Estava apressada e caminhava a largos
passos pela Avenida Jurerê Tradicional. Sentia-me preocupada com a chegada das
sobrinhas. Vi alguém a me olhar. Será para mim? – perguntei-me, porque quem vai
se preocupar com uma mulher idosa? Não é que era? O homem de boina cor de
laranja dirigiu-se a mim.
- É Gertrudes?
- Engano, senhor! Nem conheço alguém com
esse nome.
- Engraçado, é igual a ela. Uma mexicana que conheci no Rio de Janeiro.
- Por favor! Tenho pressa! Não percebe?
- Ora!
Tenho em mente que não vale a pena ter pressa para nada. A vida corre. Tudo vem
às nossas mãos no devido tempo. Pense que está ganhando um novo amigo!
Mirei
longamente o homem de média estatura, bermuda colorida, camiseta branca, sandálias
de couro e boina cor de laranja. Pareceu-me ter uns sessenta anos. Suas
sandálias estavam recobertas de uma poeira fina. O que é isso? – pensei.
Enquanto o
olhava, ouvi cães a latir furiosamente.
Sorriu e me contou chamar-se Shervinski, filho de poloneses e cidadão do
mundo. Os cães se assustam quando passo, pois muito me chamam de “Bruxo”. Crê
em bruxarias?
- Sim. Que
hay hay...
Parada,
voltei a olhar para suas sandálias empoeiradas.
- Viaja
muito?
- Sim. Sou
andarilho. Venho de Videira, onde meus pais cultivam uvas. Como se chama?
- Martha
Arruda. Por favor, Giuliana e Nádia vão chegar e preciso fazer um lanche para
recebê-las!
Todavia,
aquelas sandálias empoeiradas me comoveram. Imaginei o quando sofrem os homens
sem eira nem beira. Andarilhos. Sozinhos. Às vezes com fome e sede. Vivendo e
aprendendo a ser só!
Olhei as
horas. Era tarde!
Shervinski
suspirou. Foi um suspiro que veio lá do fundo da sua solidão.
Tive pena e
prometi conversar com ele amanhã.
Você já ouviu falar no Dalai Lama? Ele diz que “só
existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro
se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e
principalmente viver”
Por favor!
- Fique só mais um pouco. Você tem muitos anos, eu
sei! Mas a sua cabeça é um baú onde quero remexer muito. Você vai deixar, eu
sei.
-Perdão, senhor! Tenho hora marcada com meu médico.
Conversaremos em outro dia!
- Que vá pros Diabos! É bruxa como eu!
Nenhum comentário:
Postar um comentário