Terezinha de Arruda, a quem o inesquecível amigo
arquiteto Júlio Delamônica Freire chamava de ‘Madre Thereze’, por ter sido
freira no passado, foi uma das melhores chefes que tive em minha vida. Amiga,
conselheira, amável, pura, sincera e uma porção dos melhores adjetivos, certo
dia me chamou e disse: - Marta, você irá a Cáceres, pois lá moram vários
trabalhadores das usinas de açúcar do Rio Abaixo.
- Ótimo! Tenho vontade de conhecer essa cidade
situada às margens do rio Paraguai. Quando irei?
- Amanhã. Aqui tem as passagens de ida
e volta. Há vários hotéis na cidade e você pode escolher um deles.
Na manhã seguinte estava no Aeroporto Marechal
Rondon. Às 7 horas, o bimotor levantou vôo. Foi curta e agradável a viagem. Ao
descer em Cáceres, um garoto com cara de boliviano ofereceu para carregar a
minha pequena mala. Não era necessário, mas dei força ao menino, que me sorriu
com os dentes mais brancos e belos. Valeu dar-lhe 5 reais em troca daquele
sorriso. Contou-me seu apelido: Cacau, por causa da minha cor.
Indicou-me um hotel de sua amiga, dona
Bega, e nem precisei pegar táxi, porque ficava a umas dez quadras dali.
Ao chegar, uma senhora de porte
aristocrático, elegante e bonita recebeu-me com afetividade. Cumprimentou-me,
deu as boas-vindas, e depois me perguntou: - Vai passar muito tempo aqui?
- Não, apenas uma semana! Venho a
serviço da Universidade Federal de Mato Grosso. Deverei entrevistar algumas
pessoas que trabalharam nas usinas do Rio Abaixo. Conhece alguém?
- Tchô Lulu foi festá¹ em Porto Espiridião,
mas volta amanhã. Foi fogueteiro da Usina das Flechas.
- Mora perto?
- Ali mesmo, nem vai cansar! É homem
velho e bom! Vive contando histórias da Usina. Levou-me até o quarto. Bem ventilado e com
duas camas de solteiro. Lençóis limpos, travesseiros macios, moringa com um
copo d’água, algumas gravuras de animais nas paredes.
Deixou-me a sós. Tirei as roupas e pendurei
nos cabides. Troquei de roupa e vesti uma bermuda e blusinha fresca. O calor
era grande.
Deitei. Fiquei a pensar o que me
contaria o velho empregado da usina que foi de vovô. Confesso que fiquei
apreensiva, porque mamãe contava-nos sobre a vida dos empregados das Flechas. Não
era fácil! Sofriam muito. Bem, melhor aguardar a hora. Tirei uma soneca e
acordei com o tilintar do telefone, quando dona Sara me chamava para almoçar.
- Oba! Cachara? Gosto muito deste
peixe.
- Sim, é cachara feita pela Zelinda,
que é uma cozinheira de primeira! Tem cambitos², mas suas mãos são especiais e
não há quem resista ao sabor de seus quitutes³. Aliás, nem sei se é
preconceito, mas quando escolho minhas empregadas olho nas pernas e se forem
grossas, não contrato. Vovó me dizia que mulher de perna grossa é preguiçosa!
Principalmente os tornozelos. Rsrsrsrsrsrs
Sem dúvida, a cachara foi aprovada.
Repeti duas vezes. Não comi mais porque o estômago não suportaria mais.
À tarde sai a passear pelas ruas da
cidade. Como Cáceres é bonita! Revivi a sua história. Criada 59 anos depois de
Cuiabá, fundada em 1719, o 4º governador de Mato Grosso – Luiz de Albuquerque
de Melo Pereira em 1778 criou Cáceres. Era uma aldeia em torno da igreja São
Luiz de França. Quase todas as cidades se formavam ao redor das igrejas. Era
comum! Uma das famílias mais ricas naquele período foram os donos da Jacobina,
onde se refugiou Sabino Vieira, da Conjuração Baiana. Só em 1847 passou à
categoria de cidade, com o nome de S. Luiz de Cáceres, mas em 1938 tornou-se simplesmente Cáceres.
Às margens do rio Paraguai, daqui saíam
lanchas levando poaia (ipecacuanha), produtos da Jacobina (açúcar, rapaduras,
melados e produtos agro-pecuários), charqueadas de Descalvado e, no retorno,
chegavam os importados da Europa: sedas, chapéus, leques, perfumes, cristais,
porcelanas, chocolates e latas de biscoitos finos.
Veio-me à cabeça a passagem da Coluna
Prestes e o medo sofrido pelo povo, em 1927. O presidente Roosevelt e marechal
Rondon, em 1950, aqui estiveram, porém foi uma visita em que trouxeram
benefícios à cidade, tanto que o nome da ponte é Marechal Rondon.
