quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O FOGO APAGOU

Carlos, alfacinha, foi um amor de longos oitos anos. O homem de meus encancantos dos meus trinta era de baixa estatura, gordinho, rosto redondo como a lua, humor idêntico as quatro fases lunares: cheia. minguante, nova e crescente. Na cheia, levava-me ao teatro ou cinema, presenteava-me especialmente com belas camisolas e vestidos, elogiava-me. Minguante: viajava para a região dos lagos onde tinha um sítio e passeava com seus barcos. Nova: aparecia em geral de bermudas e convidava-me para ir à Prainha ou Barra da Tijuca. Crescente: meu Deus, o potuga tornava-se um pequeno leão, rugia, lambia e amava-me como um louco animal.
Era sexta-feira. Fui à igreja de São Paulo Apóstolo, pois apreciava olhar os olhos contritos das devotas em oração e depois o acender das velas. Não queria, mas vi a mulher dele a chorar, rezar e demorar a riscar os palitos de fósforos para acender suas velas. Impressionou-me notar suas olheiras roxas e profundas. Sabia quem era, mas ela não me conhecia. Petrificou-me sua fisionomia de sofredora. Aproximei-me e a ouvi dizer a uma amiga: - Não liga mais para mim e nem elogia meus vestidos novos! Será que tem outra? Ando desconfiada.
À tarde, veio me ver. Ria à toa, risadas sem sentido. Às vezes suspirava. Ao passar pelas igrejas benzia-se e passei a notar que seus olhos entristeciam.
Sei lá! Após ver Neusa tão desolada, piedosa a balbuciar seu rosário de joelhos diante da Santa, algo se quebrou dentro de mim. Empurrei-o ao tentar me abraçar. Assustou-se. - Que é isso?
- Não, por favor, dedique-se a ela! Não quero mais seu amor!
- Estás louca, mulher?
- Nunca estive mais lúcida em minha vida. Por favor! È decisivo, afaste-se de mim!
- Podes me dizer ao menos qual a razão?
- Sim, sonhei com Nossa Senhora da Conceição e ela me ordenou para me afastar de você. Vá, cuide de sua mulher! Ela casou por amor! Não te amo!
Carlos era pegajoso e demorou a compreender a minha decisão. Quis brigar. Calei-me. Talvez me desse um tapa, tal a cara de ódio, mas finalmente baixou a cabeça, entrou no carro e vazou.
Viajei em seguida para Cuiabá. Hospedei-me com a querida cunhada Sueli e mano Nilo, e vivia encantada com as gracinhas dos sobrinhos Thânia, Wânia, Luthero e Rogério. Bons tempos! Jamais comi pratos tão saborosos como os feitos pela cunhada. Ajudava-a, se não tivesse empregada, a lavar pratos, talheres e panelas.
Era uma beleza, verdadeiro paraíso aquele imenso quintal de mangueiras, bocaiuveiras, cajueiros, goiabeiras e muito mais. Na piscina de águas azuis mergulhava, ao lado do grupo de meninas e meninos, amigos dos sobrinhos. Era um céu!
Acomodava-me junto à felicidade dos meus parentes.
Soube do concurso a se realizar para fiscais da Fazenda. Insrevi-me. No primeiro dia de aula, olhei e ele me olhou, e começava um novo romance. Que pena! Homem inteligente, jornalista, advogado, realizado na vida. Casado!
Que terra mais variada! Afinal, não sou mulher bonita, mas dizem que sou interessante. As mangas são saborosas, mas a gente chupa o caldo e joga o caroço fora. Quem sou? Uma mulher desquitada a mexer na relação de homens casados? Não, eu não queria isso.
Tenho amigos e estes me aconselham a sair dessa. Cai fora! Logo com o Vagareza? Era seu apelido, por andar muito devagar.
Passa-me pela lembrança o conselho do primo Ronaldo: - Martha, ele é conhecido por ser garanhão, mas não seja mais uma na sua vida, por favor! Você pode até se unir a um viúvo. Não a ele!
Jejé amigo falou assim: - Suma da vista dele! É porcaria! Não vá se sujar!
Tive vontade de voltar para o Rio.
Voltei. Fui à praia, fiquei pretinha e à noite ia escutar músicas clássicas no Cecília Meirelles.
Mas... Novamente me vi frente a frente com Carlos.
Pensei, se estvesse no campo, certamente seria mordida por uma cobra venennosa. Uma coral!
Que é que pode fazer uma mulher sozinha no mundo? Vivia em perigo!
Bem, hoje são passados muitos anos e estou sozinha. Que bom! O fogo apagou! Sou avó e bisa querida! Sou feliz!  

