rapa-rapa-rapadura
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
MAMÃE E SUAS VISITAS
Por ser muito bagunceira, anarquista, briguenta, pois tinha as costas quentes do mano João Pedro, e se uma das vizinhas me desse um beliscão, ganhava dois do Joãozinho. Aprontava!
Daí o hábito de mamãe me carregar nas visitas às amigas.
Os passeios me distraiam, embora à vezes sentisse tédio.
Mamãe gostava de visitar as muitas amigas e demorava de duas a três horas naquela conversa de ‘cerca Lourenço’. Mas era sempre aos domingos, já que de segunda a sábado, era comerciante, doceira e mãe de sete filhos ‘ossos duros de roer’. Ninguém era santinho! Dely parecia com mamãe!
Minha mãe, a visitadeira, vestia-se com o vestido mais bonito e fazia um belo coque. Como era bonita! E lá ia eu de mãos dadas com mamãe, ora no Porto ora no Cai Cai, ora no Bosque. Belos passeios na pequena Cuiabá dos anos 45.
Menina de sete anos, caladinha sentada numa cadeira ou até no batente, observava uma a uma. Suas amigas, às vezes eram engraçadas. Nunca perdi tempo. De cabeça baixa, às vezes sorria.
Dona Amélia, mulher inteligente, dedicada à cultura, professora de Geografia do Colégio Estadual de Mato Grosso, era muito inteligente. Conversa vai, conversa vem, contava à mamãe seus anseios de que a mulher cuiabana soubesse expressar-se melhor, ouvissem músicas, declamassem e lessem bons livros. “A nova mulher tem que saber defender seus direitos, como o direito ao voto. Você é uma mulher a quem admiro, pois soube defender-se muito bem! Bato palmas e peço bis!”
Febrilmente contava alguns fatos do cotidiano e mamãe concordava com tudo. “Amelinha, você tem razão, sei de cada fato que me deixa estarrecida! De que! Dar meu rosto a uma tapa do marido?! Ora! De que será?!...
Estranho o hábito da professora Amelinha, porque salivava e cuspia longe ao falar com a boca desdentada. Todavia, a ‘chapa’, como diziam, estava de molho no copo no d’água. Tanto a dentadura inferior como a superior.
Baixinho, achava graça e ria!
Banguela, salivava e cuspia longe, em especial, quando reclamava de qualquer acontecimento.
“Estas dentaduras me machucam a boca! Só uso quando vou à Academia Mato-grossense de Letras ou quando saio com o marido para a retreta do Jardim Alencastro! Ora, de que! Não nasci com dente! Não é mesmo?”
Era sábia, simples e engraçada.
Escrevia artigos na ‘Violeta’ e orgulhava-se de ter alfabetizado mais de cem cuiabanos e até uns índios da tribo Bororó.
Sorri e ela percebeu. Lançou-me um olhar aborrecido, entretanto fez um parêntesis para me dizer: - “Sei bem que gosta de ler! Já a peguei diversas vezes com livros nas mãos. Leia, minha filha, pois só terá a ganhar!”
Na hora de ir embora, após tomar um copo de suco de goiaba, caminhava de mão dada com aquela mãe linda, de quem todos nós, filhos, orgulhávamos-nos.
Zabelinha veio do Sucuri, município próximo de Cuiabá. Simpática, sempre me oferecia balas, enquanto comentava com mamãe sobre os despropósitos das moças daquele tempo.
“Veja só, namoram apenas três meses e já andam de mãos dadas, abraçam e beijam. Que falta de vergonha! Bide só me beijou na véspera do casamento! Ainda bem que não tenho filhos e nem filhas, porque se tivesse, com certeza, daria a eles uma educação melhor! Vôte!”
Chandinha morava sozinha e seu marido, telegrafista, enlouqueceu. Ouvi alguém contar que não suportava o barulho do telégrafo, Morse. Trancado em um dos quartos da casa, gradeado tipo prisão, parecia-me calmo e tristonho.
Às vezes Chandinha alteava a voz ao contar casos à mamãe, então o marido andava de um lado pra outro, e com um grunhido imitava os sinais Morse. Que homem estranho! Mas me sorria bondosamente. Tinha um dente de ouro que brilhava!
Dona Rita morava no Porto. Senhora gorda, simpática, fina e agradável, que nas visitas de mamãe, dona de uma padaria, colocava sobre a mesa uma variedade de pães e biscoitos, e duas ou três jarras de refresco. Gostava mais do suco de caju, que suava no copo.
Sentia-me à vontade. Em geral, falava sobre seus familiares - Castrillon - naturais das Astúrias.
“Você sabe que meus ancestrais vieram do Reino das Astúrias? Foi a primeira região da Península Ibérica a se libertar dos Mouros. Nossa gente era cristã! Daí, eles formaram a primeira entidade de política cristã. Orgulho de meus ancestrais” – declarava com voz firme e feliz.
“Um de meus tios mora em Cáceres e também é dono de padaria, mas às vezes se mete a criticar a política, daí temer que se envolva e acabe preso. Admiro seu jeito agradável de viver e ser!”
Dona Maria morava no Campo D'Ourique. Seu marido, como a maioria dos homens de Cuiabá, não negaceava quando tinha por perto uma jovem novinha e cheia de curvas. Foi ali que ele se embaraçou e o filho de Rosinha (empregada da família) nasceu o seu retrato. Escarrado! “O povo comenta pelos cotovelos. E ah! É meu marido e não é qualquer Joaninha que vai me fazer brigar com ele! Domingo, na hora da retreta vamos passear vestidos com nossa roupa mais chique e cheios de pose. O que pensam que são? Aqui tem família de padre e até o Arcebispo dorme com moça de família que entra na Residência vestida de soldado! Tá aqui!" Deu uma banana e mamãe achou graça. Também deixei escapar uma risada.
Súbito, ouvimos uma canção de Noel Rosa vinda do quarto. "Está vendo, meu marido é romântico! O que posso fazer contra ele? Nada! Essa gente que vá caçar sapo com bodoque! Vou criar o menino como se fosse meu!”.
Dona Joselina, descendente de sírios, posso afirmar, era um Anjo! Junto dos pequenos, cantava e brincava de roda. Ao receber a visita de mamãe, dizia: "Que bom receber sua visita! Foi Deus que lhe mandou! Estava a sós, os filhos saíram! Como vai Martha, estudando muito? Fiz um bolo de abacaxi e daqui a pouco vamos ver se está gostoso e também tomaremos um copo de suco de uva. Você vai gostar!”
