quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
MAMÃE E SUAS VISITAS
Por ser muito bagunceira, anarquista, briguenta, pois tinha as costas quentes do mano João Pedro, e se uma das vizinhas me desse um beliscão, ganhava dois do Joãozinho. Aprontava!
Daí o hábito de mamãe me carregar nas visitas às amigas.
Os passeios me distraiam, embora à vezes sentisse tédio.
Mamãe gostava de visitar as muitas amigas e demorava de duas a três horas naquela conversa de ‘cerca Lourenço’. Mas era sempre aos domingos, já que de segunda a sábado, era comerciante, doceira e mãe de sete filhos ‘ossos duros de roer’. Ninguém era santinho! Dely parecia com mamãe!
Minha mãe, a visitadeira, vestia-se com o vestido mais bonito e fazia um belo coque. Como era bonita! E lá ia eu de mãos dadas com mamãe, ora no Porto ora no Cai Cai, ora no Bosque. Belos passeios na pequena Cuiabá dos anos 45.
Menina de sete anos, caladinha sentada numa cadeira ou até no batente, observava uma a uma. Suas amigas, às vezes eram engraçadas. Nunca perdi tempo. De cabeça baixa, às vezes sorria.
Dona Amélia, mulher inteligente, dedicada à cultura, professora de Geografia do Colégio Estadual de Mato Grosso, era muito inteligente. Conversa vai, conversa vem, contava à mamãe seus anseios de que a mulher cuiabana soubesse expressar-se melhor, ouvissem músicas, declamassem e lessem bons livros. “A nova mulher tem que saber defender seus direitos, como o direito ao voto. Você é uma mulher a quem admiro, pois soube defender-se muito bem! Bato palmas e peço bis!”
Febrilmente contava alguns fatos do cotidiano e mamãe concordava com tudo. “Amelinha, você tem razão, sei de cada fato que me deixa estarrecida! De que! Dar meu rosto a uma tapa do marido?! Ora! De que será?!...
Estranho o hábito da professora Amelinha, porque salivava e cuspia longe ao falar com a boca desdentada. Todavia, a ‘chapa’, como diziam, estava de molho no copo no d’água. Tanto a dentadura inferior como a superior.
Baixinho, achava graça e ria!
Banguela, salivava e cuspia longe, em especial, quando reclamava de qualquer acontecimento.
“Estas dentaduras me machucam a boca! Só uso quando vou à Academia Mato-grossense de Letras ou quando saio com o marido para a retreta do Jardim Alencastro! Ora, de que! Não nasci com dente! Não é mesmo?”
Era sábia, simples e engraçada.
Escrevia artigos na ‘Violeta’ e orgulhava-se de ter alfabetizado mais de cem cuiabanos e até uns índios da tribo Bororó.
Sorri e ela percebeu. Lançou-me um olhar aborrecido, entretanto fez um parêntesis para me dizer: - “Sei bem que gosta de ler! Já a peguei diversas vezes com livros nas mãos. Leia, minha filha, pois só terá a ganhar!”
Na hora de ir embora, após tomar um copo de suco de goiaba, caminhava de mão dada com aquela mãe linda, de quem todos nós, filhos, orgulhávamos-nos.
Zabelinha veio do Sucuri, município próximo de Cuiabá. Simpática, sempre me oferecia balas, enquanto comentava com mamãe sobre os despropósitos das moças daquele tempo.
“Veja só, namoram apenas três meses e já andam de mãos dadas, abraçam e beijam. Que falta de vergonha! Bide só me beijou na véspera do casamento! Ainda bem que não tenho filhos e nem filhas, porque se tivesse, com certeza, daria a eles uma educação melhor! Vôte!”
Chandinha morava sozinha e seu marido, telegrafista, enlouqueceu. Ouvi alguém contar que não suportava o barulho do telégrafo, Morse. Trancado em um dos quartos da casa, gradeado tipo prisão, parecia-me calmo e tristonho.
