quarta-feira, 30 de novembro de 2011

EM CÁCERES


Terezinha de Arruda, a quem o inesquecível amigo arquiteto Júlio Delamônica Freire chamava de ‘Madre Thereze’, por ter sido freira no passado, foi uma das melhores chefes que tive em minha vida. Amiga, conselheira, amável, pura, sincera e uma porção dos melhores adjetivos, certo dia me chamou e disse: - Marta, você irá a Cáceres, pois lá moram vários trabalhadores das usinas de açúcar do Rio Abaixo.


- Ótimo! Tenho vontade de conhecer essa cidade situada às margens do rio Paraguai. Quando irei?


- Amanhã. Aqui tem as passagens de ida e volta. Há vários hotéis na cidade e você pode escolher um deles.

Na manhã seguinte estava no Aeroporto Marechal Rondon. Às 7 horas, o bimotor levantou vôo. Foi curta e agradável a viagem. Ao descer em Cáceres, um garoto com cara de boliviano ofereceu para carregar a minha pequena mala. Não era necessário, mas dei força ao menino, que me sorriu com os dentes mais brancos e belos.  Valeu dar-lhe 5 reais em troca daquele sorriso. Contou-me seu apelido: Cacau, por causa da minha cor.

Indicou-me um hotel de sua amiga, dona Bega, e nem precisei pegar táxi, porque ficava a umas dez quadras dali.

Ao chegar, uma senhora de porte aristocrático, elegante e bonita recebeu-me com afetividade. Cumprimentou-me, deu as boas-vindas, e depois me perguntou:  - Vai passar muito tempo aqui?

- Não, apenas uma semana! Venho a serviço da Universidade Federal de Mato Grosso. Deverei entrevistar algumas pessoas que trabalharam nas usinas do Rio Abaixo. Conhece alguém?

- Tchô Lulu foi festá¹ em Porto Espiridião, mas volta amanhã. Foi fogueteiro da Usina das Flechas.

- Mora perto?

- Ali mesmo, nem vai cansar! É homem velho e bom! Vive contando histórias da Usina.    Levou-me até o quarto. Bem ventilado e com duas camas de solteiro. Lençóis limpos, travesseiros macios, moringa com um copo d’água, algumas gravuras de animais nas paredes.

Deixou-me a sós. Tirei as roupas e pendurei nos cabides. Troquei de roupa e vesti uma bermuda e blusinha fresca. O calor era grande.

Deitei. Fiquei a pensar o que me contaria o velho empregado da usina que foi de vovô. Confesso que fiquei apreensiva, porque mamãe contava-nos sobre a vida dos empregados das Flechas. Não era fácil! Sofriam muito. Bem, melhor aguardar a hora. Tirei uma soneca e acordei com o tilintar do telefone, quando dona Sara me chamava para almoçar.

- Oba! Cachara? Gosto muito deste peixe.

- Sim, é cachara feita pela Zelinda, que é uma cozinheira de primeira! Tem cambitos², mas suas mãos são especiais e não há quem resista ao sabor de seus quitutes³. Aliás, nem sei se é preconceito, mas quando escolho minhas empregadas olho nas pernas e se forem grossas, não contrato. Vovó me dizia que mulher de perna grossa é preguiçosa! Principalmente os tornozelos. Rsrsrsrsrsrs

Sem dúvida, a cachara foi aprovada. Repeti duas vezes. Não comi mais porque o estômago não suportaria mais.

À tarde sai a passear pelas ruas da cidade. Como Cáceres é bonita! Revivi a sua história. Criada 59 anos depois de Cuiabá, fundada em 1719, o 4º governador de Mato Grosso – Luiz de Albuquerque de Melo Pereira em 1778 criou Cáceres. Era uma aldeia em torno da igreja São Luiz de França. Quase todas as cidades se formavam ao redor das igrejas. Era comum! Uma das famílias mais ricas naquele período foram os donos da Jacobina, onde se refugiou Sabino Vieira, da Conjuração Baiana. Só em 1847 passou à categoria de cidade, com o nome de S. Luiz de Cáceres, mas em 1938 tornou-se  simplesmente Cáceres.

Às margens do rio Paraguai, daqui saíam lanchas levando poaia (ipecacuanha), produtos da Jacobina (açúcar, rapaduras, melados e produtos agro-pecuários), charqueadas de Descalvado e, no retorno, chegavam os importados da Europa: sedas, chapéus, leques, perfumes, cristais, porcelanas, chocolates e latas de biscoitos finos.

Veio-me à cabeça a passagem da Coluna Prestes e o medo sofrido pelo povo, em 1927. O presidente Roosevelt e marechal Rondon, em 1950, aqui estiveram, porém foi uma visita em que trouxeram benefícios à cidade, tanto que o nome da ponte é Marechal Rondon.

