Melhor deixar pensar
que eu era idiota!
Em 1948, aos treze anos, realizou-se em Cuiabá uma grande exposição
agropecuária, em que mamãe expôs seus belos bolos confeitados, juntamento com
dona Francisca Capriata Lotufo, conhecida como dona Chiquinha. Elas competiam
quanto a maior beleza dos bolos.
Tratava-se de exposição de produtos agrícolas, animais, variados estandes
com exposições de roupas, artesanato, sapatos etc. Acontecia anualmente. Hoje ficaram
mais famosas pelos rodeios e no final eram eleitas as Rainha e Princesas do
evento.
O povo inteiro da cidade se enfeitava, perfumava-se e usava chapéus para
comparecer à FEIRA Agropecuária. Era chique!
Em uma delas, fui com alguns amigos e fiquei observando tudo, ocasião em
que um senhor de aproximadamente quarenta anos olhava atenta e insistentemente
para mim. Era um homem bem vestido, de olhar expressivo e pode-se afirmar que
era bonito. O mais importante era que usava farda de militar de alta patente.
Aproximou-se e passamos a conversar. Depois de alguns minutos sumiu.
Dias depois, encontrei o coronel na rua. Cumprimentou-me alegremente e
convidou-me para tomar um sorvete no Bar do Bugre. Aceitei. Havia algo de estranho na expressão do seu
olhar. Fiquei de ‘botuca’. Tomamos taças de sorvete e bebemos guaraná Zenith
geladinho. Por ser um menino pobre, jamais teria dinheiro para gastar com
sorvetes e refrigerantes. O senhor era educadíssimo. De repente, curvou sua
cabeça junto ao meu ouvido e perguntou: - Quer fazer amor comigo? Levei susto, mas realmente já esperava por
isso. Arredio, olhei bem nos seus olhos e não consegui dizer nada. Novamente
repetiu o convite e acrescentou que me daria noventa contos. Em silêncio, pensei na sua oferta, cujo valor
daria para eu comprar um sapato novo, pois o meu estava furado. Mesmo assim
fiquei com medo. Disse-lhe: - Não, muito obrigado! Insistiu de novo e aumentou
o valor para cem contos. Repeti que “não”. Finalmente desistiu. Deixou-me ir
embora.
Nessa época além de despertar-me para o sexo, era importante para mim a
vida em contato com a natureza. Prendia-me à beleza das árvores, aos trinados
dos pássaros, à beleza do nascer e por do sol, ao encanto das belas flores, às
noite enluaradas. Cuiabá era de rara beleza! A beleza da vida era-me importante!
Comecei a desenhar e pintar! Tive ímpeto de transpor para as telas toda
aquela beleza que me emocionava. Via beleza em todo lugar! Em início pintava
sobre madeira. Fui à Várzea Grande e pintei uma bela estrada e uma casinha
solitária, ao lado de belos flamboyants. Demorei horas e horas a pintar e a
acertar aqui e ali. Também gostava de desenhar rostos de pessoas que me
chamavam atenção. Meu amor às Artes Plásticas começou a se desenvolver com mais
força! Passava horas e horas a olhar a diversidade de verdes, a luz do luar, as
folhas queimadas no verão e as folhas que se desprendiam das árvores no outono.
As mangueiras, as mangas, os cajás amarelos... Pitombas... Tudo!
Disse à mamãe que meu prazer era olhar a beleza da natureza! Também contei
aos meus irmãos que gostaria de ser pintor! Se para algumas crianças agradavam
as peladas de futebol, a mim agradava ver e pintar o BELO!
Meu gosto pendia para as músicas clássicas: Beethoven, Chopin, Bach, Handel
e outros. Meus irmãos, no entanto, ligavam o rádio para ouvir músicas populares.
Era uma briga tremenda, porque não desistia de ouvir minhas belas músicas e
eles também optavam por Ângela Maria, Carlos Galhardo e outros canores da MPB.
Papai trabalhava em São Vicente, na Escola Agrícola, e me convidou para
passar alguns dias com ele, onde tinha casa e certo conforto. Fui para lá.
Conheci muitos alunos da escola e fiz amizade com eles. Que guris bonitos!
Senti atração por vários deles, mas nunca tive coragem de me aproximar de
nenhum! Passava pela minha cabeça fazer amor com um deles, mas fiquei na minha!
Um de meus irmãos, um pouco mais velho que eu, também passeava ali. No
curral, dei de cara com ele mantendo relação com uma vaca. Era 1948 e tinha 13
anos! Acho que ele estava com 16 anos! Nem ligou para a minha presença e continuou em seu
“affaire”...
Ouvi neste lugar várias pessoas contarem sobre a má conduta de papai. Perseguia
meninas, inclusive apalpando-as e se elas consentissem carregava-as para a
cama. Papai trazia esse problemas com ele, mamãe sempre dizia que ele nunca
perdoou sequer uma de nossas empregadas domésticas. Todas saíam da nossa casa
de ‘barriga’.
Quanto a mim, era ridicularizado e constantemente chamado de ‘bichinha e
marica”. Doía, mas fui-me acostumando com aquelas afrontas. Cada olhar, cada
risinho, cada piada me deixava cheio de vergonha! Uma lança afiada era enfiada
em minha alma! A ferida foi aumentando e criou dentro de mim uma grande
confusão! Deixar me atrair pelos garotos mesmo? Ou tentar namorar uma menina?
Amei aquela menina linda de origem sírio-libaneza – Elione – que até me
deixou insone. Tive por ela um grande amor, mas à distância. Ela era minha
amiga! Nunca me olhou como um possível namorado.
Unido com minha irmã Martha, aproveitava para ficar ao lado dela. Brinquei
até de roda, esconde-esconde, ‘passa meu bom barqueiro...’. Mas Elione me
repudiou!
O nome ‘marica’ era comum ouvir. Deixava as lágrimas cairem debaixo do
chuveiro.
A vida corria! Certo dia uma vizinha de mamãe, fofoqueira e má, perguntou
se um dia João Pedro iria se casar, e nem permiti que minha mãe respondesse.
Gritei do quarto,onde estava: - Não, minha senhora, sou homossexual!
Mamãe não gostou e discutiu comigo que não deveria ter dito aquilo, mas era
a mais pura verdade.
Para fugir da
‘pequenêz’ das pessoas, saía a caminhar pelas estradas e olhava a beleza da
natureza, o cantar dos pássaros, o cantar dos galos... Enfim, o ser humano me
causava nojo! Lembrei de uma frase que me disse dona Alina Tocantins, minha
grande amiga: “É melhor
calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do quer falar e
acabar com a dúvida”. Não sei se era pensamento dela mesma.
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