Era um passeio que sempre me agradava! Dona Joselina vive na minha alma e tenho por ela um sentimento de amor profundo como se fosse minha tia! Deus a levou como leva a todos que envelhecem! Também irei um dia!
Na casa de dona Cindola, sentávamos na calçada em confortáveis cadeiras de balanço. Fazia bala alfenis, branca como neve, e me dava um pacote delas que derretiam na minha língua.
“Pois é, dona Iza, o Henrique arrumou um rabo de saia. Ela mora no Bosque. Diz-me sempre que está cheio de entregas, porque tem caminhão. No entanto, sei que se enfia na casa da Risoleta, uma loira farmácia por quem se apaixonou. O pior aconteceu quando Henrique adoeceu e teve que ser hospitalizado. Divido com ela as visitas: vou de manhã e levo o almoço, Risoleta vai à tarde e leva a sopa que ele gosta, de cebola!”
“Não culpo totalmente o Henrique, porque ando cansada e tornei-me uma mulher gelada! Ele é fogo na roupa! Homem que é homem não fica sem mulher! Que Risoleta satisfaça seus desejos!"
Dona Nhanhá de seu Quinco gostava de sua vidinha de rede. Na hora da visita de mamãe, balançava-se dando impulso com uma das mãos, porque a rede era bem baixinha. "Pois é, dona Iza, Os filhos está todos casados, só Beni é solteira! Quinco tem seu quarto e é tratado como um Re! De vez em quando desparece e nem quero saber por onde anda! Gosto de viver em paz! Passou o tempo de ser mulher de Quinco, hoje somos amigos!"
Oferecia-nos doce de caju seco e um copo de refresco. Também não usava as dentaduras, que ficava dentro de um copo dágua, sobre a penteadeira.
Isabel, por namorar um homem casado, não só foi expulsa da Igreja Presbiteriana como também pela irmã Chandinha. Mamãe orava por ela e pedia que corrigisse seus erros para ser feliz. Oferecia-nos bananas vindas da fazenda do seu amado. Que bananas deliciosas!
Não demorou muito tempo e sofreu um infarto que a levou. Mamãe foi ao enterro, mas não me levou! Tinha apenas oito anos!
Dona Amélia tinha filhas lindas e seu marido trabalhava no Ministério da Agricultura, junto de papai. Bem que poderia ter poupado minha observação, mas sua barriga era grande demais, como se estivesse grávida. Nunca perguntei nada a mamãe, porque tinha medo de suas zangas. Impressionava-me, contudo, pois já deveria ter cinquenta anos. Nem se passaram seis meses e vi mamãe chorando.
O que foi? - Minha amiga Amélia morreu! Era tão boa!
Fui visitar vovô João Pedro, que estava tuberculoso. Dormia em cama de solteiro e tossia sem parar. Gostava dele e no silêncio do banheiro pedi a DEUS para curar vovô, pai de papai. Era um homem muito bom e justo.
Dias depois, com mamãe fui ao seu enterro. Minhas primas ricas estavam lá: Maria Alice, Deidei, Terezinha, Helena. Notei que no rosto da Deidei havia uma lágrima parada, não caía. Estranho! Não chorei, pois finalmente vovô descansou. Vovó também não chorou. Pareceu-me livrar-se de algo incômodo.
Mamãe me contou que há muitos anos ela decidira não dormir mais ao seu lado dele. Tio Hélio protestou, mas ela manteve a decisão. Vovó era fogo!
Na visita à dona Eulina, apelidada de dona Pomba, relutava em ir com mamãe, pois era uma mulher grosseira, que falava o dia inteiro sobre o mesmo assunto com seus filhos. Pobres coitados! Repetia, repetia, repetia. O marido, Américo, era telegrafista e contava-se sobre ele o seguinte: "Ninguém arrumava uma mala tão perfeita como ele! Sentia vontade de ver, mas nunca vi!"
Dona Pomba ia cedinho, cinco da manhã, orar junto com mamãe no Mundéu, debaixo de uma árvore frondosa. Da minha rede escutava o toc...toc...toc de suas passadas. Eram pesadas!
Liam a Bíblia, discorriam sobre as passagens e depois oravam pelos seus filhos. Ela tinha sete filhos e mamãe tinha igual número.
Certa madrugada, enquanto oravam ajoelhadas debaixo da árvore centenária, um rapaz viu de longe a cena e saiu em disparada. Julgou ser assombração. Elas riam muito do fato.
Dona Eulina saiu de Cuiabá, morou em Campo Grande, e depois foi para o Rio de Janeiro. Mamãe deixou Cuiabá a convite da amiga Erna Reiners Vilá, visitou a Cidade dos Pinheirais e gostou de Curitiba, para onde se mudou. Anos mais tarde, foi para o Rio, onde se encontrou novamente com dona Eulina. Eram boas e fiéis amigas!
Meu coração bate aceleradamente ao relembrar das visitas de mamãe – com a sua mascote – e me dá vontade de novamente ir de casa em casa visitar suas boas e queridas amigas!
Todas foram chamadas por Deus! Saudades!
JUBILANIA
Jubilania, nome estranho, enfim era a herdeira de dona Jubilania da Cruz Morais de Bragança, avó paterna, dona de fazenda e muito gado. Acrescentou apenas o Neta e os amigos a chamavam de Bila, mais fácil de pronunciar.
Agosto. Mês que Bila detestava. Murcha como uma rosa que se despetala, sequer queria sair da cama. Todavia, a mãe – dona Sofia – não deixava por menos.
- Ué, não vai à igreja hoje? De que será! Não é porque tem quarenta e dois que vai me desobedecer. Levanta logo e veste aquele vestido que trouxe de Paris. Anda! Elza, sua filha já foi para o culto. Depressa! Já passa de dez horas!
Finalmente tomou uma chuveirada e desolada vestiu a roupa que a mãe deixou sobre a cama. Há anos era assim, e por isso mesmo Waldir, o marido, escapuliu com outra mulher para os Estados Unidos. Sumiu, ninguém viu!
Vestir como jovem senhora, era gosto da mãe e dela também. Mas naquela pequena cidade havia um abismo entre o modo de vestir entre jovens e jovens senhoras
Ao entrar na igreja, notou alguns cochichos entre as amigas. Amigas?! Todas eram falsas e maldosas. Temíveis como uma cobra caninana, jararaca ou outro animal selvagem.