Vento Sul

Noite de ventos uivantes. Chadó,meu cachorro, uiva também. Das palmeiras do jardim como cabeleiras despenteadas caem alguns galhos. O perfume que me chega às narinas é de violetas. Laura, moradora de cima coleciona violetas. Vem de lá. Trata-as como filhas e até sussura segredos a elas. Do prédio da direita, em construção, as ripas de madeira estemelicam. À direita, o casarão cercado de margaridas mantém-se quieto, como se estivesse em meditação. Curioso!
Lembro do tempo de meninota, quando inventava histórias de fantasmas para meu irmão Hélio Mário. Seus olhos arregalavam com pavor. Até que Dely, a mana mais velha, ouviu e proibiu-me de ficar criando assombrações. Desse jeito, ele nem dormirá com medo! Invente outras, mas não de monstros! Calei-me!
Tempo voa, hoje, em Jurerê, a sós com o cachorro,livros e notebook, o cheiro de flores embrulha-me o estômago.
Respiro fundo, amedronta-me ter mais uma crise de asma. Numa delas, morri por quinze minutos. Não fosse as massagens de Dr. Sebastião e o balão de oxigênio que me enfiaram na garganta, e já era!
Pouso as mãos sobre a mesa de madeira. Fecho os olhos. Tantos cheiros que se misturam... Terá jacas por aqui? Nunca percebi. Mas é o perfume de jaca que me veio forte e meloso.
Repasso cenas de outrora. Desta vez na Alcan, onde trabalhei durante três anos.
Lana, crioca abusada, às vezes reclamava que a sala cheirava a menstruação. Quem está de paquete por aqui? Jussara, tímida, sempre de olhos baixos, logo respondia: - Eu não! Por favor! Aline, Babita, Déa e as outras mandavam Lana calar a boca. Ela sorria gostoso. Posso rever seu sorriso de dentes amarelos. Fumava demais.
Sem querer mordo a língua. Tenho medo. Uma sombra invade a sala. Que é isso? Um minotauro? Vôôôtttteeeeee!
Fecho os olhos de novo, o calor das mãos de um homem desliza sobre meu corpo. 
Imobilizada pelo mêdo, o toque fez com que um desejo selvagem me invadisse.Estou apavorada.Quem é este homem? É loucura!
As histórias que inventava para meu irmão repasam-me pela cabeça.
Abro os olhos. Vejo a minha frente a expressão assustada de Chadó, que já não uiva e nem late.Lambe-me a mão.
O telefone toca.
- Alô!
- Como você está, mãe? Que vento Sul mais desesperado! Pensei em você! Está com medo?
- Não,filha! Só assustada! Desconhecia este vento até morar aqui. Bem que você me contou que teria pavor. Veio, deitou e rolou! Não sei para que lado vai...
- Dona Florinda atravessava a rua e repentinamente o vento a derrubou. É magrinha! Estava com seu guarda-chuva que virou no avesso.
- A luz apagou! Tá um brejo! Chadó e eu temos medo!
- Não esquente a cabeça! O vento Sul não vai te machucar! Ele é até meio palhaço, porque levanta as saias das mulheres e todas seguram as barras das saias com força. O vento Sul, creio, vem do Chile! Agita tudo, as árvores, as saias das mulheres, leva a sujeira das ruas, carrega um monte de areia, derruba árvores, casas de madeiras, uiva como os lobos. De repente vai embora. Mãe, deite e durma! Amanhã acordará feliz!
Desliga.
Abraço Chadó. Beijo-lhe carinhosamente. Visto a camisola e recolho-me à cama. Demorei, mas dormi!
É coisa do Sul!

