Não sei se isto aconteceu ou se foi um pesadelo: - Vejo minha mãe a
correr ao redor do jardim. Tem na mão direita uma faca grande ou um punhal que
brilha a luz do luar É lua cheia! Roda, roda, roda o punhal e joga-o em cima do
telhado do casarão da Rua Barão de
Melgaço.
Curioso, ao mudarmos para esta casa, uma senhora magra, rosto fino e
cabelos desgrenhados, aproximou-se de mamãe e cochichou: “Dona, quero só lhe
avisar: essa casa é maldita, quem mora nela nunca é feliz! Ouvi falar que os antigos
donos, portugueses, enterraram um baú de ouro no quintal, na época em que foram
perseguidos e mortos. Voltaram a Portugal! Cada comprador deste casarão vai
passando a outro e a infelicidade persiste! Cuidado!”
- Por favor, senhora, sou filha de Deus! Não há mal que me atinja! Não
quero ouvir sua história!
A mulher foi saindo devagar. Fez o nome do Pai, depois correu para sua
casa.
Volto ao pesadelo. Mamãe contou a nós, seus filhos, que aquele punhal
papai trouxe do Paraguai para matá-la. Ela tomou de suas mãos, correu, veio ao
jardim e atirou para o telhado.
- Mamãe morta?!... Não conseguia imaginá-la morta, fria, distante de
nós, seus filhos. Mulher tão bela a nossa mãe! Trabalhadeira! Cozinheira de
primeira, que nos faziam os mais saborosos pratos! Senti-me mal! Comecei a
vomitar e a correr fui ao banheiro onde vi minhas fezes amarelas e moles!
Estava com diarreia.
- Bebe este remédio, meu filho! Como você está branco! Bebe! É bom
remédio para problemas intestinais! – enfiou o copo com um remédio amargo em
minha boca. Engoli.
Vomitei tudo! O que tinha no estômago.
Papai ria, às gargalhadas, como se visse um filme de Charles Chaplin!
As gargalhadas encheram a sala.
Meu pai havia urinado no copo e deu-me para beber!
Corri a pia e lavei bem a minha boca. Que nojo!
Vicência era nossa empregada, uma negra gorda que não batia bem da
cabeça. Mas teve pena de mim, fez chá de erva cidreira e deu-me para beber.
Mamãe foi para a casa do seu irmão, Oder, e nós ficamos sozinhos.
Hélio Mário, Martha, Nilo, Dely, Íbsen e Edmundo, Acordado, apenas eu, papai e
Vicência.
A negra era maldosa, talvez por apanhar pesadas surras dadas com corda
pela mamãe, porque era muito suja e imoral.
Vicência me carregou para sua cama de lençol encardido. Era gorda,
peituda, pernas e cochas grossas. Jogou-me na cama e deitou ao meu lado. Tirou
a calça e ordenou que passasse a língua ali. Que cheiro horrível!
Vomitei novamente.
Corri para o quintal. Subi rapidamente em uma mangueira. Tinha 8 anos!
Papai foi à Usina. Mamãe voltou da casa do seu irmão. Era domingo!
Todos vestidos com a melhor roupa fomos à Igreja Presbiteriana, à rua
13 de junho. O pastor chamava-se Augusto. Um missionário norte-americano estava
lá e distribuía balas e chocolates às crianças. Pensei em Vicência, senti nojo
até das balas e chocolates!
Na minha cabeça ouvia os berros de papai que até estremeciam as
paredes. Tio Oder aconselhou sua irmã a separar-se de papai.
Mamãe chorava muito.
Afinal, papai foi embora para a casa de vovó Adelina, sua mãe!
Um caminhão grande estacionou na frente do casarão. Foram saindo os
móveis, baús, trochas de roupas, fotos de parede, tudo. Tia Carolina, irmã de
mamãe também ajudou na mudança.
Corri para o quintal. Abracei os pés de frutas. Abacateiros.
Mangueiras. Mamoeiros. Cajazeiras. Pés de atas! Tirei uma bela rosa branca do
jardim e guardei para mim! Sentei
debaixo de uma mangueira e comecei a chorar desesperado.
- Menino! Venha, menino! – o menino era eu que não queria mudar
daquele casarão.
- Espera aí, mamãe!
Fugi para o fundo do quintal. Não, não queria mudar dali! Ouvi os
gorjeios dos passarinhos. Como seriam nossas brincadeiras em uma casa sem
quintal? O esconde-esconde, as brincadeiras de roda e nem as horas de silêncio
debaixo de uma trepadeira coberta de flores!
Mamãe me chamou várias vezes e eu acabei indo embora de caminhão. A
família inteira estava no caminhão, alguns na boleia e outros entre os móveis e
trochas de roupas. Sete filhos, mamãe, tia Carolina e Vicência. Depois mamãe
descobriu que a preta estava doente e foi internada em um hospital. Não sei que
doença, mas pelo cheiro que senti sair dela devia estar podre!
Mudamos para uma casa menor, com belo banheiro e bons quartos, mas
morávamos em frente à residência dos Governadores. Júlio Müller era casado com
a irmã de nosso pai, Maria de Arruda Müller. Que falta de sossego! Tampouco nos
cumprimentavam. Éramos invisíveis! Nossos primos fingiam nos desconhecer!
Mamãe comprou uma livraria.
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