- Vovô sempre me dizia, presta atenção, o animal pode ferir seu corpo, mas uma falsa amizade irá ferir sua alma!
Elas futricavam: - Veja só, pensa que ainda é moça de vinte! Só de estrada são trinta, fora os vinte que mamou! Alguém tem de falar com ela! Coitada! Não se manca! Ora, tem filhas de vinte e outra de dezesseis!
- É verdade, Olga, mulher de quarenta tem que ser discreta! Viu a cor do baton dela? Vermelho rubro! E as unhas? São estrelas multicoloridas! Vestido estampado, brilhante, tomara que caia e bolero curtinho... E ah! Será que endoidou? Se fosse sua filha Elzinha chamaria sua atenção! Ela, porém, ocasiona-nos susto. Onde já se viu?
- O que é que há?!... Por que me olham desse modo e ficam aí cochichando? Quem cochicha o rabo espicha! – rispidamente falou Bila.
- Quem importa o rabo entorta! – rebateu Lilica.
Na verdade, naquela cidadezinha do Centro Oeste ficava claro o abismo entre a maneira de uma mulher de vinte e poucos anos se vestir e outra de quarenta. Era um escândalo! Motivo de fofocas.
Bila era de família rica e seus pais viajavam anualmente pela Europa, na volta vinham com as malas abarrotadas de calças compridas, blusas, vestidos, chapéus, bolsas, leques e outras novidades. Tanto para a filha como para as netas Elza e Lorena.
As ‘amigas’ morriam de inveja e, para desanuviar as mentes sujas, metiam a lenha na mulher de quarenta e poucos, cujas roupas eram um acinte para pequenez de seus vestidos de leze, cambraia, linho e algodão.
- Figa! De onde tirou esse vestido?
- Inveja fez Caim matar Abel, sabia? Não vão morder a língua, senão ficarão envenenadas. – retrucou Bila.
Naquela manhã bem que amanheceu amuada e tampouco viria ao Culto, pois imaginava que uma delas iria invocar com sua maneira de ser.
- Que culpa a minha? Mamãe trouxe este vestido de Paris e vocês sabem que ela conhece a moda como ninguém! Ora bolas, carambolas! Vê se me esquecem!
Naquela noite nostálgica Bila relembrou sua luta para ser aceita na sociedade acanhada do Centro Oeste, em que seu nome corria de boca em boca…
Hoje, na Itália, recorda tristemente daqueles dias de crueldade e maldade sofridos em Cuiabá.
Tornou-se nova mulher ao se mudar com a família para novo país. Até que enfim, vivia tranquilamente fosse de calça cumprida ou de vestidos coloridos e joviais.
Conheceu Luigi Torres, italiano de Nápoles e, felizmente, viviam enamorados. Casaram-se e eram felizes.
Em Cuiabá,nos anos 60, havia um ícone de estilo para o clube das quarentonas. Pobre gente de pensamentos curtos e infelizes.
Hoje é meu aniversário. Faço 50 anos, e visto calça comprida com uma blusa amarela cor do sol, e minhas amigas sequer reparam a cor da minha roupa. Luigi me beija e confessa: Como você está bonita e jovem, Jubilânia. Te amo!
Foi um pesadelo!
sábado, 11 de janeiro de 2014
Mamãe, a visitadeira!
Por ser muito bagunceira, mamãe em suas visitas às amigas costumava levar-me habitualmente. Era visitadeira, sábados e domingos eram dias dedicados aos passeios pela pequena Cuiabá dos anos 45, em visita às amigas queridas.
Dona Amélia, mulher inteligente e dedicada à cultura, relatava seus anseios para que a mulher cuiabana soubesse falar, declamar e defender seus direitos, como o direito ao voto. Dialogava febrilmente, porque era apaixonada pelos direitos da mulher. Uma coisa, no entanto, chamava-me atenção, num copo com água conservava as dentaduras inferior e superior, e banguela falava e cuspia no ar. Achava graça. Dizia que as dentaduras machucavam suas gengivas. "Só uso quando vou à Academia Mato-grossense de Letras ou quando vou com o marido na retreta do Jardim Alencastro!" Ora, de que! Ficar com a boca toda machucada! Era uma senhora sábia e simples, que escrevia artigos nos jornais da época, professora dedicada alfabetizou grande número de cuiabanos e até índios Bororó.
Zabelinha veio do Sucuri, município próximo de Cuiabá. Simpática, sempre me oferecia balas, enquanto comentava com a mamãe sobre os despropósitos das moças daquele tempo, pois namoravam apenas três meses e já andava de mãos dadas, abraçavam e beijavam. Uma senvergonhice! Ainda bem que não tive filhos, porque se os tivesse daria outro jeito, uma educação muito melhor!
Chandinha morava sozinha e seu marido, telegrafista, tinha enlouquecido. Comentam que por não suportar o barulho do telégrafo endoidou. Um dos quartos da casa era gradeado tipo prisão e, na hora em que ela punha suas revoltas e desejos para fora, o marido andava de um lado para outro, imitando os sinais Morse. Observava aquele homem estranho, que gostava muito das crianças. Sorria-me bondosamente.
Dona Rita residia no Porto. Senhora simpática, fina e agradável, que nas visitas de mamãe, como era dona de padaria, dispunha sobre a mesa uma grande variedade de pães e biscoitos, e várias jarras de refresco. O que mais gostava era o suco de caju, que no copo suava. Sentia-me à vontade. Em geral, discorria sobre seu familiares - Castrillon - naturais das Astúrias. Um de seus tios morava em Cáceres e também era dono de padaria, mas às vezes se metia a criticar a política, daí temer que se embaraçasse e fosse preso. Admirava seu jeito agradável de receber!
Dona Maria morava no Campo D'Ourique. Seu marido, como a maioria dos homens de Cuiabá, não negaceava quando tinha por perto uma jovem novinha e cheia de curvas. Foi ali que ele se embaraçou e o filho de Talita nasceu a sua cópia. "O povo comenta pelos cotovelos. E ah! É meu marido e não é qualquer Joaninha que vai me fazer brigar com ele! Domingo, na hora da retreta vamos passear vestidos com nossa melhor roupa e cheios de pose. O que pensam que são? Aqui tem família de padre e até o Arcebispo dorme com moça de família que entra na Residência vestida de soldado! Tá aqui!" Deu uma banana e mamãe achou graça.
