quinta-feira, 8 de março de 2012

CASA MALASSOMBRADA


Não sei se isto aconteceu ou se foi um pesadelo: - Vejo minha mãe a correr ao redor do jardim. Tem na mão direita uma faca grande ou um punhal que brilha a luz do luar É lua cheia! Roda, roda, roda o punhal e joga-o em cima do telhado do  casarão da Rua Barão de Melgaço.

Curioso, ao mudarmos para esta casa, uma senhora magra, rosto fino e cabelos desgrenhados, aproximou-se de mamãe e cochichou: “Dona, quero só lhe avisar: essa casa é maldita, quem mora nela nunca é feliz! Ouvi falar que os antigos donos, portugueses, enterraram um baú de ouro no quintal, na época em que foram perseguidos e mortos. Voltaram a Portugal! Cada comprador deste casarão vai passando a outro e a infelicidade persiste! Cuidado!”

- Por favor, senhora, sou filha de Deus! Não há mal que me atinja! Não quero ouvir sua história!

A mulher foi saindo devagar. Fez o nome do Pai, depois correu para sua casa.

Volto ao pesadelo. Mamãe contou a nós, seus filhos, que aquele punhal papai trouxe do Paraguai para matá-la. Ela tomou de suas mãos, correu, veio ao jardim e atirou para o telhado.

- Mamãe morta?!... Não conseguia imaginá-la morta, fria, distante de nós, seus filhos. Mulher tão bela a nossa mãe! Trabalhadeira! Cozinheira de primeira, que nos faziam os mais saborosos pratos! Senti-me mal! Comecei a vomitar e a correr fui ao banheiro onde vi minhas fezes amarelas e moles! Estava com diarreia.

- Bebe este remédio, meu filho! Como você está branco! Bebe! É bom remédio para problemas intestinais! – enfiou o copo com um remédio amargo em minha boca. Engoli.

Vomitei tudo! O que tinha no estômago.

Papai ria, às gargalhadas, como se visse um filme de Charles Chaplin! As gargalhadas encheram a sala.

Meu pai havia urinado no copo e deu-me para beber!

Corri a pia e lavei bem a minha boca. Que nojo!

Vicência era nossa empregada, uma negra gorda que não batia bem da cabeça. Mas teve pena de mim, fez chá de erva cidreira e deu-me para beber.

Mamãe foi para a casa do seu irmão, Oder, e nós ficamos sozinhos. Hélio Mário, Martha, Nilo, Dely, Íbsen e Edmundo, Acordado, apenas eu, papai e Vicência.

A negra era maldosa, talvez por apanhar pesadas surras dadas com corda pela mamãe, porque era muito suja e imoral.

Vicência me carregou para sua cama de lençol encardido. Era gorda, peituda, pernas e cochas grossas. Jogou-me na cama e deitou ao meu lado. Tirou a calça e ordenou que passasse a língua ali. Que cheiro horrível!

Vomitei novamente.

Corri para o quintal. Subi rapidamente em uma mangueira. Tinha 8 anos!

Papai foi à Usina. Mamãe voltou da casa do seu irmão. Era domingo!

Todos vestidos com a melhor roupa fomos à Igreja Presbiteriana, à rua 13 de junho. O pastor chamava-se Augusto. Um missionário norte-americano estava lá e distribuía balas e chocolates às crianças. Pensei em Vicência, senti nojo até das balas e chocolates!

Na minha cabeça ouvia os berros de papai que até estremeciam as paredes. Tio Oder aconselhou sua irmã a separar-se de papai.  

Mamãe chorava muito.

Afinal, papai foi embora para a casa de vovó Adelina, sua mãe!

Um caminhão grande estacionou na frente do casarão. Foram saindo os móveis, baús, trochas de roupas, fotos de parede, tudo. Tia Carolina, irmã de mamãe também ajudou na mudança.

Corri para o quintal. Abracei os pés de frutas. Abacateiros. Mangueiras. Mamoeiros. Cajazeiras. Pés de atas! Tirei uma bela rosa branca do jardim e guardei para mim!  Sentei debaixo de uma mangueira e comecei a chorar desesperado.

- Menino! Venha, menino! – o menino era eu que não queria mudar daquele casarão.

- Espera aí, mamãe!

Fugi para o fundo do quintal. Não, não queria mudar dali! Ouvi os gorjeios dos passarinhos. Como seriam nossas brincadeiras em uma casa sem quintal? O esconde-esconde, as brincadeiras de roda e nem as horas de silêncio debaixo de uma trepadeira coberta de flores!

Mamãe me chamou várias vezes e eu acabei indo embora de caminhão. A família inteira estava no caminhão, alguns na boleia e outros entre os móveis e trochas de roupas. Sete filhos, mamãe, tia Carolina e Vicência. Depois mamãe descobriu que a preta estava doente e foi internada em um hospital. Não sei que doença, mas pelo cheiro que senti sair dela devia estar podre!

Mudamos para uma casa menor, com belo banheiro e bons quartos, mas morávamos em frente à residência dos Governadores. Júlio Müller era casado com a irmã de nosso pai, Maria de Arruda Müller. Que falta de sossego! Tampouco nos cumprimentavam. Éramos invisíveis! Nossos primos fingiam nos desconhecer!

Mamãe comprou uma livraria.


Nenhum comentário:

Postar um comentário