1944. Tinha
9 anos!
1944. Nossos pais estão separados. Vamos mudar do casarão da rua Barão
de Melgaço para pequena casa na mesma rua.
Os quartos são grandes, o banheiro é melhor, mas onde estão nossas
árvores, nosso jardim, nossas hortas, nossos passarinhos? Aqui – vejo um pé de
romã, uma goiabeira e algumas roseiras tristes! Nada mais!
Viemos morar em frente à residência dos governadores. Não poderia ser
pior! Uma amiga da Dely contou-lhe que uma de nossas primas declarou não ser
parente dela. A mana deu de ombros e respondeu que não gostava de intrigas. Por
favor!
Gabriel César Neves, nosso vizinho, era um belo garoto de olhos
grandes e gostava de cantar. Como cantava! Ficava a escutar suas lindas
canções! Era filho da saudosa dona Celcita e seu Tinô. Este era irmão do Bugre,
dono do bar do Jardim Alencastro. Martha
subia na goiabeira para olhar o guri. Que belo! – dizia!
Essa história de ser crente acabou para mim quando vi uma senhora que
nunca saía da igreja, crente até a alma... A história começou com um convite
que ela fez à mamãe para eu ir passar alguns dias em seu sítio da Bandeira.
Fui a cavalo! Viajei na garupa do seu Chico, pai dela. Era preto o
cavalinho! Ele gritava: - Upa, upa, upa Breque! (era o nome do cavalo). E o
cavalo corria!
Perdia-a olhar a miríade de verdes: alface, garrafa, bandeira do
Brasil, verde... verde... verde... As
árvores baixas e tortas do cerrado. Quanta beleza. Que céu mais belo!
Paramos na casa de uma comadre dela, que era pobrezinha, mas nos
ofereceu uma carne com arroz muito gostosa. Comi e me lambi! O casal era bonito
e tinha cerca de oito filhos, três moças e cinco guris. Que lindos!
Agradecemos e seguimos adiante. Poc...poc...poc... Eita cavalinho bom!
Chegamos ao sítio do Bandeira. Tudo era muito bonito. A casa ficava à
beira de um riacho cujas águas corriam quietinhas, brancas e repletas de
lambaris. Pus meus pés na água e os lambaris me mordiscaram. Achei graça! Não
doeu, só fazia cócegas.
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Do que mais gostei foi do voo das jurutis. Seu Chico devia ter seus
sessenta anos e era muito paciente. Fez um cigarro de palha e começou a
pitar. Observou que estava enamorado das aves e começou a me explicar: Essa é
a juruti-pupu! Vulgarmente chamada de pu-pu! São pássaros esbeltos, delgados,
finos, magros e cobertos de plumagem. Gosto muito deles!
Jogou a fumaça de seu cigarrinho para longe!... Pareceu-me lembrar
de alguma coisa, mas nada me disse. Continuou: deve medir aproximadamente trinta
centímetros e pesa muito pouco! A plumagem é marrom, com peito claro, cabeça
cinzenta com alguns reflexos metálicos na nuca e alto dorso. Possui ainda,
uma coloração azulada ao redor dos olhos. É linda! Mas é
arisca como era Julita, bela morena que conheci nesta bandas! Saudades dela!
A juriti é tão arisca! Voa! Esconde-se! Só percebemos sua presença pelo seu
gorjeio melancólico e repetitivo: “pu...puuuuu”. Tão gostoso de ouvir! Tão
arisca como foi a minha morena Julita!
Come grãos e vegetais! É rápida e em um movimento único vira as
folhas mortas para descobrir sementes e frutos caídos das árvores! Vou lhe mostrar seu vinho feito de
gravetos, sem forro. Põe os ovos e o ninho é tão ralo que os ovos podem cair
no chão. Vivem nas matas e onde houver belas árvores. Vivem aos pares! Veja
lá seus passinhos miúdos à cata de grãos! Nunca saltita! Mas boceja e gosta
de tomar banho. Engraçado o macho ‘gala’ a fêmea e em seguida ela ‘gala’ o
macho. Ficam nervosos nessa hora!
De repente, seu Chico parou de fumar e contrariado escutou a filha a
brigar com Nega, sua neta mais velha. Ela ralhava com a mocinha e depois
pegou um chinelo e começou a bater-lhe.
Nega caiu no chão... Seu Chico foi até a cozinha e tomou o chinelo
da mão de sua filha. “Calma! Tenha Calma! Bater não resolve! Você precisa
tratar do seu nervosismo. O que foi que Nega fez?”
- Ora, estava flertando com o rapaz da chácara vizinha! Uma criança
e já quer namorar? Tem só treze anos! Que menina danada! Eu bato mesmo!
Nega soluçava muito e o avô a pegou no colo. “Quietinha, minha neta!
Ainda é cedo para namorar! Logo logo logo vai chegar a hora de ter o seu
amado! Vovô vai gostar de conversar com ele! Venha! Vamos ver os jurutis!
Joãozinho está doidinho por eles!”
Nega não conseguia parar de chorar! Não olhei mais para a amiga de
mamãe, que era crente e burra!
Saí a caminhar pelos caminhos! Mas por onde seguia o soluço de Nega
me perseguia. Ficou gravado em mim seu soluço!
Passei por um belo buritizal! A lua brotava lá atrás da serra!
Seu Chico me chamou par tomar sopa. Muito saborosa! Depois me mostrou
o quarto e a rede onde deveria dormir. Deitei e de tão cansado peguei no
sono!
De madrugada, senti que havia alguém perto de mim. Era Dirceu, irmão
de Nega, adolescente. Deitou comigo na rede. Quietinho, empurrou algo quente
em minhas pernas. Abraçou-me. Beijou-me. Algo quente jorrou na minha cocha!
Pede-me mais um pouco, mas imploro que saia dali por causa de dona Abigail.
Vai! Ela te bate! Saiu corendo. Tinha medo da mãe!
Passei uma semana no Bandeira. Gostava de sair sozinho. Era um campo
sem fim! Tinha poucas árvores! Achei um ninho de ovos azuis! No pé de
coroa-de-frade! Quanta felicidade passear na imensidão! Os pássaros gorjeavam
muito e eu cantava! Dirceu vinha me ver de madrugada! Era rápido! Menino
bonito! Felizmente fomos e voltamos sem nenhum problema!
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Excelente a crônica do pintor João Pedro de Arruda, irmão da jornalista Martha de Arruda.
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