quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

CULTO DOMÉSTICO



Em nossa casa, após fechar a livraria, mamãe cercava-se dos filhos e começava o Culto Doméstico.  A Bíblia era volumosa e era colocada sobre a mesa. Ou mamãe ou Dely liam trechos do Novo Testamento, após o que era explicado aos menores cada parábola. Hélio Mário estava com 4, eu com 7 e Joãozinho (como chamávamos o mano João Pedro) tinha 10 anos.
Em atitude de recolhimento natural ao se tratar das palavras de Deus, todos prestavam atenção às palavras ditas pelo dirigente. Uma parábola que me intrigava era a da figueira sem frutos. “Cedo, de manhã, ao voltar para a cidade, Jesus teve fome; e, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e, não tendo achado senão folhas, disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E a figueira imediatamente secou. Vendo isto os discípulos, admiraram-se e exclamaram: Como secou depressa a figueira! Jesus, porém, lhes respondeu: Em verdade vos digo que se tiverdes fé e não duvidardes, não somente farei o que foi feito à figueira, mas até mesmo se a este monte disserdes: Ergue-te e lança-te no mar, tal sucederá; e tudo quanto pedirdes em oração, crendo, recebereis. (Matheus: 21: 18 a 22)
Foi-nos explicado que a figueira secou por não dar frutos e que cada um de nós teria que frutificar, ou seja, produzir alguma coisa e não ficar inerte na vida. Também a fé em Jesus, filho de Deus, teria que ser real, pois tudo teríamos,  se crêssemos no seu poder.
Dely sugeriu que cantássemos a música “Crer e observar!” Até hoje a tenho em minha mente, em especial o trecho “o fiel obedece ao que Cristo mandar!” A madrasta da mamãe, vovó Aracy Santiago de Lima, gostava muito dessa música e parece que neste momento a revejo a cantá-lo, com sua voz afinada.
No momento da oração era algo terrível para nós, os pequenos, porque não sabíamos o que deveríamos pedir. Joãozinho, certa vez passou o dia na casa do tio Olavo, e viu a matança de um porco. Sensível como era, apavorou-se, e voltou para nossa casa. Então, em sua oração, naquele dia, João Pedro pediu: “Jesus, perdoe tio Olavo, que matou com aquele facão afiado o porquinho que tanto gritou de sofrimento! Perdoe o tio, Senhor!”
Nós começamos a rir e mamãe nos repreendeu, porque ele estava dizendo o que afligia seu coração. Passou-nos um ‘sabão’ e depois nos colocou de castigo, um em cada canto do quarto por alguns minutos, a orar o Pai Nosso. Nilo e eu, porque o mano Hélio era uma criança.
 Recordo-me das belas orações da mamãe. De pé, olhos fechados, mão direita espalmada sobre a Bíblia agradecia a Deus pelos negócios feitos naquele dia, pela direção dada por Deus na educação dos filhos, pela comida que tínhamos à mesa, diariamente, e também suplicava nominalmente por algumas pessoas que estavam doentes ou tinham outros problemas.  Ao final do culto, orávamos o “Pai Nosso”.
Mal terminava o culto, corríamos para a Rua 13 de Junho, onde já nos esperavam Lúcia, Pelágio, Elione, Marley, Ivany, Miguel, Carlitos e outros amigos. Às vezes, corria para a casa da dona Joanita e João Francisco de Arruda, também na 13 de junho, onde brincava à vontade, pulando de saco em saco, com Aroldo, Maria Helena. Fernando e (ora, esqueci o nome do outro irmão.)  Perdão!  Era um armazém de secos e molhados do Sr. Urbano de Arruda, primo de papai. Sinto muito, mas em uma das vezes foi tamanha a bagunça que acabei por quebrar um filtro. Aroldo me contou que eles tomaram uma surra por minha causa. Não voltei mais lá! Tinha vergonha.
Do culto doméstico ficaram em mim os ensinamentos da nossa mãe, que além de ser tão bela sabia falar de maneira que compreendêssemos. Até hoje, nas horas de silêncio, oro e parece que mamãe também ora comigo.
João Pedro está doente, mas sempre repete o versículo do Salmo 23: 1: “O Senhor é meu Pastor; nada me faltará!”
Sim, tenho certeza, nada nos faltará!

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