  









FÚRIA TEM FARO


Quem me contou este caso foi a Jenny. É a história de um homem que se hospedou na casa de um conterrâneo italiano onde há
um cão de nome Fúria.
Heliakin veio da Itália, mais precisamente da Calábria. Recomendado por parentes calabreses, foi bem recebido na família de
dona Guilhermina e seu Patrício Roncalli. Ela é acreana e o marido calabrês. Vivem calmamente, com um casal de filhos e o
cachorro. A raça não importa, mas Fúria tem um faro surpreendente e se não for com o cheiro de alguém, a pessoa está
perdida.
Licia, filha mais velha, tem 21 anos. Carlos, 14. Gostam de brincar com Fúria, mas é Patrício quem cuida cachorro,
encontrado em uma das ruas de Curitiba.
Fúria obedece seu Patrício; respeita e baixa a cabeça à dona Guilhermina;é leal com a família Roncalli. Lealdade forte,
total, canina mesmo.
Na hora das novelas, que a família gosta, ele põe a fuça entre os joelhos do seu dono, que lhe faz cafuné. Depois se deita
aos pés de Guilhermina. Lambe os pés dos dois. Assim é amado por todos.
Porém, um dia, invadiu a sala rangendo os dentes.
- Que foi, Fúria? - perguntou a mulher.
Au...au...au... Bravejou.
Heliakin acabou de sair do banheiro. Fúria, furioso, avançou contra ele.
Apavorado, gritou: - Pelo amor de Deus, o que tem contra mim este cão?
- Que horror! Tem raiva!
Guilhermina apressou-se a colocá-lo no quintal. Passados alguns minutos, foi ver como estava. Fúria estava normal. Aceitou
pacificamente o seu carinho. Sacudiu o rabo como sempre fazia. Contudo, assim que Heliakin botou a cara na porta, passou a
rosnar e mostrar os dentes.
- Que foi que você fez contra o nosso cachorro?
- Juro por Deus! Nada, nadica de nada!
Os meninos apareceram e foram alegremente recebidos. Brincalhão, o cão pulava sobre eles.
Na hora em que o calabrês quis passar, quase foi mordido. Voltou atrás e trancou-se na sala com seu Patrício.
Quem poderia explicar a atutude de Fúria? Estaria a confundir Heliakin com o padeiro, de quem não gostava? Afinal de
contas, Heliaki era um homem bonito, barba bem feita, bem vestido. Mas nada dele se aproximar do hóspede.
Prenderam Fúria numa coleira, no quintal, debaixo do pé de caqui.
Heliakin foi para a rua sem susto.
Patrício começou a temer da presença do conterrâneo em sua casa. Afinal, porque ele não implicava com o restante da
família?
Foi chamado um veterinário e este constatou que nada de errado havia com o cachorro.
- Sabe, meu velho, vovó Tereza sempre me dizia que os cães tèm um sexto sentido. Instinto aguçado para algumas coisas...
Será que o tal do Heliakin é gente boa? Você o conhece?
- Não, mas o Figuri, meu primo, recomendou-me como uma pessoa decente e honesta.
- Sei não!
Na hora do jantar, Letícia olhava para o hóspede com total desonfiança.
Na cama, marido e mulherer passaram a discutir.
- Quero que dê um jeito de mandar esse sujeitinho embora.
- Sei não! Afinal das contas o Figuri nos hospedou tão gentilmente no verão passado!
- Pois não quero mais ele aqui!
À noite, quando o hóspede chegou, Fúria parecia enlouquecido.
- Está vendo? O que é isso? Hein?
Furia quase arrebentou a coleira para avançar contra Heliakin.
A sós, na biblioteca, o marido propôs à mulher livrar-se do cachorro.
- Essa não. Há quanto anos Fúria faz parte da nossa família? Temos que despedir o seu hópsede! Fúria nos avisa de algo
errado com esse sujeitinho.
Não deu outra. Após uma semana, um telefonema anônimo, avisou Patrício que seu hóspede era vigarista conhecido na Itália.
Pertence a um grupo de traficantes!
Quando chegou, foi cercado por todos: pai, mãe e filhos.
- Por favor, pedimos para mudar-se daqui ainda hoje. Sabemos de suas atividades contra a lei!
- Que é isso? Sou homem de caráter, honesto, amigo do seu primo Figuri!
Fúria arrebentou a coleira, avançou contra ele e mordeu-lhe a orelha.
Nem pode entrar e os quatro trouxeram-lhe seus pertences.
- Ali na esquina tem uma pensão! - visou Letícia.
- Às vezes não se sabe quem acolhemos em casa, marido! Que Deus me perdoe! Mas Fúria tem toda razão!
Patrício baixou a cabeça e abatido deitou no sofá.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