Súbito ouvimos uma canção de Noel vinda do quarto do marido. Ele também cantava. "Está vendo, meu marido é romântico! O que posso fazer contra ele? Nada! Essa gente que vá caçar sapo com bodoque!" Soube que ela criou o menino como se fosse seu filho!
Dona Joselina, descendente de sírios, posso afirmar, era um Anjo! Junto dos pequenos, cantava e brincava de roda. Ao receber a visita de mamãe, dizia: "Que bom receber sua visita! Foi Deus que a mandou aqui. Como vai Martha, estudando muito? Fiz um bolo de abacaxi e daqui a pouco Amélia vai arrumar a mesa para nós o saborearmos com suco de uva. Você gosta, querida!" Foi um passeio que sempre me agradou! Dona Joselina vive na minha alma e tenho por ela um sentimento de amor como se fosse minha avó. Deus a levou como leva a todos que envelhecem! Também vou!
Na casa de dona Cindola, ficávamos na calçada e como fizesse alfenis, dava-me um pacote de balas de coco que derretiam na minha língua. O marido, Henrique, arrumara uma mulher que morava no Bosque. Dizia estar cheio de entregas, pois tinha caminhão. No entanto, ela sabia que se enfiava na casa da Risoleta, uma loira farmácia por quem se apaixonara. O pior aconteceu quando seu Henrique adoeceu e foi hospitalizado. As horas eram irmãmente divididas para visita de uma e outra. A esposa desculpava-se que desde os cinquenta anos gelou muito e dava direito a que procurasse uma mulher para satisfazê-lo. "Homem que é homem não fica sem mulher! Que a Risoleta satisfaça seus desejos!" - justificava.
Donha Nhanhá de seu Quinco gostava de sua vidinha de rede. Na hora da visita de mamãe, balançava-se dando impulso com uma das mãos, porque a rede era bem baixinha. "Pois é, dona Iza, Os filhos está todos casados, só Beni é solteira! Quinco tem seu quarto e é tratado como um Re! De vez em quando desparece e nem quero saber por onde anda! Gosto de viver em paz! Passou o tempo de ser mulher de Quinco, hoje somos amigos!" Oferecia-nos doce de caju seco e um copo de refresco de abacaxi. Não usava dentadura, que ficava dentro de um copo dágua, sobre a penteadeira.
Isabel, por namorar um homem casado, não só foi expulsa da Igreja Presbiteriana como também pela sua irmã Chandinha. Mamãe orava por ela e pedia que corrigisse seus erros para ser feliz. Oferecia-nos bananas vindas da fazenda do seu amado. Que bananas deliciosas! Não passou muito tempo e sofreu um infarto que a levou. Mamãe foi ao enterro, mas não me levou! Tinha só 9 anos!
Dona Amélia tinha filhas lindas e seu marido também trabalhava no Ministério da Agricultura, o mesmo do papai. Bem que poderia ter poupado minha observação, mas sua barriga era enorme, como se estivesse grávida. Nunca perguntei nada a mamãe, porque tinha medo de suas zangas. Impressionava-me, contudo, pois já deveria ter cinquenta anos. Nem se passaram seis meses e vi mamãe chorando. O que foi? - Minha amiga Amélia morreu! Era tão boa!
Fui ver vovô Joao Pedro ,que estava tuberculoso. Dormia em cama de solteiro e tossia sem parar. Gostava dele e no silêncio do banheiro pedi a DEUS para curar meu avô, pai de pai. Era homem bom! Meses depois, com mamãe fui ao seu enterro. Minhas primas ricas estavam lá: Maria Alice, Deidei, Terezinha, Helena. Então, também estava lá, e notei que no rosto da Deidei havia uma lágrima parada, não caía. Estranho! Não chorei, pois finalmente vovô descansou. Vovó também não chorou. Pareceu-me livrar-se de algo incômodo. Mamãe me contou que há muitos anos ela decidira não dormir mais ao lado dele. Tio Hélio protestou, mas ela manteve sua resolução.
Na visita à dona Eulina, apelidada de Pomba, relutava em ir com mamãe, pois era uma mulher grosseira, que falava o dia inteiro sobre o mesmo assunto com seus filhos. Pobres coitados! Repetia, repetia, repetia. O marido, Américo, era telegrafista e contava-se sobre ele o seguinte: "Ninguém arrumava uma mala tão perfeitamente como ele! Sentia vontade de ver, mas nuca vi!" Dona Pomba ia cedinho, cinco da manhã, orar junto com mamãe no Mundéu, debaixo de uma árvores frondosa. Liam a Bíblia, discorriam sobre as passagens e depois oravam pelos seus filhos. Ela tinha sete filhos e mamãe tinha o mesmo número. Certa vez, enquanto oravam ajoelhadas, um rapaz viu de longe e saiu em disparada. Julgou ser assombração. Elas riam muito desse fato.
Anos depois dona Pomba mudou-se para Campo Grande e depois para o Rio de Janeiro, no Flamengo.
Mamãe também se mudou para Curitiba e fomos todos para a cidade fria. Nilo, João Pedro e eu queríamos voltar a Cuiabá. Nilo empregou-se no Correios e conseguiu transferência para Cuiabá, onde o esperava a bela Suely Cuiabano Monteiro, com quem se casou e teve quatro filhos: Thânia, Wânia, Luthero e Rogério. João Pedro foi estudar Artes Plásticas em Paris. Dely adaptou-se perfeitamente a Curitiba, estudo Direito (3º ano), pois o futuro marido, Eduardo Winter, médico, convenceu que devia trancar a matrícula. Casou e é muito feliz com a filha Solange, genro Mauro, netas Desirée, Giselle, Simone e Lucas e, hoje com as encantadoras bisnetas Isadora, Amanda e o Eduardo, que deverá nascer em breve. Eu,aos dezessete anos, casei-me com Marinato Dias de Paiva, eng.º agrº, casamento que durou apenas seis anos. Meus filhos Marinari, Marcia e Mara, a pedido da avó, foram criados por ela. Alegava ter apenas um filho e que teria mais tempo para cria-los. Arrependi-me, mas não há mais tempo para modificar nossas vidas. É a vida!
Quando ia a Cuiabá, as amigas da mamãe relembravam as suas visitas e diziam sentir saudades daquele tempo.