 Mais tarde retiraram do município novas cidades, como Mirassol d’Oeste, Salto do Céu, Jauru, Porto Espiridião, São José de Quatro Marcos, Araputanga e Reserva do Cabaçal. Assim mesmo Cáceres ainda é grande e faz fronteira com a Bolívia, onde estive e comprei bons perfumes franceses.

Cáceres conserva os encantos da bela S. Luiz de Cáceres! Há restaurantes de luxo, hotéis quatro estrelas, oferece uma cozinha mato-grossense perfeita e sua gente é mesclada com bugres e bolivianos. São muito hospitaleiros.

O dia amanheceu chuvoso, daí dona Bega mandar Danilo, seu choffeur, levar-me a casa do Sr. Lulu.

Era uma casinha de adobe, cercada de latinhas com flores, babosa, espada de São Jorge, arruda e um lindo pé de jasmim carregado de flores.

Dona Bega já o tinha avisado da entrevista e esperava-me sentado no batente da porta, ao lado de três meninos.

 - Bom dia, dona... Como chama? É gente de quem? (4)

- O senhor não conhece. Morei no Rio de Janeiro e recentemente voltei a Cuiabá. (Mamãe me aconselhara a não dizer o nome da nossa família, ainda mais ao falar com ex-empregados da Usina das Flechas, onde foram muito maltratados).

- Que qué esse (5), dona? De que será que um homem simples que nem eu, trabalhador de usina tenha assunto para dar entrevista pra senhora? Pode gorá! (6)

- Que nada, txô Lulu, desejo saber o que o senhor viveu naquela usina. Horas felizes e outras nem tanto.


- Horas felizes? Lá uma vez (7), como era jovem, a Miguelina me oferecia bons momentos. Acabei casando com ela, e meu deu 12 filhos. Mas os donos da Usina, dona, chinchavam (8) a gente por qualquer besteira. Isso quando não punham pelo cangote (9) no tronco ou pelas mãos. Nego ficava preso no meio do terreiro, ao sol, sem ter direito a uma caneca d’água! Bicho mau era Barará! Vôte! (10) Mas tinha um pior que ele! Era seu Nilo, fio mais véio do coronel! Nunca dava trela a nenhum trabalhador. Era casqueiro (11) demais! Era homem de rompância (12) até com a mulher! Coitada! Homem seboso! (13) Sem compostura! (14) Eu era fogueteiro. Tinha que manter o fogo aceso. Na época das água era difícil, porque as madeiras estavam molhadas, mas tinha que fazer o fogo! Fui safo (15) e com os fios fiz um barraco para guardar as madeiras e tenteei (16) as audácias daquele home! Sabe, dona Martha, as coisas ruins a gente têm de botar na voadeira (17) que vai e não volta mais! O hôme que falei para senhora ficou sozinho, abandonado pela muié. Como ela ia aguentá? Era professora, muié de brio na cara!  A minha primeira muié, Miguelina morreu no último parto, do menino Abadias, que já é avô! Casei com Emília e tive mais três. Quatro já faleceram. Hoje tenho oito da Miguelina e os três que brincam aqui no terreiro, Venham aqui Joilson, Jair e Garrincha! Venham conhecer a jornalista dona Marta!


Eram três guris de 14, 11 e 9 anos, calculei. Emília apareceu a sorrir. Era uma mulher de seus 30 anos, bugra de cabelos pretos lustrosos.


- Taí, dona! Não tenho mais nada a falar das Flechas. (Benzeu-se).  Vai com Deus e a Virgem! (18). Antes, porém me ofereceu um copinho de guaraná. Emília ralou na hora. Muito gostoso!


Dicionário do falar cuiabano


1. Festá = participar de uma festa.

2. Cambitos = perna fininha.

3. Quitutes = comidas.

4. É gente de quem? = Vem de qual família?

5. Que qué esse? = O que é isto?

6. Pode gorá! = Pode falhar!

7. Lá uma vez = Uma vez ou outra.

8.  Chinchavam = Beliscavam, cutucavam, davam cascudos.

9. Cangote = Pescoço.

10. Vôte = Deus me livre!

11. Casqueiro = Muito exigente, fora do normal.

12. Rompância = Arrogante, metido a valente.

13. Homem seboso = Antipático.

14. Sem compostura = Grosseiro e agressivo.

15. Fui safo = Fui esperto.

16. Tenteei = Equilibrei o mais que possível.

17. Voadeira = Barca a motor.

18. Vá com Deus e a Virgem Maria = Ao despedir-se de alguém que trouxe más lembranças.

 

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