QUINTA-FEIRA DE JASMINS


Sei lá! Não sei a razão de ter sonhado com meu marido, aliado ex, o pai de meus 3 filhos: Marinari Caboaraci (nome escolhido por ele), Marcia Cloraci e Mara Cloraci (nomes que escolhi). Cloraci é uma pessoa muito bonita, inteligente e simpática, cuiabana, filha de dona Araci e Dr. Clóvis, que compôs Cloraci. Acredito que minha filhas não gostam do nome que lhes dei, mas é tarde!

Hoje, 5ª feira, a manhã está enfarruscada, com jeito de chuvas e trovoadas. Acordei meio tonta e até julguei ser madrugada, mas já era 7h.  Não vou a Carianos hoje, deixarei para sábado. Olhei pela janela e vi pessoas passando com os guarda chuvas abertos. Além dessas pessoas, enxergo telhados, paredes e o verde com vários tons que se acha na montanha distante. Ao olhar para cima, vejo apenas a cor cinza. Céu triste!

Sou aposentada e não estou atrasada para nada. Não tenho compromissos, mas falei à filha Marcia que visitaria Marinara, filha do inesquecível Marinari. Não vou!

Ficarei no apartamento do Dudu, meu sobrinho, que me alugou por um preço camarada este quadrado. Brevemente chegarão suas filhas Nádia e Giuliana, que darão um novo ar de juventude ao espaço onde vivo. Que bom! Amo minhas sobrinhas-netas, filhas da maravilhosa                      . Como é especial! Devo-lhe alguns favores que jamais pagarei. Sempre oro pela sua felicidade, hoje ao lado do Messias, um bom homem. Parecem estar apaixonados. Desejo-lhes uma vida de surpresas de amor!

Deu-me vontade de dar uma descida e com passos miudinhos desci os dois lances de escada. Na caixa nenhuma correspondência, apenas algumas propagandas.

Na rua, aspirei o perfume de rosas, que meu vizinho da frente tão dedicadamente coleciona. Rosas vermelhas, rosas, brancas, amarelas (minha preferida) e até uma azul. Meu irmão Íbsen costumava fazer enxertos e os resultados eram magníficos. Saudade do mano que um dia, na infância, chamava de Chibi. Nos meus 3 anos, dormia depois do almoço e ao acordar, apenas gritava Bi...bi...bi... E lá vinha o mano com meu pratinho de banana amassada com mel. Que mano querido! Tinha 11 anos quando nasci. Fui um pouco filha dos meus irmãos Edmundo, Íbsen e Dely. Tanto me paparicavam como me davam palmadas em horas que se cansavam das minhas chatices.