Às vezes Chandinha alteava a voz ao contar casos à mamãe, então o marido andava de um lado pra outro, e com um grunhido imitava os sinais Morse. Que homem estranho! Mas me sorria bondosamente. Tinha um dente de ouro que brilhava!
Dona Rita morava no Porto. Senhora gorda, simpática, fina e agradável, que nas visitas de mamãe, dona de uma padaria, colocava sobre a mesa uma variedade de pães e biscoitos, e duas ou três jarras de refresco. Gostava mais do suco de caju, que suava no copo.
Sentia-me à vontade. Em geral, falava sobre seus familiares - Castrillon - naturais das Astúrias.
“Você sabe que meus ancestrais vieram do Reino das Astúrias? Foi a primeira região da Península Ibérica a se libertar dos Mouros. Nossa gente era cristã! Daí, eles formaram a primeira entidade de política cristã. Orgulho de meus ancestrais” – declarava com voz firme e feliz.
“Um de meus tios mora em Cáceres e também é dono de padaria, mas às vezes se mete a criticar a política, daí temer que se envolva e acabe preso. Admiro seu jeito agradável de viver e ser!”
Dona Maria morava no Campo D'Ourique. Seu marido, como a maioria dos homens de Cuiabá, não negaceava quando tinha por perto uma jovem novinha e cheia de curvas. Foi ali que ele se embaraçou e o filho de Rosinha (empregada da família) nasceu o seu retrato. Escarrado! “O povo comenta pelos cotovelos. E ah! É meu marido e não é qualquer Joaninha que vai me fazer brigar com ele! Domingo, na hora da retreta vamos passear vestidos com nossa roupa mais chique e cheios de pose. O que pensam que são? Aqui tem família de padre e até o Arcebispo dorme com moça de família que entra na Residência vestida de soldado! Tá aqui!" Deu uma banana e mamãe achou graça. Também deixei escapar uma risada.
Súbito, ouvimos uma canção de Noel Rosa vinda do quarto. "Está vendo, meu marido é romântico! O que posso fazer contra ele? Nada! Essa gente que vá caçar sapo com bodoque! Vou criar o menino como se fosse meu!”.
Dona Joselina, descendente de sírios, posso afirmar, era um Anjo! Junto dos pequenos, cantava e brincava de roda. Ao receber a visita de mamãe, dizia: "Que bom receber sua visita! Foi Deus que lhe mandou! Estava a sós, os filhos saíram! Como vai Martha, estudando muito? Fiz um bolo de abacaxi e daqui a pouco vamos ver se está gostoso e também tomaremos um copo de suco de uva. Você vai gostar!”
Era um passeio que sempre me agradava! Dona Joselina vive na minha alma e tenho por ela um sentimento de amor profundo como se fosse minha tia! Deus a levou como leva a todos que envelhecem! Também irei um dia!
Na casa de dona Cindola, sentávamos na calçada em confortáveis cadeiras de balanço. Fazia bala alfenis, branca como neve, e me dava um pacote delas que derretiam na minha língua.
“Pois é, dona Iza, o Henrique arrumou um rabo de saia. Ela mora no Bosque. Diz-me sempre que está cheio de entregas, porque tem caminhão. No entanto, sei que se enfia na casa da Risoleta, uma loira farmácia por quem se apaixonou. O pior aconteceu quando Henrique adoeceu e teve que ser hospitalizado. Divido com ela as visitas: vou de manhã e levo o almoço, Risoleta vai à tarde e leva a sopa que ele gosta, de cebola!”
“Não culpo totalmente o Henrique, porque ando cansada e tornei-me uma mulher gelada! Ele é fogo na roupa! Homem que é homem não fica sem mulher! Que Risoleta satisfaça seus desejos!"
