sábado, 11 de janeiro de 2014
Mamãe, a visitadeira!
Por ser muito bagunceira, mamãe em suas visitas às amigas costumava levar-me habitualmente. Era visitadeira, sábados e domingos eram dias dedicados aos passeios pela pequena Cuiabá dos anos 45, em visita às amigas queridas.
Dona Amélia, mulher inteligente e dedicada à cultura, relatava seus anseios para que a mulher cuiabana soubesse falar, declamar e defender seus direitos, como o direito ao voto. Dialogava febrilmente, porque era apaixonada pelos direitos da mulher. Uma coisa, no entanto, chamava-me atenção, num copo com água conservava as dentaduras inferior e superior, e banguela falava e cuspia no ar. Achava graça. Dizia que as dentaduras machucavam suas gengivas. "Só uso quando vou à Academia Mato-grossense de Letras ou quando vou com o marido na retreta do Jardim Alencastro!" Ora, de que! Ficar com a boca toda machucada! Era uma senhora sábia e simples, que escrevia artigos nos jornais da época, professora dedicada alfabetizou grande número de cuiabanos e até índios Bororó.
Zabelinha veio do Sucuri, município próximo de Cuiabá. Simpática, sempre me oferecia balas, enquanto comentava com a mamãe sobre os despropósitos das moças daquele tempo, pois namoravam apenas três meses e já andava de mãos dadas, abraçavam e beijavam. Uma senvergonhice! Ainda bem que não tive filhos, porque se os tivesse daria outro jeito, uma educação muito melhor!
Chandinha morava sozinha e seu marido, telegrafista, tinha enlouquecido. Comentam que por não suportar o barulho do telégrafo endoidou. Um dos quartos da casa era gradeado tipo prisão e, na hora em que ela punha suas revoltas e desejos para fora, o marido andava de um lado para outro, imitando os sinais Morse. Observava aquele homem estranho, que gostava muito das crianças. Sorria-me bondosamente.
Dona Rita residia no Porto. Senhora simpática, fina e agradável, que nas visitas de mamãe, como era dona de padaria, dispunha sobre a mesa uma grande variedade de pães e biscoitos, e várias jarras de refresco. O que mais gostava era o suco de caju, que no copo suava. Sentia-me à vontade. Em geral, discorria sobre seu familiares - Castrillon - naturais das Astúrias. Um de seus tios morava em Cáceres e também era dono de padaria, mas às vezes se metia a criticar a política, daí temer que se embaraçasse e fosse preso. Admirava seu jeito agradável de receber!
Dona Maria morava no Campo D'Ourique. Seu marido, como a maioria dos homens de Cuiabá, não negaceava quando tinha por perto uma jovem novinha e cheia de curvas. Foi ali que ele se embaraçou e o filho de Talita nasceu a sua cópia. "O povo comenta pelos cotovelos. E ah! É meu marido e não é qualquer Joaninha que vai me fazer brigar com ele! Domingo, na hora da retreta vamos passear vestidos com nossa melhor roupa e cheios de pose. O que pensam que são? Aqui tem família de padre e até o Arcebispo dorme com moça de família que entra na Residência vestida de soldado! Tá aqui!" Deu uma banana e mamãe achou graça.
Súbito ouvimos uma canção de Noel vinda do quarto do marido. Ele também cantava. "Está vendo, meu marido é romântico! O que posso fazer contra ele? Nada! Essa gente que vá caçar sapo com bodoque!" Soube que ela criou o menino como se fosse seu filho!
Dona Joselina, descendente de sírios, posso afirmar, era um Anjo! Junto dos pequenos, cantava e brincava de roda. Ao receber a visita de mamãe, dizia: "Que bom receber sua visita! Foi Deus que a mandou aqui. Como vai Martha, estudando muito? Fiz um bolo de abacaxi e daqui a pouco Amélia vai arrumar a mesa para nós o saborearmos com suco de uva. Você gosta, querida!" Foi um passeio que sempre me agradou! Dona Joselina vive na minha alma e tenho por ela um sentimento de amor como se fosse minha avó. Deus a levou como leva a todos que envelhecem! Também vou!
Na casa de dona Cindola, ficávamos na calçada e como fizesse alfenis, dava-me um pacote de balas de coco que derretiam na minha língua. O marido, Henrique, arrumara uma mulher que morava no Bosque. Dizia estar cheio de entregas, pois tinha caminhão. No entanto, ela sabia que se enfiava na casa da Risoleta, uma loira farmácia por quem se apaixonara. O pior aconteceu quando seu Henrique adoeceu e foi hospitalizado. As horas eram irmãmente divididas para visita de uma e outra. A esposa desculpava-se que desde os cinquenta anos gelou muito e dava direito a que procurasse uma mulher para satisfazê-lo. "Homem que é homem não fica sem mulher! Que a Risoleta satisfaça seus desejos!" - justificava.