Todas as amigas da mamãe e ela também já estão no Paraíso!
Por ser muito bagunceira, mamãe em suas visitas às amigas costumava levar habitualmente. Visitadeira, sábados e domingos eram dias dedicados aos passeios pela pequena Cuiabá dos anos 45, em visita às amigas queridas.
Dona Amélia, mulher inteligente e dedicada à cultura, relatava seus anseios para que a mulher cuiabana soubesse falar, declamar e defender seus direitos, como o direito ao voto. Dialogava febrilmente, pois era apaixonada pelos direitos da mulher.
Uma coisa, no entanto, chamava-me atenção, num copo com água conservava as dentaduras inferior e superior, e banguela falava e cuspia no ar. Achava graça. Dizia que as dentaduras machucavam suas gengivas. "Só uso quando vou à Academia Mato-grossense de Letras ou quando vou com o marido na retreta do Jardim Alencastro!" Ora, de que! Ficar com a boca toda machucada!
Era uma senhora sábia e simples, que escrevia artigos nos jornais da época, professora dedicada alfabetizou grande número de cuiabanos e até índios Bororó.
Zabelinha veio do Sucuri, município próximo de Cuiabá. Simpática, sempre me oferecia balas, enquanto comentava com a mamãe sobre os despropósitos das moças daquele tempo namoravam apenas três meses de conhecimento com o rapaz, e já andava de mãos dadas, abraçavam e beijavam. Uma senvergonhice! Ainda bem que não tive filhos, porque se os tivesse daria outro jeito, uma educação muito melhor!
Xanndinha morava sozinha e seu marido, telegrafista, tinha enlouquecido. Comentam que por não suportar o barulho do telégrafo foi-se endoidando. Um dos quartos da casa era gradeado tipo prisão e, na hora em que ela punha suas revoltas e desejos para fora, o marido andava de um lado para outro, imitando os sinais Morse. Observava aquele homem estranho, que gostava das crianças.
Dona Rita residia no Porto. Senhora simpática, fina e agradável, que nas visitas de mamãe, como era dona de padaria, dispunha sobre a mesa uma grande variedade de pães e biscoito, e várias jarras de refresco. O que mais gostava era o de caju, que no copo suava. Sentia-me à vontade. Em geral, discorria sobre seu familiares - Castrillon -
domingo, 11 de março de 2012
CHUVA FINA, FRIO, SEXO!
A Praça Carlos Gomes, próximo
do nosso novo endereço: Rua Vicente Machado, 166, que Martha conseguiu
localizar com seu faro de jornalista. Conversou com o dono e depois levou a
mamãe para ver. Gostou. O Sr. Brasílio nos alugou a grande casa. Ele passou a
morar no porão com a dona Maria e sua filha.
Eu, às vésperas de fazer 19
anos, já estava mais à vontade, apesar da chuva fria, sexo e agasalhos de lã.
Meu próximo encontro com um
homossexual foi naquele zonzem da Carlos Gomes, onde havia um ponto de encontro
gay. Um senhor, tão logo me viu, saiu de onde estava e sentou-se ao meu
lado. Travou breve diálogo e indagou se
gostaria de dar um passeio no Parque da Cidade. Com os neurônios fervendo,
entendi ligeiro que era um convite para fazermos sexo. Ora, aceitei na hora!
Ficamos atrás de um alto
capinzal. Ele desceu a calça e deixou-me à vontade para entrar naquele vaivém
delicioso. Era passivo! Antes, porém, praticou felação com meu pênis. Só depois
praticamos o ato sexual. Revelou-me que prefere ser passivo, porque sente
grande prazer.
Saímos de lá totalmente
realizados. Este passou a ser meu par habitual em todas as semanas em que
comparecia ao ponto de encontro.
Caísse a mais fria chuva
invernal, fizesse frio descomunal e lá estava eu! Tinha bons agasalhos.
Lá era um grande parque com
gaiolas: macacos, onças, pássaros e a ‘bicharada” – que éramos nós! Era
"habitué” do afamado ou difamado lugar! Andava de um lado para outro como quem
não quer nada e, repentinamente, surgia o que tanto almejava! Sempre tinha
alguém que gostaria de fazer uma ‘brincadeirinha’ comigo! Meu cu até ardia de
tão fogoso!
Alguns se limitavam aos
abraços e beijos, mas a grande maioria desejava mesmo fazer amor. Havia uma
gama enorme de homossexuais passivos, se bem que outros eram ativos.
Gorcel era um homem negro,
alto, um vozeirão, vindo do Norte, que tinha um pênis fenomenal. Muito grande!
Era ativo e alguns amigos fugiam dele, porque era uma relação dolorida. Saí com
ele umas três vezes, depois desisti. Saía até sangue e ele urrava como um leão
na hora do gozo. Tínhamos que ficar em lugares bem desertos. Outra coisa que
fazia questão era de que enfiássemos uma vela grossa nele, antes de começar a
‘brincadeira’. Ria muito com isso. Certa vez até gozou! Mas era apenas o
começo, porque uma relação com ele demorava mais de duas horas. Ele costumava
dar uma descansada. Beijava muito, abraçava, e na hora da penetração o fazia
devagar. Queria sentir cada milímetro! Nunca esqueci Gocel, que era mecânico de
uma oficina na Carlos de Carvalho. Deu-me até uma blusa de lã muito bonita!
Encontrei uma mulher bem
vulgar de cabelos cor de fogo, chamada Raina.
Era bem jovem, talvez tivesse 17 anos. Cheirava a flor de laranjeira,
era muito limpa. Deitamos no gramado. Era noite muito escura. Quebrei a regra, consegui penetrar ela como
um homem. Demos muitas risadas! Tornou-se minha amiga e vez por outra me trazia
um sanduiche feito por ela. Não repeti a dose. O último encontro que marcou
comigo não fui. Na verdade, gostava de
ser homossexual, ativo e passivo.
Fui passivo poucas
vezes. Gorcel me deixou dolorido por
muito tempo, porque não era normal o tamanho de seu pênis.
Numa dessas noites encontrei
um estudante de Administração, gaúcho, que me convidou para visitar seu
apartamento. Ficava pertinho. Era um
ambiente bem decorado, móveis de primeira linha, e o rapaz era educado.
