quinta-feira, 8 de março de 2012

Boina cor de laranja


Estava apressada e caminhava a largos passos pela Avenida Jurerê Tradicional. Sentia-me preocupada com a chegada das sobrinhas. Vi alguém a me olhar. Será para mim? – perguntei-me, porque quem vai se preocupar com uma mulher idosa? Não é que era? O homem de boina cor de laranja dirigiu-se a mim.

- É Gertrudes?

- Engano, senhor! Nem conheço alguém com esse nome.

- Engraçado, é igual a ela.  Uma mexicana que conheci no Rio de Janeiro.

- Por favor! Tenho pressa! Não percebe?

- Ora! Tenho em mente que não vale a pena ter pressa para nada. A vida corre. Tudo vem às nossas mãos no devido tempo. Pense que está ganhando um novo amigo!

Mirei longamente o homem de média estatura, bermuda colorida, camiseta branca, sandálias de couro e boina cor de laranja. Pareceu-me ter uns sessenta anos. Suas sandálias estavam recobertas de uma poeira fina. O que é isso? – pensei.

Enquanto o olhava, ouvi cães a latir furiosamente.  Sorriu e me contou chamar-se Shervinski, filho de poloneses e cidadão do mundo. Os cães se assustam quando passo, pois muito me chamam de “Bruxo”. Crê em bruxarias?

- Sim. Que hay hay...

Parada, voltei a olhar para suas sandálias empoeiradas.

- Viaja muito?

- Sim. Sou andarilho. Venho de Videira, onde meus pais cultivam uvas.  Como se chama?

- Martha Arruda. Por favor, Giuliana e Nádia vão chegar e preciso fazer um lanche para recebê-las!

Todavia, aquelas sandálias empoeiradas me comoveram. Imaginei o quando sofrem os homens sem eira nem beira. Andarilhos. Sozinhos. Às vezes com fome e sede. Vivendo e aprendendo a ser só!

Olhei as horas. Era tarde!

Shervinski suspirou. Foi um suspiro que veio lá do fundo da sua solidão.

Tive pena e prometi conversar com ele amanhã.

Você já ouviu falar no Dalai Lama? Ele diz que “só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”

Por favor!

- Fique só mais um pouco. Você tem muitos anos, eu sei! Mas a sua cabeça é um baú onde quero remexer muito. Você vai deixar, eu sei.

-Perdão, senhor! Tenho hora marcada com meu médico. Conversaremos em outro dia!

- Que vá pros Diabos! É bruxa como eu!






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