Ainda hoje, aos 73 anos, olho para o Edmundo, casado com Éd, pais dos sobrinhos Edmundo Júnior, Eduardo e Ireniza, e o vejo como um paizão. O pai da minha infância, pois papai foi embora e mamãe nos criou. A figura do pai faz falta. Via meus amigos com pai e mãe, e sofria por não ter pai. Edmundo supria-me este vazio!  Foi quem me deu o 1º álbum, onde minhas colegas copiavam poesias e desejavam-me felicidades. A capa era de camurça. Lindo! Foi ele que me deu a 1ª maçã, que desconhecia. Mato Grosso não é terra de maçãs. Também me deu uma caixa de passas, que saboreei uma a uma. Que gostosura! Trouxe-me do Rio de Janeiro uma bela garrafa térmica e fiquei encantada! João Pedro também quis levá-la à escola e não é que quebrou? Não foi proposital, mas o maninho era desajeitado. Pior do que eu! Gosto dele! Que quebre tudo! Eu amo meu irmãozinho, mais velho que eu apenas 3 anos, mas éramos unidos e ríamos de quase tudo. Mamãe não gostava das nossas risadinhas. Tem Mal de Alzheimer e fico com a alma esmagada quando percebo que esqueceu quase todo o nosso passado! Alemão safado! Pior que Hitler!

Caminhei umas cinco quadras e vi uma casinha que gostaria que fosse minha. Inspirei fundo e o perfume de jasmim tomou-me por inteira. Não sabia que encontraria jasmins nesta 5ª feira, primeiro dia de dezembro. O cheiro entrou em minha alma. São doces como aqueles jasmins que tinha em minha casa cuiabana. Abençoada casa! Que todos que moram aqui sejam felizes, como também era em Cuiabá!

Sigo à frente e novamente o cheiro de jasmim invade-me. Para por um instante. Como o cheiro não sai de mim? Ora! Há outro jasmineiro no jardim da casinha verde, de madeira. Uma jovem sai toda perfumada, percebe que olho para as flores e, delicadamente, colhe alguns ramos e oferece-me. Obrigada! Adoro jasmins!

- Nem precisa dizer! Seus olhos falam! Quer uma mudinha?

- Não, moro em apartamento, mas se futuramente morar numa casa, prometo, virei aqui e pedirei uma mudinha.

- Fique à vontade! Quer entrar? Mamãe mora sozinha. Vou para a faculdade. Estudo no CESUSC. Faço Direito e se Deus me ajudar ainda serei Promotora! Até logo!

Recomeço a caminhada com passos mais apressados. Logo as águas vão rolar! Lembro da marchinha carnavalesca: “As águas vão rolar! Garrafa cheia eu não quero ver sobrar! Eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha, e bebo até me afogar! Deixe a água rolar!/ Se a polícia por isso me prender, e na última hora me soltar, eu pego a saca, saca, saca-rolha, e bebo até me afogar!”

Cai a chuva! Corro para o apartamento e faço uma banana da terra assada, que como com manteiga, canela e açúcar!

Saudades de um tempo que se foi!


