quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
JUBILANIA
Jubilania, nome estranho, enfim era a herdeira de dona Jubilania da Cruz Morais de Bragança, avó paterna, dona de fazenda e muito gado. Acrescentou apenas o Neta e os amigos a chamavam de Bila, mais fácil de pronunciar.
Agosto. Mês que Bila detestava. Murcha como uma rosa que se despetala, sequer queria sair da cama. Todavia, a mãe – dona Sofia – não deixava por menos.
- Ué, não vai à igreja hoje? De que será! Não é porque tem quarenta e dois que vai me desobedecer. Levanta logo e veste aquele vestido que trouxe de Paris. Anda! Elza, sua filha já foi para o culto. Depressa! Já passa de dez horas!
Finalmente tomou uma chuveirada e desolada vestiu a roupa que a mãe deixou sobre a cama. Há anos era assim, e por isso mesmo Waldir, o marido, escapuliu com outra mulher para os Estados Unidos. Sumiu, ninguém viu!
Vestir como jovem senhora, era gosto da mãe e dela também. Mas naquela pequena cidade havia um abismo entre o modo de vestir entre jovens e jovens senhoras
Ao entrar na igreja, notou alguns cochichos entre as amigas. Amigas?! Todas eram falsas e maldosas. Temíveis como uma cobra caninana, jararaca ou outro animal selvagem.
- Vovô sempre me dizia, presta atenção, o animal pode ferir seu corpo, mas uma falsa amizade irá ferir sua alma!
Elas futricavam: - Veja só, pensa que ainda é moça de vinte! Só de estrada são trinta, fora os vinte que mamou! Alguém tem de falar com ela! Coitada! Não se manca! Ora, tem filhas de vinte e outra de dezesseis!
- É verdade, Olga, mulher de quarenta tem que ser discreta! Viu a cor do baton dela? Vermelho rubro! E as unhas? São estrelas multicoloridas! Vestido estampado, brilhante, tomara que caia e bolero curtinho... E ah! Será que endoidou? Se fosse sua filha Elzinha chamaria sua atenção! Ela, porém, ocasiona-nos susto. Onde já se viu?
- O que é que há?!... Por que me olham desse modo e ficam aí cochichando? Quem cochicha o rabo espicha! – rispidamente falou Bila.
- Quem importa o rabo entorta! – rebateu Lilica.
Na verdade, naquela cidadezinha do Centro Oeste ficava claro o abismo entre a maneira de uma mulher de vinte e poucos anos se vestir e outra de quarenta. Era um escândalo! Motivo de fofocas.
Bila era de família rica e seus pais viajavam anualmente pela Europa, na volta vinham com as malas abarrotadas de calças compridas, blusas, vestidos, chapéus, bolsas, leques e outras novidades. Tanto para a filha como para as netas Elza e Lorena.
As ‘amigas’ morriam de inveja e, para desanuviar as mentes sujas, metiam a lenha na mulher de quarenta e poucos, cujas roupas eram um acinte para pequenez de seus vestidos de leze, cambraia, linho e algodão.
- Figa! De onde tirou esse vestido?
- Inveja fez Caim matar Abel, sabia? Não vão morder a língua, senão ficarão envenenadas. – retrucou Bila.
Naquela manhã bem que amanheceu amuada e tampouco viria ao Culto, pois imaginava que uma delas iria invocar com sua maneira de ser.
- Que culpa a minha? Mamãe trouxe este vestido de Paris e vocês sabem que ela conhece a moda como ninguém! Ora bolas, carambolas! Vê se me esquecem!
Naquela noite nostálgica Bila relembrou sua luta para ser aceita na sociedade acanhada do Centro Oeste, em que seu nome corria de boca em boca…
Hoje, na Itália, recorda tristemente daqueles dias de crueldade e maldade sofridos em Cuiabá.
Tornou-se nova mulher ao se mudar com a família para novo país. Até que enfim, vivia tranquilamente fosse de calça cumprida ou de vestidos coloridos e joviais.
Conheceu Luigi Torres, italiano de Nápoles e, felizmente, viviam enamorados. Casaram-se e eram felizes.
Em Cuiabá,nos anos 60, havia um ícone de estilo para o clube das quarentonas. Pobre gente de pensamentos curtos e infelizes.
Hoje é meu aniversário. Faço 50 anos, e visto calça comprida com uma blusa amarela cor do sol, e minhas amigas sequer reparam a cor da minha roupa. Luigi me beija e confessa: Como você está bonita e jovem, Jubilânia. Te amo!
Foi um pesadelo!
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