Noite de ventos uivantes. Chadó,meu cachorro, uiva também. Das palmeiras do jardim como cabeleiras despenteadas caem alguns galhos. O perfume que me chega às narinas é de violetas. Laura, moradora de cima coleciona violetas. Vem de lá. Trata-as como filhas e até sussura segredos a elas. Do prédio da direita, em construção, as ripas de madeira estemelicam. À direita, o casarão cercado de margaridas mantém-se quieto, como se estivesse em meditação. Curioso!
Lembro do tempo de meninota, quando inventava histórias de fantasmas para meu irmão Hélio Mário. Seus olhos arregalavam com pavor. Até que Dely, a mana mais velha, ouviu e proibiu-me de ficar criando assombrações. Desse jeito, ele nem dormirá com medo! Invente outras, mas não de monstros! Calei-me!
Tempo voa, hoje, em Jurerê, a sós com o cachorro,livros e notebook, o cheiro de flores embrulha-me o estômago.
Respiro fundo, amedronta-me ter mais uma crise de asma. Numa delas, morri por quinze minutos. Não fosse as massagens de Dr. Sebastião e o balão de oxigênio que me enfiaram na garganta, e já era!
Pouso as mãos sobre a mesa de madeira. Fecho os olhos. Tantos cheiros que se misturam... Terá jacas por aqui? Nunca percebi. Mas é o perfume de jaca que me veio forte e meloso.
Repasso cenas de outrora. Desta vez na Alcan, onde trabalhei durante três anos.
Lana, crioca abusada, às vezes reclamava que a sala cheirava a menstruação. Quem está de paquete por aqui? Jussara, tímida, sempre de olhos baixos, logo respondia: - Eu não! Por favor! Aline, Babita, Déa e as outras mandavam Lana calar a boca. Ela sorria gostoso. Posso rever seu sorriso de dentes amarelos. Fumava demais.
Sem querer mordo a língua. Tenho medo. Uma sombra invade a sala. Que é isso? Um minotauro? Vôôôtttteeeeee!
Fecho os olhos de novo, o calor das mãos de um homem desliza sobre meu corpo.
Imobilizada pelo mêdo, o toque fez com que um desejo selvagem me invadisse.Estou apavorada.Quem é este homem? É loucura!
As histórias que inventava para meu irmão repasam-me pela cabeça.
Abro os olhos. Vejo a minha frente a expressão assustada de Chadó, que já não uiva e nem late.Lambe-me a mão.
O telefone toca.
- Alô!
- Como você está, mãe? Que vento Sul mais desesperado! Pensei em você! Está com medo?
- Não,filha! Só assustada! Desconhecia este vento até morar aqui. Bem que você me contou que teria pavor. Veio, deitou e rolou! Não sei para que lado vai...
- Dona Florinda atravessava a rua e repentinamente o vento a derrubou. É magrinha! Estava com seu guarda-chuva que virou no avesso.
- A luz apagou! Tá um brejo! Chadó e eu temos medo!
- Não esquente a cabeça! O vento Sul não vai te machucar! Ele é até meio palhaço, porque levanta as saias das mulheres e todas seguram as barras das saias com força. O vento Sul, creio, vem do Chile! Agita tudo, as árvores, as saias das mulheres, leva a sujeira das ruas, carrega um monte de areia, derruba árvores, casas de madeiras, uiva como os lobos. De repente vai embora. Mãe, deite e durma! Amanhã acordará feliz!
Desliga.
Abraço Chadó. Beijo-lhe carinhosamente. Visto a camisola e recolho-me à cama. Demorei, mas dormi!
É coisa do Sul!
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