Tratou-me muito bem, ofereceu-me até uma taça de vinho chileno. Na intimidade
de sua cama de casal, em total liberdade, ele pediu-me que queria ser ativo.
Deixei. Na segunda, fui eu! Rimos! Ficamos nesse troca-troca até quase três da
manhã! Saí correndo, porque a mamãe iria
achar ruim a minha demora. Realmente, me esperava na entrada da nossa casa e
reclamou da minha demora. Inventei ter ido a um aniversário.
- Não demore tanto da próxima
vez! – alertou-me.
Com Jair, nome do gaucho de
Porto Alegre, fui visitar outros apartamentos de homossexuais. Muitos eram
escandalosos e sujos. Conheci Bartira, nome de fé, que era extremamente
afeminada.
Continuava a ir à
Presbiteriana, cantar, ler a bíblia, ouvir sermões e orações dos frequentadores
assíduos. Tornou-se tão natural para mim, que nem me importava com os
versículos que me davam para ler em voz alta.
Uni sexo, igreja, família,
amigos, tudo!
Fui ao norte do Paraná, onde
morava minha irmã e meu cunhado. Ele saiu candidato a prefeito. Era médico e
bem conceituado entre os moradores da pequena cidade. Junto a vários rapazes e homens da comitiva
da UDN, ao passar por Cambará, fui levado a um local desconhecido. Era um
bordel! Fiquei enojado, porque não era o ambiente que desejava para mim. Eles
fizeram amor com prostitutas dali.
Uma mulata de cabelo sarará
aproximou-se de mim, abraçou-me, puxou-me para seu quarto. Quase morri! Tirou
suas roupas e deitou-se sobre mim. Percebi que tinha a carne da barriga
queimada, porque era repuxada. Nada lhe falei, mas pedi para sair de lá. Ela me
perguntou: - Você é bichinha? Respondi:
- Sou!
Tinha plena consciência do
que era e daquilo que queria.
Voltei a pintar muito. Entrei
para a Escola de Belas Artes do Paraná. Fui aluno do artista renomado Guido
Viaro. Isto constituiu para mim um grande passo, porque deixei de pensar tanto
em sexo.
Em bela manhã de sol, rara em
Curitiba, no “Dia das Mães” eu e minha irmã mais velha fomos à Igreja
Presbiteriana. Levávamos uma rosa, cada um, para fazer a entrega à nossa mãe,
na igreja. Ao passar por um grupo de rapazes, estes acharam muito afeminado meu
jeito de segurar a rosa e lançaram gracejos. “Olha só, ELA vai linda com a rosa
na mão!” Ou: “Que veadinho mais gracioso!” Levei um susto tremendo, por estar
junto da minha irmã. Senti enorme vergonha, nem conseguia andar direito, tive
vontade de jogar longe aquela maldita rosa!
Nunca esquecerei esse vexame!
Era 1952 e estava com 17
anos! A mana tinha 21 anos!
No Colégio Estadual do Paraná
contava alguma coisa a meus colegas, quando um deles me disse em voz alta: “Ei,
rapaz, fala como um homem! Do jeito que fala parece uma bicha!”. Calei-me.
Discretamente saí do meio deles. Procurei um lugar escondido onde chorei
amargamente.
Solitário, era comum fugir
dos colegas e nunca andava em turma. Buscava locais tranquilos e andava no
arredor da cidade, a contemplar a bela natureza das araucárias!
A voz do silêncio parecia me
cochichar coisas boas no ouvido. No convívio da sociedade sempre encontrei um
espírito de porco para me humilhar! Súbito alguém me jogaria por terra! Lembrei-me do livro que li
aos 12 anos, “O Pequeno Príncipe”, “o
que se vê com o coração amargurado é invisível aos olhos alheios.”
Em minha casa meus irmãos
sempre me respeitaram. Minha mãe também!
Começo a pensar em deixar o
Brasil, estudar Artes Plásticas na França!
SOZINHO
Sozinho, pinto um quadro. Gosto do silêncio profundo da mata. Só o cantar da seriema me alegra. Alguns a chamam de sariema, é o falar de pessoas incultas. Seu tamanho é tamanho é médio e gosta mais de correr rapidamente a voar. Noto que se alimenta de pequenos insetos, lagartos e cobras menores. Viu um pé de caju e correu para perto dele, alimentando-se de seus frutos. Como é desconfiada! Parece Martha, minha irmã que é muito desconfiada a tudo e todos. Comentam que o canto da seriema avisa que a chuva vai parar! Que bom! Quero continuar a pintar e não quero que chova!
Dei um pão que trouxe na matula e a seriema começou a bicar. Gostou! Uma vive está junto de outra. Vi uma moça persegui-la e ela voou. Tia Rosita, paraguaia, me ensinou o nome da seriema em tupi, nhandu!
Começa a cair o sereno da noite e elas abrigam-se no alto das árvores, onde também constroem seus ninhos. Pintava exatamente algumas emas a correr sobre os pedregulhos. Trouxe uma rede para armar entre duas árvores e dormir!
Impresiona-me a beleza de um riacho de águas cristalinas onde posso ver as pedrinhas brancas no fundo das águas. Belo campo cheiro de lixeiras, tortas e belas! Há muitas casas de cupins enfileiradas ao lado dos caminhos que percorro.
Garças brancas cruzam o céu que começa a escurecer. É a noite que chega!
Lembro-me de algo. Foi um vexame que sofri, quando o fotógrafo Chau administrava as Águas Quentes. Deu-me um quarto a ser compartilhado com uma velhinha de baixa estatura, magra, cabelos branquinhos, que calculei ter oitenta anos e pouco. Apresentaram-me a algumas moças bem mais velhas que eu. Corria o ano de 1949. Tinha 14 anos!
Rosa, Rita e Nina estavam com medo de dormir sozinhas no quarto e conviaram-me para dormir com elas. Não havia nada de mal,uma vez que sou homossexual. Aceitei!
No dia seguinte, a velhinha talvez enciumada por saber que deixei de domir em seu quarto para dormir no quarto das jovens, veio contra mim. Fez um escarcel! Contou a todos os hóspedes e acabei sendo expulso de lá! Imagine só, eu, com 14 anos e gay, ter dormido com as três moças de mais de vinte anos!
A velha gritava de raiva! Em altos brados me chamou de bandido, aproveitador de mocinhas e outros nomes piores.