CULTO DOMÉSTICO



Em nossa casa, após fechar a livraria, mamãe cercava-se dos filhos e começava o Culto Doméstico.  A Bíblia era volumosa e era colocada sobre a mesa. Ou mamãe ou Dely liam trechos do Novo Testamento, após o que era explicado aos menores cada parábola. Hélio Mário estava com 4, eu com 7 e Joãozinho (como chamávamos o mano João Pedro) tinha 10 anos.
Em atitude de recolhimento natural ao se tratar das palavras de Deus, todos prestavam atenção às palavras ditas pelo dirigente. Uma parábola que me intrigava era a da figueira sem frutos. “Cedo, de manhã, ao voltar para a cidade, Jesus teve fome; e, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e, não tendo achado senão folhas, disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E a figueira imediatamente secou. Vendo isto os discípulos, admiraram-se e exclamaram: Como secou depressa a figueira! Jesus, porém, lhes respondeu: Em verdade vos digo que se tiverdes fé e não duvidardes, não somente farei o que foi feito à figueira, mas até mesmo se a este monte disserdes: Ergue-te e lança-te no mar, tal sucederá; e tudo quanto pedirdes em oração, crendo, recebereis. (Matheus: 21: 18 a 22)
Foi-nos explicado que a figueira secou por não dar frutos e que cada um de nós teria que frutificar, ou seja, produzir alguma coisa e não ficar inerte na vida. Também a fé em Jesus, filho de Deus, teria que ser real, pois tudo teríamos,  se crêssemos no seu poder.
Dely sugeriu que cantássemos a música “Crer e observar!” Até hoje a tenho em minha mente, em especial o trecho “o fiel obedece ao que Cristo mandar!” A madrasta da mamãe, vovó Aracy Santiago de Lima, gostava muito dessa música e parece que neste momento a revejo a cantá-lo, com sua voz afinada.
No momento da oração era algo terrível para nós, os pequenos, porque não sabíamos o que deveríamos pedir. Joãozinho, certa vez passou o dia na casa do tio Olavo, e viu a matança de um porco. Sensível como era, apavorou-se, e voltou para nossa casa. Então, em sua oração, naquele dia, João Pedro pediu: “Jesus, perdoe tio Olavo, que matou com aquele facão afiado o porquinho que tanto gritou de sofrimento! Perdoe o tio, Senhor!”
Nós começamos a rir e mamãe nos repreendeu, porque ele estava dizendo o que afligia seu coração. Passou-nos um ‘sabão’ e depois nos colocou de castigo, um em cada canto do quarto por alguns minutos, a orar o Pai Nosso. Nilo e eu, porque o mano Hélio era uma criança.
 Recordo-me das belas orações da mamãe. De pé, olhos fechados, mão direita espalmada sobre a Bíblia agradecia a Deus pelos negócios feitos naquele dia, pela direção dada por Deus na educação dos filhos, pela comida que tínhamos à mesa, diariamente, e também suplicava nominalmente por algumas pessoas que estavam doentes ou tinham outros problemas.  Ao final do culto, orávamos o “Pai Nosso”.
Mal terminava o culto, corríamos para a Rua 13 de Junho, onde já nos esperavam Lúcia, Pelágio, Elione, Marley, Ivany, Miguel, Carlitos e outros amigos. Às vezes, corria para a casa da dona Joanita e João Francisco de Arruda, também na 13 de junho, onde brincava à vontade, pulando de saco em saco, com Aroldo, Maria Helena. Fernando e (ora, esqueci o nome do outro irmão.)  Perdão!  Era um armazém de secos e molhados do Sr. Urbano de Arruda, primo de papai. Sinto muito, mas em uma das vezes foi tamanha a bagunça que acabei por quebrar um filtro. Aroldo me contou que eles tomaram uma surra por minha causa. Não voltei mais lá! Tinha vergonha.
Do culto doméstico ficaram em mim os ensinamentos da nossa mãe, que além de ser tão bela sabia falar de maneira que compreendêssemos. Até hoje, nas horas de silêncio, oro e parece que mamãe também ora comigo.
João Pedro está doente, mas sempre repete o versículo do Salmo 23: 1: “O Senhor é meu Pastor; nada me faltará!”
Sim, tenho certeza, nada nos faltará!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

EM CÁCERES


Terezinha de Arruda, a quem o inesquecível amigo arquiteto Júlio Delamônica Freire chamava de ‘Madre Thereze’, por ter sido freira no passado, foi uma das melhores chefes que tive em minha vida. Amiga, conselheira, amável, pura, sincera e uma porção dos melhores adjetivos, certo dia me chamou e disse: - Marta, você irá a Cáceres, pois lá moram vários trabalhadores das usinas de açúcar do Rio Abaixo.


- Ótimo! Tenho vontade de conhecer essa cidade situada às margens do rio Paraguai. Quando irei?


- Amanhã. Aqui tem as passagens de ida e volta. Há vários hotéis na cidade e você pode escolher um deles.

Na manhã seguinte estava no Aeroporto Marechal Rondon. Às 7 horas, o bimotor levantou vôo. Foi curta e agradável a viagem. Ao descer em Cáceres, um garoto com cara de boliviano ofereceu para carregar a minha pequena mala. Não era necessário, mas dei força ao menino, que me sorriu com os dentes mais brancos e belos.  Valeu dar-lhe 5 reais em troca daquele sorriso. Contou-me seu apelido: Cacau, por causa da minha cor.

