sábado, 10 de março de 2012


Melhor deixar pensar que eu era idiota!



Em 1948, aos treze anos, realizou-se em Cuiabá uma grande exposição agropecuária, em que mamãe expôs seus belos bolos confeitados, juntamento com dona Francisca Capriata Lotufo, conhecida como dona Chiquinha. Elas competiam quanto a maior beleza dos bolos.

Tratava-se de exposição de produtos agrícolas, animais, variados estandes com exposições de roupas, artesanato, sapatos etc. Acontecia anualmente. Hoje ficaram mais famosas pelos rodeios e no final eram eleitas as Rainha e Princesas do evento.

O povo inteiro da cidade se enfeitava, perfumava-se e usava chapéus para comparecer à FEIRA Agropecuária. Era chique!

Em uma delas, fui com alguns amigos e fiquei observando tudo, ocasião em que um senhor de aproximadamente quarenta anos olhava atenta e insistentemente para mim. Era um homem bem vestido, de olhar expressivo e pode-se afirmar que era bonito. O mais importante era que usava farda de militar de alta patente. Aproximou-se e passamos a conversar. Depois de alguns minutos sumiu.

Dias depois, encontrei o coronel na rua. Cumprimentou-me alegremente e convidou-me para tomar um sorvete no Bar do Bugre. Aceitei.  Havia algo de estranho na expressão do seu olhar. Fiquei de ‘botuca’. Tomamos taças de sorvete e bebemos guaraná Zenith geladinho. Por ser um menino pobre, jamais teria dinheiro para gastar com sorvetes e refrigerantes. O senhor era educadíssimo. De repente, curvou sua cabeça junto ao meu ouvido e perguntou: - Quer fazer amor comigo?  Levei susto, mas realmente já esperava por isso. Arredio, olhei bem nos seus olhos e não consegui dizer nada. Novamente repetiu o convite e acrescentou que me daria noventa contos.  Em silêncio, pensei na sua oferta, cujo valor daria para eu comprar um sapato novo, pois o meu estava furado. Mesmo assim fiquei com medo. Disse-lhe: - Não, muito obrigado! Insistiu de novo e aumentou o valor para cem contos. Repeti que “não”. Finalmente desistiu. Deixou-me ir embora.

Nessa época além de despertar-me para o sexo, era importante para mim a vida em contato com a natureza. Prendia-me à beleza das árvores, aos trinados dos pássaros, à beleza do nascer e por do sol, ao encanto das belas flores, às noite enluaradas. Cuiabá era de rara beleza! A beleza da vida era-me importante!

Comecei a desenhar e pintar! Tive ímpeto de transpor para as telas toda aquela beleza que me emocionava. Via beleza em todo lugar! Em início pintava sobre madeira. Fui à Várzea Grande e pintei uma bela estrada e uma casinha solitária, ao lado de belos flamboyants. Demorei horas e horas a pintar e a acertar aqui e ali. Também gostava de desenhar rostos de pessoas que me chamavam atenção. Meu amor às Artes Plásticas começou a se desenvolver com mais força! Passava horas e horas a olhar a diversidade de verdes, a luz do luar, as folhas queimadas no verão e as folhas que se desprendiam das árvores no outono. As mangueiras, as mangas, os cajás amarelos... Pitombas... Tudo!

Disse à mamãe que meu prazer era olhar a beleza da natureza! Também contei aos meus irmãos que gostaria de ser pintor! Se para algumas crianças agradavam as peladas de futebol, a mim agradava ver e pintar o BELO!

Meu gosto pendia para as músicas clássicas: Beethoven, Chopin, Bach, Handel e outros. Meus irmãos, no entanto, ligavam o rádio para ouvir músicas populares. Era uma briga tremenda, porque não desistia de ouvir minhas belas músicas e eles também optavam por Ângela Maria, Carlos Galhardo e outros canores da MPB.

Papai trabalhava em São Vicente, na Escola Agrícola, e me convidou para passar alguns dias com ele, onde tinha casa e certo conforto. Fui para lá. Conheci muitos alunos da escola e fiz amizade com eles. Que guris bonitos! Senti atração por vários deles, mas nunca tive coragem de me aproximar de nenhum! Passava pela minha cabeça fazer amor com um deles, mas fiquei na minha!

Um de meus irmãos, um pouco mais velho que eu, também passeava ali. No curral, dei de cara com ele mantendo relação com uma vaca. Era 1948 e tinha 13 anos! Acho que ele estava com 16 anos! Nem ligou para  a minha presença e continuou em seu “affaire”...

Ouvi neste lugar várias pessoas contarem sobre a má conduta de papai. Perseguia meninas, inclusive apalpando-as e se elas consentissem carregava-as para a cama. Papai trazia esse problemas com ele, mamãe sempre dizia que ele nunca perdoou sequer uma de nossas empregadas domésticas. Todas saíam da nossa casa de ‘barriga’.

Quanto a mim, era ridicularizado e constantemente chamado de ‘bichinha e marica”. Doía, mas fui-me acostumando com aquelas afrontas. Cada olhar, cada risinho, cada piada me deixava cheio de vergonha! Uma lança afiada era enfiada em minha alma! A ferida foi aumentando e criou dentro de mim uma grande confusão! Deixar me atrair pelos garotos mesmo? Ou tentar namorar uma menina?

Amei aquela menina linda de origem sírio-libaneza – Elione – que até me deixou insone. Tive por ela um grande amor, mas à distância. Ela era minha amiga! Nunca me olhou como um possível namorado.

Unido com minha irmã Martha, aproveitava para ficar ao lado dela. Brinquei até de roda, esconde-esconde, ‘passa meu bom barqueiro...’. Mas Elione me repudiou!

O nome ‘marica’ era comum ouvir. Deixava as lágrimas cairem debaixo do chuveiro.

A vida corria! Certo dia uma vizinha de mamãe, fofoqueira e má, perguntou se um dia João Pedro iria se casar, e nem permiti que minha mãe respondesse. Gritei do quarto,onde estava: - Não, minha senhora, sou homossexual!

Mamãe não gostou e discutiu comigo que não deveria ter dito aquilo, mas era a mais pura verdade.

Para fugir da ‘pequenêz’ das pessoas, saía a caminhar pelas estradas e olhava a beleza da natureza, o cantar dos pássaros, o cantar dos galos... Enfim, o ser humano me causava nojo! Lembrei de uma frase que me disse dona Alina Tocantins, minha grande amiga: “É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do quer falar e acabar com a dúvida”. Não sei se era pensamento dela mesma.

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