Mais tarde retiraram do município novas
cidades, como Mirassol d’Oeste, Salto do Céu, Jauru, Porto Espiridião, São José
de Quatro Marcos, Araputanga e Reserva do Cabaçal. Assim mesmo Cáceres ainda é
grande e faz fronteira com a Bolívia, onde estive e comprei bons perfumes
franceses.
Cáceres conserva os encantos da bela
S. Luiz de Cáceres! Há restaurantes de luxo, hotéis quatro estrelas, oferece
uma cozinha mato-grossense perfeita e sua gente é mesclada com bugres e bolivianos.
São muito hospitaleiros.
O dia amanheceu chuvoso, daí dona Bega
mandar Danilo, seu choffeur, levar-me a casa do Sr. Lulu.
Era uma casinha de adobe, cercada de
latinhas com flores, babosa, espada de São Jorge, arruda e um lindo pé de
jasmim carregado de flores.
Dona Bega já o tinha avisado da entrevista
e esperava-me sentado no batente da porta, ao lado de três meninos.
- Bom dia, dona... Como chama? É gente de
quem? (4)
- O senhor não conhece. Morei no Rio
de Janeiro e recentemente voltei a Cuiabá. (Mamãe me aconselhara a não dizer o
nome da nossa família, ainda mais ao falar com ex-empregados da Usina das
Flechas, onde foram muito maltratados).
- Que qué esse (5), dona? De que será
que um homem simples que nem eu, trabalhador de usina tenha assunto para dar entrevista
pra senhora? Pode gorá! (6)
- Que nada, txô Lulu, desejo saber o que o senhor
viveu naquela usina. Horas felizes e outras nem tanto.
- Horas felizes? Lá uma vez (7), como era jovem, a
Miguelina me oferecia bons momentos. Acabei casando com ela, e meu deu 12
filhos. Mas os donos da Usina, dona, chinchavam (8) a gente por qualquer
besteira. Isso quando não punham pelo cangote (9) no tronco ou pelas mãos. Nego
ficava preso no meio do terreiro, ao sol, sem ter direito a uma caneca d’água!
Bicho mau era Barará! Vôte! (10) Mas tinha um pior que ele! Era seu Nilo, fio
mais véio do coronel! Nunca dava trela a nenhum trabalhador. Era casqueiro (11)
demais! Era homem de rompância (12) até com a mulher! Coitada! Homem seboso!
(13) Sem compostura! (14) Eu era fogueteiro. Tinha que manter o fogo aceso. Na
época das água era difícil, porque as madeiras estavam molhadas, mas tinha que
fazer o fogo! Fui safo (15) e com os fios fiz um barraco para guardar as
madeiras e tenteei (16) as audácias daquele home! Sabe, dona Martha, as coisas
ruins a gente têm de botar na voadeira (17) que vai e não volta mais! O hôme
que falei para senhora ficou sozinho, abandonado pela muié. Como ela ia
aguentá? Era professora, muié de brio na cara! A minha primeira muié, Miguelina morreu no
último parto, do menino Abadias, que já é avô! Casei com Emília e tive mais
três. Quatro já faleceram. Hoje tenho oito da Miguelina e os três que brincam
aqui no terreiro, Venham aqui Joilson, Jair e Garrincha! Venham conhecer a
jornalista dona Marta!
Eram três guris de 14, 11 e 9 anos, calculei. Emília
apareceu a sorrir. Era uma mulher de seus 30 anos, bugra de cabelos pretos
lustrosos.
- Taí, dona! Não tenho mais nada a falar das Flechas.
(Benzeu-se). Vai com Deus e a Virgem!
(18). Antes, porém me ofereceu um copinho de guaraná. Emília ralou na hora.
Muito gostoso!
Dicionário do falar cuiabano
1. Festá = participar
de uma festa.
2. Cambitos = perna
fininha.
3. Quitutes =
comidas.
4. É gente de quem?
= Vem de qual família?
5. Que qué esse? = O
que é isto?
6. Pode gorá! = Pode
falhar!
7. Lá uma vez = Uma
vez ou outra.
8. Chinchavam = Beliscavam, cutucavam, davam
cascudos.
9. Cangote =
Pescoço.
10. Vôte = Deus me
livre!
11. Casqueiro =
Muito exigente, fora do normal.
12. Rompância =
Arrogante, metido a valente.
13. Homem seboso =
Antipático.
14. Sem compostura =
Grosseiro e agressivo.
15. Fui safo = Fui
esperto.
16. Tenteei =
Equilibrei o mais que possível.
17. Voadeira = Barca
a motor.
18. Vá com Deus e a
Virgem Maria = Ao despedir-se de alguém que trouxe más lembranças.