lhe mostrar seu vinho feito de gravetos, sem forro. Põe os ovos e o ninho é tão ralo que os ovos podem cair no chão. Vivem nas matas e onde houver belas árvores. Vivem aos pares! Veja lá seus passinhos miúdos à cata de grãos! Nunca saltita! Mas boceja e gosta de tomar banho. Engraçado o macho ‘gala’ a fêmea e em seguida ela ‘gala’ o macho. Ficam nervosos nessa hora!
De repente, seu Chico parou de fumar e contrariado escutou a filha a brigar com Nega, sua neta mais velha. Ela ralhava com a mocinha e depois pegou um chinelo e começou a bater-lhe.
Nega caiu no chão... Seu Chico foi até a cozinha e tomou o chinelo da mão de sua filha. “Calma! Tenha Calma! Bater não resolve! Você precisa tratar do seu nervosismo. O que foi que Nega fez?”
- Ora, estava flertando com o rapaz da chácara vizinha! Uma criança e já quer namorar? Tem só treze anos! Que menina danada! Eu bato mesmo!
Nega soluçava muito e o avô a pegou no colo. “Quietinha, minha neta! Ainda é cedo para namorar! Logo logo logo vai chegar a hora de ter o seu amado! Vovô vai gostar de conversar com ele! Venha! Vamos ver os jurutis! Joãozinho está doidinho por eles!”
Nega não conseguia parar de chorar! Não olhei mais para a amiga de mamãe, que era crente e burra!
Saí a caminhar pelos caminhos! Mas por onde seguia o soluço de Nega me perseguia. Ficou gravado em mim seu soluço!
Passei por um belo buritizal! A lua brotava lá atrás da serra!
Seu Chico me chamou par tomar sopa. Muito saborosa! Depois me mostrou o quarto e a rede onde deveria dormir. Deitei e de tão cansado peguei no sono!
De madrugada, senti que havia alguém perto de mim. Era Dirceu, irmão de Nega, adolescente. Deitou comigo na rede. Quietinho, empurrou algo quente em minhas pernas. Abraçou-me. Beijou-me. Algo quente jorrou na minha cocha! Pede-me mais um pouco, mas imploro que saia dali por causa de dona Abigail. Vai! Ela te bate! Saiu corendo. Tinha medo da mãe!
Passei uma semana no Bandeira. Gostava de sair sozinho. Era um campo sem fim! Tinha poucas árvores! Achei um ninho de ovos azuis! No pé de coroa-de-frade! Quanta felicidade passear na imensidão! Os pássaros gorjeavam muito e eu cantava! Dirceu vinha me ver de madrugada! Era rápido! Menino bonito! Felizmente fomos e voltamos sem nenhum problema!