Carlos, alfacinha, foi um amor de longos oitos anos. O homem de meus encancantos dos meus trinta era de baixa estatura, gordinho, rosto redondo como a lua, humor idêntico as quatro fases lunares: cheia. minguante, nova e crescente. Na cheia, levava-me ao teatro ou cinema, presenteava-me especialmente com belas camisolas e vestidos, elogiava-me. Minguante: viajava para a região dos lagos onde tinha um sítio e passeava com seus barcos. Nova: aparecia em geral de bermudas e convidava-me para ir à Prainha ou Barra da Tijuca. Crescente: meu Deus, o potuga tornava-se um pequeno leão, rugia, lambia e amava-me como um louco animal.
Era sexta-feira. Fui à igreja de São Paulo Apóstolo, pois apreciava olhar os olhos contritos das devotas em oração e depois o acender das velas. Não queria, mas vi a mulher dele a chorar, rezar e demorar a riscar os palitos de fósforos para acender suas velas. Impressionou-me notar suas olheiras roxas e profundas. Sabia quem era, mas ela não me conhecia. Petrificou-me sua fisionomia de sofredora. Aproximei-me e a ouvi dizer a uma amiga: - Não liga mais para mim e nem elogia meus vestidos novos! Será que tem outra? Ando desconfiada.
À tarde, veio me ver. Ria à toa, risadas sem sentido. Às vezes suspirava. Ao passar pelas igrejas benzia-se e passei a notar que seus olhos entristeciam.
Sei lá! Após ver Neusa tão desolada, piedosa a balbuciar seu rosário de joelhos diante da Santa, algo se quebrou dentro de mim. Empurrei-o ao tentar me abraçar. Assustou-se. - Que é isso?
- Não, por favor, dedique-se a ela! Não quero mais seu amor!
- Estás louca, mulher?
- Nunca estive mais lúcida em minha vida. Por favor! È decisivo, afaste-se de mim!
- Podes me dizer ao menos qual a razão?
- Sim, sonhei com Nossa Senhora da Conceição e ela me ordenou para me afastar de você. Vá, cuide de sua mulher! Ela casou por amor! Não te amo!
Carlos era pegajoso e demorou a compreender a minha decisão. Quis brigar. Calei-me. Talvez me desse um tapa, tal a cara de ódio, mas finalmente baixou a cabeça, entrou no carro e vazou.
Viajei em seguida para Cuiabá. Hospedei-me com a querida cunhada Sueli e mano Nilo, e vivia encantada com as gracinhas dos sobrinhos Thânia, Wânia, Luthero e Rogério. Bons tempos! Jamais comi pratos tão saborosos como os feitos pela cunhada. Ajudava-a, se não tivesse empregada, a lavar pratos, talheres e panelas.
Era uma beleza, verdadeiro paraíso aquele imenso quintal de mangueiras, bocaiuveiras, cajueiros, goiabeiras e muito mais. Na piscina de águas azuis mergulhava, ao lado do grupo de meninas e meninos, amigos dos sobrinhos. Era um céu!
Acomodava-me junto à felicidade dos meus parentes.
Soube do concurso a se realizar para fiscais da Fazenda. Insrevi-me. No primeiro dia de aula, olhei e ele me olhou, e começava um novo romance. Que pena! Homem inteligente, jornalista, advogado, realizado na vida. Casado!
Que terra mais variada! Afinal, não sou mulher bonita, mas dizem que sou interessante. As mangas são saborosas, mas a gente chupa o caldo e joga o caroço fora. Quem sou? Uma mulher desquitada a mexer na relação de homens casados? Não, eu não queria isso.
Tenho amigos e estes me aconselham a sair dessa. Cai fora! Logo com o Vagareza? Era seu apelido, por andar muito devagar.
Passa-me pela lembrança o conselho do primo Ronaldo: - Martha, ele é conhecido por ser garanhão, mas não seja mais uma na sua vida, por favor! Você pode até se unir a um viúvo. Não a ele!
Jejé amigo falou assim: - Suma da vista dele! É porcaria! Não vá se sujar!
Tive vontade de voltar para o Rio.
Voltei. Fui à praia, fiquei pretinha e à noite ia escutar músicas clássicas no Cecília Meirelles.
Mas... Novamente me vi frente a frente com Carlos.
Pensei, se estvesse no campo, certamente seria mordida por uma cobra venennosa. Uma coral!
Que é que pode fazer uma mulher sozinha no mundo? Vivia em perigo!
Bem, hoje são passados muitos anos e estou sozinha. Que bom! O fogo apagou! Sou avó e bisa querida! Sou feliz!
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