Diante dos hóspedes do hotel fiquei rubro de vergonha. Chorei, solucei! Abatido e traumatizado com a situação vexatória, peguei minha malinha e sumi pelos meandros do mato.
Foi nesse dia que fui para a Guia e convivi com as seriemas. Um senhor me deu carona de caminhão.
Filho de pais separados, a família da linha paterna era bem situada, rica mesmo! Meu tio era político afamado e bem colocado na vida. Vovô deixou a Usina com um de seu filhos. Quando visitava vovó, que morava em bela casa, era bem recebido e ao alomoçar com ela, não sei a razão, mas era comum derrubar um copo, um prato e até uma bela compoteira. Acho que ficava nervoso! Papai, quando estava presente, dava um show de repreensão. Eita papai! Vovô, calado e bom, nunca reclamou e pedia calma a seu filho. Quando tinha festa, aí me esbaldava. Enchia os bolsos de docinhos para levar à mamãe! Não era só eu que fazia isso, mas todos meus irmãos que pensavam na querida mamãe!
A educação dada pela mamãe era muito rígida, presa aos preceitos da igreja Presbiteriana. Não deixava ninguém tomar banho com o outro, nem irmão com irmão e muito menos irmão com irmã. Na cabeça dela, por ter sido mulher de um doente sexual, via sexo em tudo.
Um dia Martha disse ‘merda’ e mamãe pegou uma brasa e trouxe na colher, ameaçando-a de queimar a sua língua. Ela ficou desesperada, mas mamãe apenas ameaçava.
Mamãe recebeu uma carta de sua amiga – Erna Reiners Vilá – que era casada com seu João e tinha uma filha de nome Leopoldina. Convifou-lhe para ir conhecer Curitiba e ajudar a fazer os docinhos na festa de aniversário de sua filha. Ela gostou do convite e aceitou.
Foi. Nós - Hélio Mário, Martha, eu e Nilinho – ficamos sob a proteção de nossa irmã Dely, que tinha apenas dezoito anos. Dely era parecida com mamãe e nos proibia de tudo. Martha chocava-se muito com ela. Certa vez, pegou algumas moedas da Livraria, chamou a Lúcia e pediu para comprar uns carmelhos no Chico Jorge. Ao voltar com o pacote, Dely quis saber quem havia dado dinheiro para comprar as balas, Soube que foi a nossa Pretinha. Então distribuiu carmamelos Tofee a todas as crianças, menos a ela, que ficou chorando e xingando a irmã. Repetia: “Você não é minha mãe!”
Ao chegar o Carnaval, os mais velhos foram ao retiro no Colégio de Buriti, perto da Chapada. Fiquei com a vovó. Livre, feliz da vida, fui com meus primos no Feminino, na época era o melhor clube de Cuiabá. Também pulei, dancei, tomei até um copo de cerveja que Edu me deu! Era o mais endiabrado da turma! Dancei nos quatro dias de Carnaval! Dancei, cantei e tomei apenas um copo de cerveja! Gostava de dançar o frevo do Nordeste e o samba carioca!
Assim me despedia de Cuiabá, porque em 1950, chegou a carta de mamãe mandando vender a Livraria e ordenando que fôssemos para a fria Curitiba, onde já alugara uma casa, à rua Visconde de Nacar.
Não muito alegre, tive que ir. Fui pelo CAN – Correio Aéreo Nacional – até São Paulo. Ali fiquei alguns com os tios Arnaldo e Rosita, e as primas Zóia e Loire,
Carreguei comigo toda minha alegria de viver! Pensei em conhecer novos horizontes, nova gente descendente de estrangeiros, pinheirais, caquizeiros...
Que cidade fria! Não só a cidade mas também as pessoas! Os vizinhos tampouco nos davam Bom-dia! Que gente mais esquisita! Como antes, nossa vida era na Presbiteriana! Ainda bem que o pastor Emrich fazia belos sermãos. Menos mal! Os fiéis era fanáticos por ele!
Fiz 15 anos! Mamãe fez o bolo confeitado, com as velinhas. Recebemos visita do pastor e de alguns crentes. Não havia aquela festa animada dos velhos aniversários de Cuiabá! A saudade foi me deixando triste! Mamãe tonou-se a melhor Confeiteira de Curitiba. Fez bolos de noiva para três filhas de governadores: Moisés Lupion, Bento Munhoz da Rocha e Ney Braga. Expunha seus bolos em armação de papelão na Joclena, loja da rua XV de novembro. Dava aulas de Alta Confeitarias às socialites curitibanas. Fez muitas amizades!
Explodia em mim vontade de fazer sexo!
Surgiu um passeio a Campinas, SP. Mamãe me mandou e fiquei hospedado em um Seminário Presbiteriano. Conheci um rapaz da minha idade e tivemos forte atração. Passeávamos juntos, fotografávamos e ríamos muito. Sentia-se confuso... Ele me abraçou,beijou e dormimos juntos. Não chegamos aos finais!... Que pena!
Estudava no Colégio Estadual do Paraná, onde fiz muitas amizades com moças e rapazes.
De 1950 a 1953, ou seja, entre 15 e 18 anos, tornei-me exatamente como mamãe queria: crente!
No verão de 1953, saí do colégio e fui caminhando pelo Passeio Público, um local onde havia lagos, barcos e outros brinquedos infantis. Um senhor aproximou-se e perguntou-me as horas. Respondi e segui em frente. O senhor veio ao meu encalço e perguntou-me se tinha namorada. Estranhei a pergunta e notei haver algo de errado. Seguiu comigo a conversar. De repente o assunto passou a sexo.
– Seu pênis é grande? Fiquei extremamente nervoso. Não respondi. Ele era tinhoso e não desistia. Entramos no cemitério e fomos olhando os mausoléus e túmulos. Viu um lugar escondido e puxou-me para lá. Abriu minha braguilha, retirou o pênis e começou a masturbar-me, nervosamente. A fogueira se acendeu! Tivemos um ato sexual em pleno cemitério, no chão. Eu era ativo e passivo. Exerci ambos. O homem vibrava e quase gritava de emoção. Eu também! O homem era gostoso!
sábado, 10 de março de 2012
Melhor deixar pensar
que eu era idiota!
Em 1948, aos treze anos, realizou-se em Cuiabá uma grande exposição
agropecuária, em que mamãe expôs seus belos bolos confeitados, juntamento com
dona Francisca Capriata Lotufo, conhecida como dona Chiquinha. Elas competiam
quanto a maior beleza dos bolos.