Indicou-me um hotel de sua amiga, dona Bega, e nem precisei pegar táxi, porque ficava a umas dez quadras dali.

Ao chegar, uma senhora de porte aristocrático, elegante e bonita recebeu-me com afetividade. Cumprimentou-me, deu as boas-vindas, e depois me perguntou:  - Vai passar muito tempo aqui?

- Não, apenas uma semana! Venho a serviço da Universidade Federal de Mato Grosso. Deverei entrevistar algumas pessoas que trabalharam nas usinas do Rio Abaixo. Conhece alguém?

- Tchô Lulu foi festá¹ em Porto Espiridião, mas volta amanhã. Foi fogueteiro da Usina das Flechas.

- Mora perto?

- Ali mesmo, nem vai cansar! É homem velho e bom! Vive contando histórias da Usina.    Levou-me até o quarto. Bem ventilado e com duas camas de solteiro. Lençóis limpos, travesseiros macios, moringa com um copo d’água, algumas gravuras de animais nas paredes.

Deixou-me a sós. Tirei as roupas e pendurei nos cabides. Troquei de roupa e vesti uma bermuda e blusinha fresca. O calor era grande.

Deitei. Fiquei a pensar o que me contaria o velho empregado da usina que foi de vovô. Confesso que fiquei apreensiva, porque mamãe contava-nos sobre a vida dos empregados das Flechas. Não era fácil! Sofriam muito. Bem, melhor aguardar a hora. Tirei uma soneca e acordei com o tilintar do telefone, quando dona Sara me chamava para almoçar.

- Oba! Cachara? Gosto muito deste peixe.

- Sim, é cachara feita pela Zelinda, que é uma cozinheira de primeira! Tem cambitos², mas suas mãos são especiais e não há quem resista ao sabor de seus quitutes³. Aliás, nem sei se é preconceito, mas quando escolho minhas empregadas olho nas pernas e se forem grossas, não contrato. Vovó me dizia que mulher de perna grossa é preguiçosa! Principalmente os tornozelos. Rsrsrsrsrsrs

Sem dúvida, a cachara foi aprovada. Repeti duas vezes. Não comi mais porque o estômago não suportaria mais.

À tarde sai a passear pelas ruas da cidade. Como Cáceres é bonita! Revivi a sua história. Criada 59 anos depois de Cuiabá, fundada em 1719, o 4º governador de Mato Grosso – Luiz de Albuquerque de Melo Pereira em 1778 criou Cáceres. Era uma aldeia em torno da igreja São Luiz de França. Quase todas as cidades se formavam ao redor das igrejas. Era comum! Uma das famílias mais ricas naquele período foram os donos da Jacobina, onde se refugiou Sabino Vieira, da Conjuração Baiana. Só em 1847 passou à categoria de cidade, com o nome de S. Luiz de Cáceres, mas em 1938 tornou-se  simplesmente Cáceres.

Às margens do rio Paraguai, daqui saíam lanchas levando poaia (ipecacuanha), produtos da Jacobina (açúcar, rapaduras, melados e produtos agro-pecuários), charqueadas de Descalvado e, no retorno, chegavam os importados da Europa: sedas, chapéus, leques, perfumes, cristais, porcelanas, chocolates e latas de biscoitos finos.

Veio-me à cabeça a passagem da Coluna Prestes e o medo sofrido pelo povo, em 1927. O presidente Roosevelt e marechal Rondon, em 1950, aqui estiveram, porém foi uma visita em que trouxeram benefícios à cidade, tanto que o nome da ponte é Marechal Rondon.

 Mais tarde retiraram do município novas cidades, como Mirassol d’Oeste, Salto do Céu, Jauru, Porto Espiridião, São José de Quatro Marcos, Araputanga e Reserva do Cabaçal. Assim mesmo Cáceres ainda é grande e faz fronteira com a Bolívia, onde estive e comprei bons perfumes franceses.

Cáceres conserva os encantos da bela S. Luiz de Cáceres! Há restaurantes de luxo, hotéis quatro estrelas, oferece uma cozinha mato-grossense perfeita e sua gente é mesclada com bugres e bolivianos. São muito hospitaleiros.