Dona Nhanhá de seu Quinco gostava de sua vidinha de rede. Na hora da visita de mamãe, balançava-se dando impulso com uma das mãos, porque a rede era bem baixinha. "Pois é, dona Iza, Os filhos está todos casados, só Beni é solteira! Quinco tem seu quarto e é tratado como um Re! De vez em quando desparece e nem quero saber por onde anda! Gosto de viver em paz! Passou o tempo de ser mulher de Quinco, hoje somos amigos!"
Oferecia-nos doce de caju seco e um copo de refresco. Também não usava as dentaduras, que ficava dentro de um copo dágua, sobre a penteadeira.
Isabel, por namorar um homem casado, não só foi expulsa da Igreja Presbiteriana como também pela irmã Chandinha. Mamãe orava por ela e pedia que corrigisse seus erros para ser feliz. Oferecia-nos bananas vindas da fazenda do seu amado. Que bananas deliciosas!
Não demorou muito tempo e sofreu um infarto que a levou. Mamãe foi ao enterro, mas não me levou! Tinha apenas oito anos!
Dona Amélia tinha filhas lindas e seu marido trabalhava no Ministério da Agricultura, junto de papai. Bem que poderia ter poupado minha observação, mas sua barriga era grande demais, como se estivesse grávida. Nunca perguntei nada a mamãe, porque tinha medo de suas zangas. Impressionava-me, contudo, pois já deveria ter cinquenta anos. Nem se passaram seis meses e vi mamãe chorando.
O que foi? - Minha amiga Amélia morreu! Era tão boa!
Fui visitar vovô João Pedro, que estava tuberculoso. Dormia em cama de solteiro e tossia sem parar. Gostava dele e no silêncio do banheiro pedi a DEUS para curar vovô, pai de papai. Era um homem muito bom e justo.
Dias depois, com mamãe fui ao seu enterro. Minhas primas ricas estavam lá: Maria Alice, Deidei, Terezinha, Helena. Notei que no rosto da Deidei havia uma lágrima parada, não caía. Estranho! Não chorei, pois finalmente vovô descansou. Vovó também não chorou. Pareceu-me livrar-se de algo incômodo.
Mamãe me contou que há muitos anos ela decidira não dormir mais ao seu lado dele. Tio Hélio protestou, mas ela manteve a decisão. Vovó era fogo!
Na visita à dona Eulina, apelidada de dona Pomba, relutava em ir com mamãe, pois era uma mulher grosseira, que falava o dia inteiro sobre o mesmo assunto com seus filhos. Pobres coitados! Repetia, repetia, repetia. O marido, Américo, era telegrafista e contava-se sobre ele o seguinte: "Ninguém arrumava uma mala tão perfeita como ele! Sentia vontade de ver, mas nunca vi!"
Dona Pomba ia cedinho, cinco da manhã, orar junto com mamãe no Mundéu, debaixo de uma árvore frondosa. Da minha rede escutava o toc...toc...toc de suas passadas. Eram pesadas!
Liam a Bíblia, discorriam sobre as passagens e depois oravam pelos seus filhos. Ela tinha sete filhos e mamãe tinha igual número.
Certa madrugada, enquanto oravam ajoelhadas debaixo da árvore centenária, um rapaz viu de longe a cena e saiu em disparada. Julgou ser assombração. Elas riam muito do fato.
Dona Eulina saiu de Cuiabá, morou em Campo Grande, e depois foi para o Rio de Janeiro. Mamãe deixou Cuiabá a convite da amiga Erna Reiners Vilá, visitou a Cidade dos Pinheirais e gostou de Curitiba, para onde se mudou. Anos mais tarde, foi para o Rio, onde se encontrou novamente com dona Eulina. Eram boas e fiéis amigas!
Meu coração bate aceleradamente ao relembrar das visitas de mamãe – com a sua mascote – e me dá vontade de novamente ir de casa em casa visitar suas boas e queridas amigas!
Todas foram chamadas por Deus! Saudades!
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