Donha Nhanhá de seu Quinco gostava de sua vidinha de rede. Na hora da visita de mamãe, balançava-se dando impulso com uma das mãos, porque a rede era bem baixinha. "Pois é, dona Iza, Os filhos está todos casados, só Beni é solteira! Quinco tem seu quarto e é tratado como um Re! De vez em quando desparece e nem quero saber por onde anda! Gosto de viver em paz! Passou o tempo de ser mulher de Quinco, hoje somos amigos!" Oferecia-nos doce de caju seco e um copo de refresco de abacaxi. Não usava dentadura, que ficava dentro de um copo dágua, sobre a penteadeira.
Isabel, por namorar um homem casado, não só foi expulsa da Igreja Presbiteriana como também pela sua irmã Chandinha. Mamãe orava por ela e pedia que corrigisse seus erros para ser feliz. Oferecia-nos bananas vindas da fazenda do seu amado. Que bananas deliciosas! Não passou muito tempo e sofreu um infarto que a levou. Mamãe foi ao enterro, mas não me levou! Tinha só 9 anos!
Dona Amélia tinha filhas lindas e seu marido também trabalhava no Ministério da Agricultura, o mesmo do papai. Bem que poderia ter poupado minha observação, mas sua barriga era enorme, como se estivesse grávida. Nunca perguntei nada a mamãe, porque tinha medo de suas zangas. Impressionava-me, contudo, pois já deveria ter cinquenta anos. Nem se passaram seis meses e vi mamãe chorando. O que foi? - Minha amiga Amélia morreu! Era tão boa!
Fui ver vovô Joao Pedro ,que estava tuberculoso. Dormia em cama de solteiro e tossia sem parar. Gostava dele e no silêncio do banheiro pedi a DEUS para curar meu avô, pai de pai. Era homem bom! Meses depois, com mamãe fui ao seu enterro. Minhas primas ricas estavam lá: Maria Alice, Deidei, Terezinha, Helena. Então, também estava lá, e notei que no rosto da Deidei havia uma lágrima parada, não caía. Estranho! Não chorei, pois finalmente vovô descansou. Vovó também não chorou. Pareceu-me livrar-se de algo incômodo. Mamãe me contou que há muitos anos ela decidira não dormir mais ao lado dele. Tio Hélio protestou, mas ela manteve sua resolução.
Na visita à dona Eulina, apelidada de Pomba, relutava em ir com mamãe, pois era uma mulher grosseira, que falava o dia inteiro sobre o mesmo assunto com seus filhos. Pobres coitados! Repetia, repetia, repetia. O marido, Américo, era telegrafista e contava-se sobre ele o seguinte: "Ninguém arrumava uma mala tão perfeitamente como ele! Sentia vontade de ver, mas nuca vi!" Dona Pomba ia cedinho, cinco da manhã, orar junto com mamãe no Mundéu, debaixo de uma árvores frondosa. Liam a Bíblia, discorriam sobre as passagens e depois oravam pelos seus filhos. Ela tinha sete filhos e mamãe tinha o mesmo número. Certa vez, enquanto oravam ajoelhadas, um rapaz viu de longe e saiu em disparada. Julgou ser assombração. Elas riam muito desse fato.
Anos depois dona Pomba mudou-se para Campo Grande e depois para o Rio de Janeiro, no Flamengo.
Mamãe também se mudou para Curitiba e fomos todos para a cidade fria. Nilo, João Pedro e eu queríamos voltar a Cuiabá. Nilo empregou-se no Correios e conseguiu transferência para Cuiabá, onde o esperava a bela Suely Cuiabano Monteiro, com quem se casou e teve quatro filhos: Thânia, Wânia, Luthero e Rogério. João Pedro foi estudar Artes Plásticas em Paris. Dely adaptou-se perfeitamente a Curitiba, estudo Direito (3º ano), pois o futuro marido, Eduardo Winter, médico, convenceu que devia trancar a matrícula. Casou e é muito feliz com a filha Solange, genro Mauro, netas Desirée, Giselle, Simone e Lucas e, hoje com as encantadoras bisnetas Isadora, Amanda e o Eduardo, que deverá nascer em breve. Eu,aos dezessete anos, casei-me com Marinato Dias de Paiva, eng.º agrº, casamento que durou apenas seis anos. Meus filhos Marinari, Marcia e Mara, a pedido da avó, foram criados por ela. Alegava ter apenas um filho e que teria mais tempo para cria-los. Arrependi-me, mas não há mais tempo para modificar nossas vidas. É a vida!
Quando ia a Cuiabá, as amigas da mamãe relembravam as suas visitas e diziam sentir saudades daquele tempo.
Todas as amigas da mamãe e ela também já estão no Paraíso!
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