O dia amanheceu chuvoso, daí dona Bega mandar Danilo, seu choffeur, levar-me a casa do Sr. Lulu.

Era uma casinha de adobe, cercada de latinhas com flores, babosa, espada de São Jorge, arruda e um lindo pé de jasmim carregado de flores.

Dona Bega já o tinha avisado da entrevista e esperava-me sentado no batente da porta, ao lado de três meninos.

 - Bom dia, dona... Como chama? É gente de quem? (4)

- O senhor não conhece. Morei no Rio de Janeiro e recentemente voltei a Cuiabá. (Mamãe me aconselhara a não dizer o nome da nossa família, ainda mais ao falar com ex-empregados da Usina das Flechas, onde foram muito maltratados).

- Que qué esse (5), dona? De que será que um homem simples que nem eu, trabalhador de usina tenha assunto para dar entrevista pra senhora? Pode gorá! (6)

- Que nada, txô Lulu, desejo saber o que o senhor viveu naquela usina. Horas felizes e outras nem tanto.


- Horas felizes? Lá uma vez (7), como era jovem, a Miguelina me oferecia bons momentos. Acabei casando com ela, e meu deu 12 filhos. Mas os donos da Usina, dona, chinchavam (8) a gente por qualquer besteira. Isso quando não punham pelo cangote (9) no tronco ou pelas mãos. Nego ficava preso no meio do terreiro, ao sol, sem ter direito a uma caneca d’água! Bicho mau era Barará! Vôte! (10) Mas tinha um pior que ele! Era seu Nilo, fio mais véio do coronel! Nunca dava trela a nenhum trabalhador. Era casqueiro (11) demais! Era homem de rompância (12) até com a mulher! Coitada! Homem seboso! (13) Sem compostura! (14) Eu era fogueteiro. Tinha que manter o fogo aceso. Na época das água era difícil, porque as madeiras estavam molhadas, mas tinha que fazer o fogo! Fui safo (15) e com os fios fiz um barraco para guardar as madeiras e tenteei (16) as audácias daquele home! Sabe, dona Martha, as coisas ruins a gente têm de botar na voadeira (17) que vai e não volta mais! O hôme que falei para senhora ficou sozinho, abandonado pela muié. Como ela ia aguentá? Era professora, muié de brio na cara!  A minha primeira muié, Miguelina morreu no último parto, do menino Abadias, que já é avô! Casei com Emília e tive mais três. Quatro já faleceram. Hoje tenho oito da Miguelina e os três que brincam aqui no terreiro, Venham aqui Joilson, Jair e Garrincha! Venham conhecer a jornalista dona Marta!


Eram três guris de 14, 11 e 9 anos, calculei. Emília apareceu a sorrir. Era uma mulher de seus 30 anos, bugra de cabelos pretos lustrosos.


- Taí, dona! Não tenho mais nada a falar das Flechas. (Benzeu-se).  Vai com Deus e a Virgem! (18). Antes, porém me ofereceu um copinho de guaraná. Emília ralou na hora. Muito gostoso!


Dicionário do falar cuiabano


1. Festá = participar de uma festa.

2. Cambitos = perna fininha.

3. Quitutes = comidas.

4. É gente de quem? = Vem de qual família?

5. Que qué esse? = O que é isto?

6. Pode gorá! = Pode falhar!

7. Lá uma vez = Uma vez ou outra.

8.  Chinchavam = Beliscavam, cutucavam, davam cascudos.

9. Cangote = Pescoço.

10. Vôte = Deus me livre!

11. Casqueiro = Muito exigente, fora do normal.

12. Rompância = Arrogante, metido a valente.

13. Homem seboso = Antipático.

14. Sem compostura = Grosseiro e agressivo.

15. Fui safo = Fui esperto.

16. Tenteei = Equilibrei o mais que possível.

17. Voadeira = Barca a motor.

18. Vá com Deus e a Virgem Maria = Ao despedir-se de alguém que trouxe más lembranças.