Tratava-se de exposição de produtos agrícolas, animais, variados estandes
com exposições de roupas, artesanato, sapatos etc. Acontecia anualmente. Hoje ficaram
mais famosas pelos rodeios e no final eram eleitas as Rainha e Princesas do
evento.
O povo inteiro da cidade se enfeitava, perfumava-se e usava chapéus para
comparecer à FEIRA Agropecuária. Era chique!
Em uma delas, fui com alguns amigos e fiquei observando tudo, ocasião em
que um senhor de aproximadamente quarenta anos olhava atenta e insistentemente
para mim. Era um homem bem vestido, de olhar expressivo e pode-se afirmar que
era bonito. O mais importante era que usava farda de militar de alta patente.
Aproximou-se e passamos a conversar. Depois de alguns minutos sumiu.
Dias depois, encontrei o coronel na rua. Cumprimentou-me alegremente e
convidou-me para tomar um sorvete no Bar do Bugre. Aceitei. Havia algo de estranho na expressão do seu
olhar. Fiquei de ‘botuca’. Tomamos taças de sorvete e bebemos guaraná Zenith
geladinho. Por ser um menino pobre, jamais teria dinheiro para gastar com
sorvetes e refrigerantes. O senhor era educadíssimo. De repente, curvou sua
cabeça junto ao meu ouvido e perguntou: - Quer fazer amor comigo? Levei susto, mas realmente já esperava por
isso. Arredio, olhei bem nos seus olhos e não consegui dizer nada. Novamente
repetiu o convite e acrescentou que me daria noventa contos. Em silêncio, pensei na sua oferta, cujo valor
daria para eu comprar um sapato novo, pois o meu estava furado. Mesmo assim
fiquei com medo. Disse-lhe: - Não, muito obrigado! Insistiu de novo e aumentou
o valor para cem contos. Repeti que “não”. Finalmente desistiu. Deixou-me ir
embora.
Nessa época além de despertar-me para o sexo, era importante para mim a
vida em contato com a natureza. Prendia-me à beleza das árvores, aos trinados
dos pássaros, à beleza do nascer e por do sol, ao encanto das belas flores, às
noite enluaradas. Cuiabá era de rara beleza! A beleza da vida era-me importante!
Comecei a desenhar e pintar! Tive ímpeto de transpor para as telas toda
aquela beleza que me emocionava. Via beleza em todo lugar! Em início pintava
sobre madeira. Fui à Várzea Grande e pintei uma bela estrada e uma casinha
solitária, ao lado de belos flamboyants. Demorei horas e horas a pintar e a
acertar aqui e ali. Também gostava de desenhar rostos de pessoas que me
chamavam atenção. Meu amor às Artes Plásticas começou a se desenvolver com mais
força! Passava horas e horas a olhar a diversidade de verdes, a luz do luar, as
folhas queimadas no verão e as folhas que se desprendiam das árvores no outono.
As mangueiras, as mangas, os cajás amarelos... Pitombas... Tudo!
Disse à mamãe que meu prazer era olhar a beleza da natureza! Também contei
aos meus irmãos que gostaria de ser pintor! Se para algumas crianças agradavam
as peladas de futebol, a mim agradava ver e pintar o BELO!
Meu gosto pendia para as músicas clássicas: Beethoven, Chopin, Bach, Handel
e outros. Meus irmãos, no entanto, ligavam o rádio para ouvir músicas populares.
Era uma briga tremenda, porque não desistia de ouvir minhas belas músicas e
eles também optavam por Ângela Maria, Carlos Galhardo e outros canores da MPB.
Papai trabalhava em São Vicente, na Escola Agrícola, e me convidou para
passar alguns dias com ele, onde tinha casa e certo conforto. Fui para lá.
Conheci muitos alunos da escola e fiz amizade com eles. Que guris bonitos!
Senti atração por vários deles, mas nunca tive coragem de me aproximar de
nenhum! Passava pela minha cabeça fazer amor com um deles, mas fiquei na minha!
Um de meus irmãos, um pouco mais velho que eu, também passeava ali. No
curral, dei de cara com ele mantendo relação com uma vaca. Era 1948 e tinha 13
anos! Acho que ele estava com 16 anos! Nem ligou para a minha presença e continuou em seu
“affaire”...
Ouvi neste lugar várias pessoas contarem sobre a má conduta de papai. Perseguia
meninas, inclusive apalpando-as e se elas consentissem carregava-as para a
cama. Papai trazia esse problemas com ele, mamãe sempre dizia que ele nunca
perdoou sequer uma de nossas empregadas domésticas. Todas saíam da nossa casa
de ‘barriga’.
Quanto a mim, era ridicularizado e constantemente chamado de ‘bichinha e
marica”. Doía, mas fui-me acostumando com aquelas afrontas. Cada olhar, cada
risinho, cada piada me deixava cheio de vergonha! Uma lança afiada era enfiada
em minha alma! A ferida foi aumentando e criou dentro de mim uma grande
confusão! Deixar me atrair pelos garotos mesmo? Ou tentar namorar uma menina?
Amei aquela menina linda de origem sírio-libaneza – Elione – que até me
deixou insone. Tive por ela um grande amor, mas à distância. Ela era minha
amiga! Nunca me olhou como um possível namorado.
Unido com minha irmã Martha, aproveitava para ficar ao lado dela. Brinquei
até de roda, esconde-esconde, ‘passa meu bom barqueiro...’. Mas Elione me
repudiou!
O nome ‘marica’ era comum ouvir. Deixava as lágrimas cairem debaixo do
chuveiro.
A vida corria! Certo dia uma vizinha de mamãe, fofoqueira e má, perguntou
se um dia João Pedro iria se casar, e nem permiti que minha mãe respondesse.
Gritei do quarto,onde estava: - Não, minha senhora, sou homossexual!
Mamãe não gostou e discutiu comigo que não deveria ter dito aquilo, mas era
a mais pura verdade.
Para fugir da
‘pequenêz’ das pessoas, saía a caminhar pelas estradas e olhava a beleza da
natureza, o cantar dos pássaros, o cantar dos galos... Enfim, o ser humano me
causava nojo! Lembrei de uma frase que me disse dona Alina Tocantins, minha
grande amiga: “É melhor
calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do quer falar e
acabar com a dúvida”. Não sei se era pensamento dela mesma.
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